A ARTE DE DELFOS

 

 

Edição/Direcção: José António Gonçalves + "A Poesia dos Calendários" II Fase + MADEIRA/2005

10

 

Folha de Ouro    *    NINHO DA ÁGUIA  *   POLÉN DAS ILHAS  *   A PLUMA NO ÉDEN  *   INÉDITO JAG



FOLHA DE OURO 

NINHO DA ÁGUIA  *   POLÉN DAS ILHAS  *   A PLUMA NO ÉDEN  *   INÉDITO JAG
 

 

JOSÉ LUÍS PEIXOTO


(VEJO NA MINHA CALIGRAFIA)


vejo na minha caligrafia as escadas do meu destino.
aquela casa tão grande com um quintal de galinhas
a morrerem ciclicamente. as malvas entristecidas
em canteiros já sem esperança. e em cada estrofe de
estar sentado perante a paisagem, o poema único e final.
as mulheres arrastam as tardes pelos versos, como
lembranças a arder em todas as noites da minha vida.
quem pode esquecer as tardes, se os ramos das laranjeiras
eram inesquecíveis? cada palavra possui um palmo desse
quintal infinito.


a fruteira sobre a mesa da cozinha é sangue no poema.
o meu destino emparedou-se, e um destino é para sempre.
as minhas mãos estendidas são atravessadas pela luz
que mostra no ar a dança do pó. respondo tantas coisas aos
talheres guardados na gaveta.


chegam as vozes que nunca partiram. chegam os rostos
que sonho quando acordo de repente a chorar. agora,
és o homem da casa, disseram-me. e já não havia casa.


a mãe passa um ano, como as crianças que ainda brincam
numa rua imaginária passam as horas. mãe inocente
e humilhada pelo céu e pelas estrelas, pelos cães a ladrarem
ao longe, pelas mulheres a caiarem paredes, pelos sinos
que nos chamam e pela estrada do cemitério. mãe,
vida multiplicada, como se o teu corpo se rasgasse e a carne
fosse a terra e as palavras, e os ossos fossem os ramos das
laranjeiras e as palavras.


felizmente, há os versos, último esconderijo da pureza.
porque o destino são os versos e os pombos que cruzam
o céu em círculos que sempre regressam.


as minhas irmãs semeiam pensamentos na escuridão
absoluta das manhãs. este é o dia presente, esta é a
hora presente. agora, neste instante, sobre esta letra última,
repousa o peso dos teus cabelos. os nossos sonhos
atravessam a janela e estendem-se no chão, vêm do céu,
desenham-nos as sombras rente aos corpos velhos
e sem uso. tomamos banho. a água. a água. os nossos
sonhos dissolvem-se lentamente onde os esquecemos.


estou na casa onde as memórias se sentam nas cadeiras
para jantar em pratos invisíveis. aquele quadro é bonito.
aquela jarra foi comprada na feira de outubro. aquele
livro tem palavras que não significam nada.


existe uma fruteira na mesa onde a mãe serve todos os dias
o meu destino. existe um corredor a lembrar todos os dias
a solidão povoada. existe papel e versos. existe tudo aquilo
que não digo, que não sei dizer, que está na minha caligrafia,
que está ordenado nas folhas de tantos outonos do quintal abandonado.
existe uma mesa, uma lareira apagada, as mãos, uma sepultura
sozinha no cemitério, os olhos, os ossos, a minha pele e as horas
escritas no futuro impossível.




José Luís Peixoto


(1974)


(De «Criança em Ruínas» (2001);
in «O Futuro em Anos-Luz»,
org. valter hugo mãe, «Quasi», 2001)


*
José Luís Peixoto nasceu em 1974 em Galveias, concelho de Ponte de Sor. Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, foi professor do ensino secundário e é colaborador regular de vários jornais e revistas. Em 2000, publicou a ficção Morreste-me e, logo a seguir, o romance Nenhum Olhar, que fez agitar o panorama literário português e foi finalista dos prémios da APE e do PEN Clube, acabando por ganhar o Prémio José Saramago. O livro de poesia A Criança em Ruínas, lançado em 2001 e com edições sucessivas, constituiu um novo êxito de público e de crítica. Já em 2002 publicou Uma Casa na Escuridão e A Casa, a Escuridão, romance e poemas sobre o mesmo universo. A sua obra está já traduzida em várias línguas.




