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A
ARTE DE DELFOS |
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Edição/Direcção: José António Gonçalves + "A Poesia dos Calendários" II
Fase + MADEIRA/2005 |
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Folha de
Ouro *
NINHO DA
ÁGUIA *
POLÉN DAS ILHAS *
A PLUMA NO ÉDEN
* INÉDITO JAG |
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FOLHA DE OURO
NINHO DA
ÁGUIA *
POLÉN DAS ILHAS *
A PLUMA NO ÉDEN
* INÉDITO JAG
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NUNO JÚDICE
A LOUCURA DE TRISTÃO
Parti os ramos da árvore de cristal com uma pedra
de luz; e os vidros cravaram-se-me nos ossos da alma,
rasgando-me por dentro. Espalhei os estilhaços,
ferindo-me com a sua música. Por vezes, uma cintilação
cravava-se nos olhos, fazendo com que as imagens presas
na íris se derramassem na superfície de espelho,
manchando-a com uma sombra de pesadelo. Então,
limpava essas impressões obscuras com as águas
da melancolia; e uma terra distante surgia de cada
fragmento, com as suas praias matinais e os diques
de pedra onde as ondas quebram. Lancei cada um
desses vidros ao oceano do meu ser, como se fossem
barcos; e segurei-me com as mãos aos seus rebordos,
até sangrar. No entanto, o vento fez-se favorável;
e um horizonte de naufrágio ofereceu-me o seu
destino, para que não pudesse voltar atrás.
(inédito, «J.L.», 19.1.05)
OUTONO
Criei a alma. A vegetação de países
irrepetíveis. Vastos bosques orlam os caminhos. Os muros
dão para o mar. As aves pontuam o céu. As ondas arremessam-se
sobre o litoral. O poema é cruel,
indeciso.
Preparei a nostalgia violenta da criação. Sentei-me
nos bares marítimos de cidades inglesas, esperando barcos
que não vieram. Invoquei regressos, longas
viagens, percursos espirituais. Cada dia me trouxe
uma diferente sensação.
As folhas juncam o chão. O terror
assola o planalto, as populações mórbidas
do poente. Uma voz canta as mulheres obscuras
de Southampton. Chove no poema
há alguns anos. O poeta abre, finalmente,
o chapéu de chuva.
(in «A Noção do Poema»,
Publicações Dom Quixote,
1972)
Nuno Júdice
(1949)
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Nuno Júdice nasceu em Mexilhoeira Grande (Algarve) em 1949. Licenciou-se
em Filologia Românica, e é hoje professor universitário em Lisboa. Em
1972 publica A Noção de Poema, a que se seguiu uma vasta obra, reunida
num volume até 1985 (Obra Poética 1972-1985). A este volume seguiu-se A
Condescendência do Ser (1988), Enumeração de Sombras (1989), As Regras
da Perspectiva (1990), Um Canto na Espessura do Tempo (1992), Meditação
sobre Ruínas (1994), O Movimento do Mundo (1996). O poeta foi
distinguido com diversos prémios: Prémio de poesia Pablo Neruda, Prémio
de Poesia do Pen Clube, Prémio da Fundação Casa de Mateus, Grande Prémio
de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores. Também tradutor de
poesia, é hoje um dos autores portugueses mais conceituados no
estrangeiro, encontrando-se a sua obra traduzida e publicada em vários
países (é de destacar a recente edição Un Chant dans l'épaisseur du
temps, suivi de Méditations sur des Ruines, Paris, Poésie/Gallimard,
1996).
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NINHO DA ÁGUIA
Folha de
Ouro *
POLÉN DAS ILHAS *
A PLUMA NO ÉDEN
* INÉDITO JAG |
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JEAN-ARTHUR RIMBAUD
MANHÃ
Fui eu que tive, um dia, uma juventude adorável, heróica, fabulosa,
digna de ser escrita em lâminas de oiro? - excessiva ventura! Por que
crime, por que erro mereço a minha fraqueza de hoje? Vós, que julgais
que os bichos soluçam de dor, que os doentes desesperam, que a morte tem
pesadelos, contai a minha queda e o meu estupor. Eu, não me explico
melhor do que um pedinte a entaramelar Paters e Ave-Marias. Já Não sei
falar!
No entanto, creio ter findo hoje a relação do meu infoerno. Era bem o
inferno; o antigo, aquele a que o filho do homem escancarou os portais.
No mesmo deserto, sob a mesma noite, sempre os meus olhos lassos se
levantam para a estrela de prata, sem que os Reis da vida, os três
magos, coração, alma, espírito, respondam. Quando iremos, para além dos
desertos e dos montes, saudar o nascimento do trabalho novo, a nova
sabedoria, a queda dos tiranos e dos demónios, o fim da superstição,
adorar - nós os primeiros! - o Natal sobre a terra!
O cantar dos céus, a marcha dos povos! Escravos, não amaldiçoemos a
vida!
Tradução
Mário Cesariny
Jean-Arthur Rimbaud
(1854-1891)
(in «Iluminações - Uma
Cerveja no Inferno»,
Assírio & Alvim, 1999)
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Jean-Nicolas-Arthur Rimbaud (1854 -1891) nasceu em Charleville -
nordeste da França - filho de camponeses humildes. Foi um aluno
extraordinário. Supriu as deficiências do meio ambiente com talento
incomum. Começou a escrever muito cedo, em latim. Só em 1869, produziu o
primeiro poema em francês. Seu professor e mentor Georges Izambard o
animou a escrever 22 poemas e aos 16 anos era colaborador do jornal 'O
Parnaso Contemporâneo'. Rimbaud conheceu Paris em 1870, a convite de
Verlaine, depois de uma troca de correspondências. Essa acabou por
constituir-se como uma das relações humanas mais tumultuosas da história
da literatura universal, tendo entrado no seu imaginário cultural.
