Dois anos de saudade

   
 

Volvidos dois anos 

alguns de nós ainda permanecem no cais

observando o horizonte

gesticulando um prolongado adeus

como que pedindo um último momento

para deixar uma última palavra

ao viajante

que nos deixa

rumo ao desconhecido

 

M.G.

Sempre na nossa memória

 

 

 

 

VIAGEM

Deixa que me reste
só a vontade de partir
Não me digas o destino da viagem


(JAG)

 

       
 

A voz em combustão

 
 


ao josé antónio gonçalves



a sombra dos meus olhos
descansam no teu ombro

foi em porto moniz
sobre as pedras vulcânicas

com o coração aberto
que falámos da morte

da alegria da vida
mesmo sendo sobejos

do caminhar redondo.
na ira daquelas águas

o peixe divertia-se
com o espelho do sol

e nós, meninos lúdicos
fizemos um poema

de coração vulcânico.
hoje lá estamos nós

a congeminar risos
como faunos perdidos

com os dedos na espuma
e voz em combustão

josé félix
2007.3.29

 

 

SEMPRE SERÁ UM VERSO

   
 

 

 

 

    E quem mandaria na efemeridade que habita entre um instante e outro? Das coisas interditas ou dos pressentimentos vagos? Recordar é muito mais do que lembrar. Tem caminhos próprios a memória emocional. É uma asa que nos visita o coração, fazendo dele um céu de descortinados azuis.  

 

    Tudo isso me vêm a propósito de José António Gonçalves, o nosso JAG. Da pessoa que ele era, da alegria, da poesia, e principalmente da falta que ele faz. Como ele diria, com a costumeira elegância poética: “uma presença de ausência”. Dolorida presença.

 

    Repito às folhas em branco: JAG não morreu. Deve ter nos pregado esta, e está por aí nos orvalhos, na cantoria das ondas, em cada preciosidade que nos dessedente a alma. Sempre achei mesmo que ele escrevia como quem bebesse água, e que uma lhe fosse tão vital quanto a outra. 

 

    Por aqui ele é um verso. Mágico como as flores dos jardins de um caderno infantil. Dizê-lo não posso, sob o risco de apreendê-lo. Antes, que voe solto, com a efemeridade do perfume entranhado num instante que já vai longe, ou como as pétalas das flores que sempre retornam nesta época, em Portugal.  

 

 

Cissa de Oliveira

29.03.2007

 

 

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