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25/07/06
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OPINIÃO: O dia antes de amanhã : Calor em lua de Saturno é mistério
O dia antes de amanhã Quando eu era criança e os tempos eram outros, sempre ouvia a minha avó (que se fosse viva, este ano completaria um século de existência), falar em “acautelar” o futuro. Ela uma mulher simples, analfabeta, mas das pessoas mais inteligentes e perspicazes que conheci. Não foi do tempo dos subsídios, nem dos proveitos fáceis. Para ela, tudo deveria ser merecido, conseguido com trabalho e esforço. Sentia um íntimo desprezo por aqueles que ela considerava inúteis, porque acreditava que cada pessoa dentro das suas possibilidades tinha um contributo importante para dar à sociedade. E defendia o dever de cada um assegurar o seu futuro e dos seus. Era muito dedicada a plantas: flores de jardim, “ervas de chá”, árvores de fruto. Sempre que plantava uma árvore dizia: “Provavelmente não vou chegar a vê-la dar frutos. Mas serão para vocês.” Tudo aquilo que ela fazia, fazia-o contando com o futuro. E era incrível como ela quase conseguia fazer previsões. Como temia os pesticidas e desconfiava dos adubos sintéticos. Como comentava que era importante tratar bem a terra para que desse bons frutos e como tudo devia ser doseado de modo a que não faltasse no futuro. Mas essa era a minha avó, uma mulher do campo, analfabeta. Que não estudou, mas que entendia facilmente a lógica das coisas e via para além donde os seus transparentes olhos azuis alcançavam. Lógica e visão essas, que infelizmente faltam a tantas doutas personalidades, “cultas”, “formadas” e “sabedoras”. Todos sabemos, ou deveríamos saber, que a Terra é um espaço limitado. Que por muito grandes que sejam as jazidas de petróleo, elas são muito pequenas, face às exigências cada vez maiores de consumo de energia. A minha avó, analfabeta, aconselharia desde o início, que se começasse imediatamente a procura de alternativas para que se tivesse o futuro “acautelado”. Tal como para ela, seria lógico que se pensasse que os recursos não renováveis um dia terminarão e que temos de ter uma solução antes que isso aconteça. Há poucas semanas quando o preço do petróleo subiu imparavelmente durante uns dias, o mundo assustou-se. Mas foi por pouco tempo e não falaram em soluções. Perderam-se dias e dias especulando sobre a agonia, fazendo previsões da morte do Yasser Arafat, mas não se perderam nem 10 minutos alertando para a necessidade de investir séria e urgentemente em energias alternativas. Como se tivéssemos todo o tempo do mundo. Uma pequena notícia dava conta de que em Portugal, iria brevemente começar-se uma pesquisa sobre possíveis alternativas ao petróleo. Nas calmas…Entretanto o preço do petróleo estabilizou. Há quanto anos andam os ambientalistas (e não só) a chamar a atenção para a necessidade de soluções? Porque andaram tanto tempo surdas, as “doutas” personalidades a quem compete tomar medidas? Por quanto mais tempo irão protelar o implementar de soluções? Em 1997, quando foi acordado o Protocolo de Quioto, Portugal não só não tinha que reduzir a emissão de gases com efeito de estufa, como ainda tinha uma margem de 27% que poderia aumentar até 2010. A minha avó numa situação destas começaria imediatamente a “acautelar-se” de modo a que não viesse a precisar da totalidade dessa margem de aumento. Mas as doutas personalidades, alfabetizados, que regiam este país, felizes e descansados, como a lebre da história da tartaruga, durante vários anos nada fizeram para limitar a emissão dos poluentes. Não era popular impôr às empresas gastos com os quais não estavam contando. Sempre era menos lucro. E votos. Ainda por cima muitas delas estavam em má situação financeira. Mas a Natureza não aceita desculpas, nem espera. Quando as sabedoras personalidades que nos governam começaram a impor algumas medidas para travar o vandalismo ambiental e o consequente absurdo crescimento das emissões de gases, estas revelaram-se perfeitamente insuficiente para alcançarem resultados adequados. Em 2001, Portugal ultrapassou a meta esperada, e em 2002 atingiu 13,5% para além do estipulado pelo Protocolo. Assim, já que nunca estamos em primeiro lugar em nada de vantajoso, vamos tentar alcançar essa meta seja lá em que for. Na SIDA já lá estamos. E com jeitinho, se continuarmos assim, em 2010 vamos ter ultrapassado em 39% a meta estabelecida para a emissão de gases com efeito de estufa. Pode ser que fiquemos em primeiro. E a minha avó é que era analfabeta. Fátima Rocha Dezembro de 2004
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