E quem mandaria na efemeridade que
habita entre um instante e outro? Das coisas interditas ou
dos pressentimentos vagos? Recordar é muito mais do que
lembrar. Tem caminhos próprios a memória emocional. É uma
asa que nos visita o coração, fazendo dele um céu de
descortinados azuis.
Tudo isso me vêm a propósito de
José António Gonçalves, o nosso JAG. Da pessoa que ele era,
da alegria, da poesia, e principalmente da falta que ele
faz. Como ele diria, com a costumeira elegância poética: “uma
presença de ausência”. Dolorida presença.
Repito às folhas em branco: JAG não
morreu. Deve ter nos pregado esta, e está por aí nos
orvalhos, na cantoria das ondas, em cada preciosidade que
nos dessedente a alma. Sempre achei mesmo que ele escrevia
como quem bebesse água, e que uma lhe fosse tão vital quanto
a outra.
Por aqui ele é um verso. Mágico
como as flores dos jardins de um caderno infantil. Dizê-lo
não posso, sob o risco de apreendê-lo. Antes, que voe solto,
com a efemeridade do perfume entranhado num instante que já
vai longe, ou como as pétalas das flores que sempre retornam
nesta época, em Portugal.