A ARTE DE DELFOS

 

 

Edição/Direcção: José António Gonçalves + "A Poesia dos Calendários" II Fase + MADEIRA/2005

01

 

Folha de Ouro    *    NINHO DA ÁGUIA  *   POLÉN DAS ILHAS  *   A PLUMA NO ÉDEN  *   INÉDITO JAG



FOLHA DE OURO 

NINHO DA ÁGUIA  *   POLÉN DAS ILHAS  *   A PLUMA NO ÉDEN  *   INÉDITO JAG
 

 

ANTOLOGIA DE PLANUDES


16

Todo o excesso é inconveniente. Como diz
um velho provérbio, até o mel, em demasia, é fel.

Anónimo


57

Quem pôs esta bacante em delírio não foi a natureza,
mas a arte. Foi ela que transmitiu o delírio à pedra.

Paulo Silenciário


74

Mistura ao mel uma ponta de receio, porque também
a zumbidora abelha está armada de agudo ferrão.
Sem chicote, o cavalo arrogante não caminha a direito.
E uma vara de porcos não obedece ao porqueiro
se não ouvir o som da chibata sonante.

Anónimo


Selecção, tradução, notas
ALBANO MARTINS

(in «Do Mundo Grego Outro Sol»,
Col. "Antologias Universais",
Edições ASA, 2002)

*
Paulo Silenciário foi contemporâneo e amigo de Agátias, o Escolástico (cerca de 536-582 d. C.), poeta, advogado e historiador, natural de Mirina, na Ásia menor. «Ciclo de Agátias», recolha de epigramas trouxe-lhe fama e reconhecimento público.



NINHO DA ÁGUIA

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DANIEL FILIPE


POEMA PRIMEIRO DO
«CANTO E LAMENTAÇÃO NA CIDADE OCUPADA»


1.

Ei-la a cidade envolta em dor e bruma
Ei-la na escuridão serena resistindo
Hierática Estranha Sem medida
Maior do que a tortura ou o assassínio
Ei-la virando-se na cama
Ei-la em trajes menores Ei-la furtiva
seminua sensual e no entanto pura
Noiva e mãe de três filhos Namorada
e prostituta Virgem desamparada
e mundana infiel Corpo solar desejo
amor logro bordel soluço de suicida
Ei-la capaz de tudo Ei-la ela mesma
em praças ruas becos boîtes e monumentos


Ei-la ocupada inerte desventrada
com música de tiros e chicote


Ei-la Santa-Maria-Ateia maculada
ignóbil e miraculosamente erecta
branca quase feliz quase feliz
Ei-la resplendente de amor teoria
e prática nocturna mistério acontecido
doce habitável ah sobretudo habitável
vestido acolhedor café à noite
a voz distante e amada ao telefone


Ei-la a que fica e sobrevive
e reflecte neons nos lagos do jardim
mesmo quando partimos e as lágrimas inúteis
roçam de espanto a solidão crescendo


Ei-la a cidade prometida
esperamos por ela tanto tempo
que tememos olhar o seu perfil exacto
flor da raiz que somos
meu amor



Daniel Filipe

(Cabo Verde, 1925; Lisboa, 1964)

(in «A Invenção do Amor e Outros
Poemas», Ed. Presença, 1972)

*
Daniel Damásio Ascensão Filipe nasceu na ilha da Boavista, Cabo Verde, em 1925 e faleceu em Lisboa em 1964. Jornalista e locutor da Emissora Nacional, pelo seu posicionanto oposicionista ao Estado Novo, foi perseguido pela polícia política do regime. Co-dirigiu a «Notícias do Bloqueio», revista de poesia e colaborou noutras. Revelou-se como poeta em 1946 com «Missiva», mas foram os livros «A Invenção do Amor e Outros Poemas» (1961) e «Pátria Lugar de Exílio» (Lisboa, 1963). Nota-se na sua escrita a influência dos poetas portugueses do neo-realismo, assim como de alguns franceses, com realce para Paul Éluard.

 


POLÉN DAS ILHAS

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EDUARDO BETTENCOURT PINTO


ODE AO CANTO


Liberta-te melodia
da minha alma.
Harpa dos povos,
trigo no deserto,
canta no esplendor
da água.
Sobre obscuros silêncios
acende fogueiras;
oferece à solidão
a raiz das mãos
apertadas à ternura.
Sê invulnerável
ao enferrujar do tempo,
aos cardos plantados
em nome da harmonia.
Enaltece, agride,
flecha da manhã;
voa de mim.
Asas de todos os pássaros,
voz de destroçadas pedras,
raposa de espuma,
a tua branca sombra
entre as cinzas passa.


Voa,
bandeira de folhas,
barco do amanhecer;
à tarefa do tempo dá
as mãos, as cerejas todas
da maravilha: o cume
da luz.
Se a calamidade
te ferir canta,
ergue a tua espada
ao cerco
das intempéries.
Abre a flor
com o aroma da madrugada,
o outono com a inocência
da primavera.
Renasce do nascer.
Defende-te das teias
inesperadas, das dunas
onde a tua respiração
levanta o vento.
Entre as ruínas
da melancolia voa
cristalino até
às conchas desesperadas.
Solta as tuas pombas,
os teus cavalos,
os teus peixes
na mínima
ondulação da vida.
Canta
orvalho do coração.