 

 



NINHO DA ÁGUIA

Folha de Ouro    *     POLÉN DAS ILHAS  *   A PLUMA NO ÉDEN  *   INÉDITO JAG

 




VENÂNCIO FORTUNATO



A JOVINO, PATRÍCIO E GOVERNADOR DA PROVENÇA



Rápido o tempo voa, engano as horas fugitivas...
Tão diversos que somos, iguais vamos a igual fim...
Ninguém recua que uma vez limiar tal cruzou...
Onde de heróis a força? Heitor caíu e irado Aquiles,
E Ajax, que foi da Acaia o escudo, é também morto...
Onde os corpos mais belos? Também Ástur, formosíssimo,
Tombou, Hipólito é sepulto, já não vive Adónis...
Onde os cantos primeiros? Por mais doce que cantassem,
Orfeu e sua cítara desacordados jazem...
E os que escreveram poemas? Um Vergílio, Ovídio, Homero,
Não esconde a sombra do sepulcro os ossos seus desfeitos?...
Chegado o passo extremo, não das musas valem cantos,
Nem gosto já existe em prolongar tais harmonias...
Assim, no instante que se extingue, já o presente escapa,
E das mãos vão caindo os dados de jogar na vida...
Só do justo a memória em flor bendita resta e fica.
E a fragrância da morte em sua tumba é perfumada.



Tradução
Jorge de Sena



Venâncio Fortunato
Latim Medieval


(c. 530-c. 603)


(in «Poesia de 26 Séculos»,
Edições ASA, 2001)

*

Venâncio Fortunato (530-609), compositor e poeta nascido na Itália, e morto em Poitiers, na França, onde foi bispo de bastante influência. Legou-nos o hino Ave Maris Stella, entoado solenemente na liturgia católica. Com ele conquistou o direito de ascender à glória dos altares, embora jamais renunciasse aos pecados da gula e da embriaguez. Além disso, foi cronista gastronômico. Num poema em latim, descreveu um banquete que apresentava "os legumes temperados com suco de carne, as carnes de caça com um molho de mel, servidas em bandeja de prata, as frutas em pratos de mármore, os cremes e o leite em delicadas cerâmicas, as aves em pratos de vidro". Pecador assumido, revelou por escrito o estado deplorável em que ficou após a comilança. "Depois de comer tanto, tive o ventre aumentado como o de uma mulher grávida e senti levantar uma tempestade dentro dele." À letrada rainha Radegunda, de quem foi capelão, fez uma confissão: "Ávido e glutão como sou, Deus me perdoe, devoro tudo." Dotado, asssim, de apetite pantagruélico, alimentava a crença de que comia até de olhos fechados. A voz do povo cochichava que dormia mastigando alimentos reais ou imaginários. Segundo J. A. Dias Lopes em «O Estado de São Paulo», entre seus parceiros contumazes de mesa, destacava-se o cruel Clotário I, esposo de Radegunda; mais tarde, o filho de ambos, Chilpérico I, casado com Fredegunda, futura assassina do marido. Em matéria de comida, Fortunato se mostrava cosmopolita. No vinho, entretanto, permaneceu fiel ao italiano Falerno. A bebida chegava à França em barris, rosada e picante, alterada pela viagem. Ele detestava a cerveja, aparentemente por ser muito popular, consumida pelo povo simples. Apesar dos exageros, considerava-se o poeta santo como um homem de gosto requintado.







 


POLÉN DAS ILHAS

Folha de Ouro    *    NINHO DA ÁGUIA  *     A PLUMA NO ÉDEN  *   INÉDITO JAG

 




LAURA MONIZ
(São Moniz Gouveia)




VELHA ZONA


que deus atrofia a voz das plantas com pescoço de cisne?


jazem nos bordéis à espera do travo adociado dum breve verão
ou do perfume dum apolo fustigado


que facho terão roubado essas amaldiçoadas musas de exaustão,
de que forja se terão erguido sua vítreas formas
que o nascer lhes faleceu,


e o verde
e todo o sol?




A PONTE DO MEIO


chora uma mulher albanesa na ponte do meio
nos olhos um branco barco
um branco barco aquele
estendo a mão
e a doença do filho prolonga-se
num imenso hino à morte
como o caudal do amo
há tantos anos
há tantos anos já.


chora uma mulher albanesa na ponte do meio
nos olhos uma bandeira branca
uma branca bandeira aquela
estendo a mão sobre o xale esburacado
que cobre o filho
e sei que todas as mulheres esfomeadas e fugidas da guerra
estão sós.
num longo poema sem ouvinte,
dilaceraram a carne, inventaram sentios para todas as perguntas
que dizem fome ou os teus filhos vão morrer,
reinventaram o amor em estilhaços
retirados da boneca recheada com granadas
e gentilmente oferecida à menina por um branco
num verde jardim de Pisa