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POLÉN DAS ILHAS
Folha de
Ouro *
NINHO DA
ÁGUIA *
A PLUMA NO ÉDEN
* INÉDITO JAG
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VITORINO NEMÉSIO
RETRATO
Cruel como os Assírios,
Lânguido como os Persas,
Entre estrelas e círios
Cristão só nas conversas.
Árabe no sossego,
Africano no ardor;
No corpo, Grego, Grego!
Homem, seja onde for.
Romano na ambição,
Oriental no ardil
Latino na paixão,
Europeu por subtil:
Homem sou, homem só
(Pascal: "nem anjo nem bruto"):
Cristãmente, do pó
Me levante impoluto.
NADA
Eu no meu corpo como o tigre no seu bafo.
O mundo leva iguais a jaula e a casa.
Somos a vida que não é,
Fora não ser a morte.
Nem mesmo nada somos:
Estamos no que fomos
À espera do que importe.
Não se pode sair, e entrar já não:
Nada já deu entrada ao só nascido
Que é esse mesmo Nada:
Pelo que Nada não é nada,
Mas é nada
Em que Deus tudo gera.
Eu na minha alma como o bafo no seu tigre.
Vitorino Nemésio
(Açores, 1901-1980)
(in «Antologia Pessoal
da Poesia Portuguesa»,
Eugénio de Andrade,
Campo das Letras, 1001)
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Vitorino Nemésio (Açores, 1901-1980) foi professor da Faculdade de
Letras de Lisboa e ensaísta reputado, mas o seu prestígio na nossa
história literária advém-lhe sobretudo do romance açoriano Mau Tempo no
Canal, 1944, história de amor e de sinuosidades familiares e sociais, e
dos vários livros de poesia que o consagram como um dos grandes líricos
do nosso século (O Verbo e a Morte, 1959, Sapateia Açoriana, Andamento
Holandês e Outros Poemas, 1976), que equaciona o sentido da existência
humana perante os diversos conflitos que a centram: o sagrado e o
profano, o saber e a ingenuidade, a cultura e a natureza, o amor
excessivo e os desapegos da banalidade quotidiana. Criador do conceito
de açorianeidade, deixou uma vastíssima Obra, em vários géneros
literários, desde o ensaio, à poesia e ao romance.
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A PLUMA NO ÉDEN
Folha de
Ouro *
NINHO DA
ÁGUIA *
POLÉN DAS ILHAS *
INÉDITO JAG |
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LUCEBERT
TENTO POETICAMNETE
isto é
de singeleza iluminadas águas
o espaço do pleno viver
exprimir
não fosse eu homem
igual a uma multidão de homens
mas fosse eu quem sou
o anjo pétreo ou líquido
nascimento e putrefacção não me teriam tocado
o caminho de desamparo a comunhão
caminho pedras pedras bichos bichos pássaros pássaros
não ficaria tão sujo
como agora se vê nos meus poemas
instantâneos desse caminho
o que sempre se chamou beleza
beleza hoje queimou o rosto
já não consola o homem
consola as larvas os répteis os ratos
ao homem assusta
ferindo-o pela consciência
de que é migalha de pão na saia do universo
já não só o mal
a punhalada mortal nos humilha ou revolta
igualmente o bem
o abraço nos faz remexer desesperadamente
no espaço
por isso eu procurei a linguagem
em sua beleza
lá que ouvi que ela de humano apenas tinha
os defeitos de fala da sombra
e os da ensurdecedora luz do sol
Tradução
Fernando Venâncio
Lucebert
(1924-1994)
(in «Uma Migalha no Universo
- Antologia da poesia Neerlandesa
do Século XX», selecção e introdução
de Gerrit Komrij; tradução de
Fernando venâncio, Assírio & Alvim,
Lisboa, 1997)
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INÉDITO JAG
Folha de
Ouro *
NINHO DA
ÁGUIA *
POLÉN DAS ILHAS *
A PLUMA NO ÉDEN
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É UMA ILHA
É hoje uma pedra com flores e árvores.
A água escorre-lhe, pelas encostas verdes
das montanhas, em direcção à transparência
do mar. De terra, fofa, é o seu corpo, de licores
o seu perfume. Canta, na voz dos pássaros
e na solidão do povo. É atravessada por lâminas
de levadas que lhe traçaram percursos, mapas,
sonhos, no seu ventre, aproximando os abismos.
É uma ilha, atlântica, elegante como uma turista
inglesa. A sua alma vulcânica já não respira;
nos contornos da sua compleição física, longe
vão os tempos da fragilidade, da subordinação
ao medo, aos flagelos provocados pelos sismos.
É esta a jangada que, gravada sob as nuvens
de algodão, é nó de madeira, como um coração
amável, amalgamada em laurissilva e penedias;
é a minha sina voluntária e segura, o cântico
que aprendi de pequeno, para entoar toda a vida.
Trago-a comigo, silenciosamente, sem que ninguém
saiba, bem aferrolhoada ao peito, todos os dias.
José António Gonçalves
(inédito.27.01.05)
JAG
http://members.netmadeira.com/jagoncalves/
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Folha de Ouro
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NINHO DA ÁGUIA *
POLÉN DAS ILHAS
* A PLUMA NO ÉDEN
* INÉDITO JAG
Selecção e
Montagem: JAG |