Eduardo Bettencourt Pinto

(Angola, 1954)

(in «Policopiados Aresta»,
nº. 2, Fora do Mercado,
Ponta Delgada, Açores, 1980)

*

Eduardo Bettencourt Pinto nasceu em Angola em 1954. Descendente de uma família açoriana (por parte materna), viveu durante algum tempo no Arquipélago, acabando por radicar-se a partir de 1983 em Vancouver, nos Açores.

Tem vários livros publicados e domina, na escrita, especialmente a poesia e a crónica. Para além da obra individual integrou e organizou várias antologias poéticas de autores naturais ou residentes nos Açores.


A PLUMA NO ÉDEN

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W. H. AUDEN



VOLTAIRE EM FERNEY


Olhava as suas propriedades, agora que era quase um homem feliz.
Um relojoeiro exilado olhou-o quando passava
E continuou o trabalho: no sítio onde construíam um hospital
Um carpinteiro descobriu-se, saudando-o; um empregado
Disse-lhe que estavam a crescer as árvores que plantara.
Os Alpes brancos brilhavam. Era Verão. Ele era um génio.


Lá longe, em Paris, onde os seus inimigos
Murmuravam, chamando-lhe perverso, uma velha
Cega ansiava pela morte e por cartas. Ele escreveria:
«Nada é melhor que a vida». Mas seria? Sim, a luta
Contra a falsidade e a injustiça compensava
Sempre. Tal como a jardinagem. Civilizar.


Lisonjeado, rabujando, intrigando, ele, o mais arguto,
Conduziria as outras crianças numa guerra santa
Contra os adultos infames e, como uma criança.
Era velhaco ou humilde conforme fossem necessárias
A resposta ambígua ou a mentira redentora,
Mas, como um camponês, esperaria pacientemente a ruína deles.


Nunca duvidou, como D'Alembert, que venceria:
Só Pascal era um inimigo digno, o resto
Eram ratos sufocados no vómito: havia, porém, muito
Para fazer e só podia contar consigo.
O caro Diderot era medíocre mas fazia o que podia;
Rousseau, sempre o soubera, lamentava-se e desistia.


Assim, qual sentinela, não podia dormir. A noite estava
Cheia de erros, terramotos, execuções. Depois morreria
E pela Europa fora amas terríveis ainda ansiariam
Por escaldar as suas crianças. Talvez apenas os seus
Versos pudessem impedi-las. Tinha de continuar a trabalhar.
Lá em cima estrelas impávidas compunham uma canção lúcida.


W. H. AUDEN

(1907-1973)

selecção, tradução e notas
JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

(in «O Massacre dos Inocentes -
Uma Antologia», Assírio & Alvim, 1994)

*

W. H. Auden nasceu em York, Inglaterra, em 1907. Mudou-se para Birmingham na infância e estudou no Christ's Church, em Oxford. Quando jovem, era influenciado pelas poesias de Thomas Hardy, Robert Frost, William Blake e Emily Dickinson. Em 1928, publicou seu primeiro livro de versos e a sua colecção "Poemas" (1930), colocou-o no topo da nova geração de poetas. Era admirado pela sua técnica e habilidade em escrever poemas em todas as formas imagináveis, pela incorporação em suas obras de elementos cultura popular e eventos actuais e também por seu impressivo intelecto. A sua poesia frequentemente reconta, literal ou metaforicamente, uma jornada ou aventura, e suas viagens acabaram servindo como rico material para seus versos. Visitou a Alemanha, China, serviu na guerra civil espanhola e, em 1939, mudou-se para os Estados Unidos, tornando-se, mais tarde, cidadão norte-americano. Suas crenças mudaram muito entre o período de sua jovem carreira na Inglaterra (onde era adepto do socialismo e da psicanálise Freudiana) e a sua fase posterior, na América, quando a sua principal preocupação passou a ser o cristianismo e a teologia do protestantismo. Dramaturgo, editor e ensaísta, é considerado como o maior poeta inglês do século XX, tendo o seu trabalho influenciado as gerações seguintes, dos dois lados do Atlântico. Foi Chancellor da Academia de Poetas Americanos de 1954 a 1973 e dividiu a segunda parte da sua vida nas residências de Nova York e Áustria. Faleceu em Viena, em 1973.
 


INÉDITO JAG

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LARANJAS


entrevia as laranjas
curvilíneas
sob o organdi de sol
na esteira fresca
da casa arrumada


e ficava a ouvir
os risinhos da minha amada
todo o dia
embalado pelos juncos
dos seus olhos


e depois obrigava-me
a explicar aos deuses
porque fico desconhecedor
do mundo
sempre que vou ao mercado
e compro laranjas


José António Gonçalves
(inédito.05.01.05)

JAG
http://members.netmadeira.com/jagoncalves/
 

 

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Selecção e Montagem: JAG