Laura Moniz
(São Moniz Gouveia)


(Madeira, 1967)


(in «Lupus in Fabula»,
col. «Livros de Cordel»,
Direcção de José António
Gonçalves; posfácio de
Giampaolo Tonini, C.M.
Funchal, 2002)


*

Laura Moniz (também com obra publicada como São Moniz Gouveia), nasceu na Madeira
em 1967. Pertence à direcção da Associação de Escritores da Madeira (AEM), da qual foi
co-fundadora. Quatro dos volumes da sua Obra foram incluídos em colecções dirigidas
por José António Gonçalves, no Funchal: «Cartas para um Tenente» (1996), «11 Poemas
de Crisálida» (ILHA 4, 1994), «Lupus in Fabula» (2001) e «A Musa das Coisas Pequenas»
(2003). Também publicou «O Templo Móvel» (Campo das Letras, 2002) e integrou a anto-
logia «Poeti Contemporanei del'Isola di Madera» (de Giampaolo Tonini, Itália, 2002) e
«10+1 Poetas para Estar» (Editorial 100, 2004), tendo ainda inéditos um romance («Hotel
Paraíso») e um livro de contos («100 Cerejas»).
 


A PLUMA NO ÉDEN

Folha de Ouro    *    NINHO DA ÁGUIA  *   POLÉN DAS ILHAS  *      INÉDITO JAG

 



FERNANDO PESSOA



(FOSSE EU APENAS)


Fosse eu apenas, não sei onde ou como,
Uma cousa existente sem viver,
Noite de Vida sem amanhecer
Entre as sirtes do meu dourado assomo...


Fada maliciosa ou incerto gnomo
Fadado houvesse de não pertencer
Meu intuito gloriola com ter
A árvore do meu uso o único pomo...


Fosse eu uma metáfora somente
Escrita nalgum livro insubsistente
Dum poeta antigo, de alma em outras gamas,


Mas doente, e, num crepúsculo de espadas,
Morrendo entre bandeiras desfraldadas
Na última tarde de um império em chamas...



Fernando Pessoa

(1888-1935)


(in «Ficções do Interlúdio»,
Ed. Assírio & Alvim)


*
Fernando Pessoa (1888-1935), poeta e tradutor, publicou apenas um livro em vida, a «Mensagem» (1934). Com um grupo de amigos, com saliência para Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros e Armando Cortes-Rodrigues, fundou o movimento «Orpheu», de que sairam dois volumes e um terceiro postumamente. Autor heteronímico (realce para Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Bernardo Soares), deixou uma ampla colecção de originais, muitos deles já dados à estampa. É a principal figura dás Letras de Língua Portuguesa do século XX e uma das mais impressivas da história literária universal, a par de Camões e Petrarca.
 

 


INÉDITO JAG

Folha de Ouro    *    NINHO DA ÁGUIA  *   POLÉN DAS ILHAS  *   A PLUMA NO ÉDEN  *  

 



VOZES AMADAS



É de carne a cor do nosso leito.
Respira pelos poros das nossas bocas
e mescla-se nas noites com a fruta
que, sobre a sua pele, devagar, sustém.


Na mesa de cabeceira a estatuária
oriental venera as delícias, protege e cobre
o bailado angelical dos nossos corpos.
Está dobrada toda a roupa. É o único
sinal de disciplina, no silêncio da penumbra.


Há uma biblioteca de jardins e de gemidos
nas sombras das ilustrações do Kamasutra.
Nelas dessedenta-se o sonho do pobre
amante. É uma marcha exclusiva para o amor.
Nela não participam os príncipes vencidos.


Não se sabe se haverá um mar de pecado,
nesta vontade de prestar vassalagem à entrega
da paixão e aos seus adoradores. No Ganges,
a água imacula o espírito e conforma a matéria
com a divina apetência. É um rio acariciando
o suor derramado, absorvendo o seu sal.


Nos dedos, desmanchando os cabelos
dos prevaricadores, treme frémito o desejo
decomposto nos vales, cerrados, da inocência.
Fica o cheiro da terra, o bafo das vacas sagradas,
o colorido ardor depositado no rosto, o beijo
que, nas margens da eternidade, leva os selos
da ternura, ao paraíso das vozes amadas.


José António Gonçalves

(inédito.25.01.05)

JAG
http://members.netmadeira.com/jagoncalves/

 

 

 

Folha de Ouro    *    NINHO DA ÁGUIA  *   POLÉN DAS ILHAS  *   A PLUMA NO ÉDEN  *   INÉDITO JAG

Selecção e Montagem: JAG