A ARTE DE DELFOS

 

 

Edição/Direcção: José António Gonçalves + "A Poesia dos Calendários" II Fase + MADEIRA/2005

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Folha de Ouro    *    NINHO DA ÁGUIA  *   POLÉN DAS ILHAS  *   A PLUMA NO ÉDEN  *   INÉDITO JAG



FOLHA DE OURO 

NINHO DA ÁGUIA  *   POLÉN DAS ILHAS  *   A PLUMA NO ÉDEN  *   INÉDITO JAG
 

 



EUGÉNIO DE CASTRO


PRESSÁGIOS


Quando eu nasci, tocava o fogo
Na minha freguesia,
E um meu vizinho, que perdera ao jogo,
Golpeava as veias, quando eu nascia.


Chegando ao mundo, comigo vinha
Uma irmãzinha,
Pó que, mudado em flor, voltou logo a ser pó...
E eu comecei, chegando ao mundo, a ver-me só...


A linda gémea, que Deus me dera,
Logo morria, mal nascera,
Morria logo...
Na freguesia, tocava a fogo...


Com tais avisos, com tais presságios,
Breve me afiz a padecer, sem protestar,
Ódios, tormentos, decepções, lutos, naufrágios,
Os idos, os de agora e os mais que hão-de chegar.



EPÍGRAFE


Murmúrio de água na clepsidra gotejante,
Lentas gotas de som no relógio da torre,
Fio de areia na ampulheta vigilante,
Leve sombra azulando a pedra do quadrante,
Assim se escoa a hora, assim se vive e morre...


Homem, que fazes tu? Para quê tanta lida,
Tão doidas ambições, tanto ódio e tanta ameaça?
Procuremos somente a Beleza, que a vida
É um punhado infantil de areia ressequida,
Um som de água ou de bronze e uma sombra que passa...


(in «Antologia», Introdução,
Selecção e bibliografia de
Albano Martins, Imprensa-
-Nacional Casa da Moeda,
Lisboa, 1987)

Eugénio de Castro

(1869-1944)

*
Eugénio de Castro nasceu em Coimbra em 1869 e faleceu em 1944. Licenciou-se em Letras na Universidade de Coimbra e após o términus do curso ocupou alguns cargos diplomáticos. No entanto, devido à sua paixão pelo ensino dedicou-se ao professorado, primeiro no ensino particular e posteriormente na Universidade. Em Coimbra, em 1899, fundou a revista Os Insubmissos. Foi também co-fundador da revista internacional A Arte e colaborador do jornal O Dia. O poeta (do simbolismo) publicou os seus primeiros trabalhos de poesia, em 1884, aos 15 anos de idade, atingindo o momento mais alto da sua obra em 1900 com Constança, acabando por deixar uma vastíssima obra lírica, respeitável para o seu tempo e única no panorama literário português e europeu.





 



NINHO DA ÁGUIA

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MAHMUD DARWICH



VI O ÚLTIMO ADEUS


Vi o último adeus: serei colocado sobre uma pilha de madeira,
içado pelas mãos dos homens, pelo olhar das mulheres.
Serei envolvido numa bandeira e a minha voz conservada em cassetes.
Todos os meus pecados serão absolvidos num instante, depois os poetas insultar-me-ão.
Alguns leitores lembrar-se-ão de que eu velava todas as noites em sua casa.
Uma jovem aparecerá e afirmará que somos casados há vinte anos... e mais.
Serão contadas histórias a meu respeito e a respeito das conchas que recolhi nos mares distantes.
A minha amiga procurará um novo amante, que esconderá nas suas vestes de luto.
Verei o cortejo do meu enterro e os espectadores cansados de esperar.
Mas não vejo ainda o túmulo. Serei que terei direito a um túmulo depois de tanta canseira?


Tradução
Albano Martins

Mahmud Darwich

(1942)



(in «O Jardim Adormecido
e Outros poemas»,
Selecção e tradução
de Albano Martins,
Campo das Letras,
2002)

*

Mahmud Darwich nasceu em 1942 em Birwa, na Galileia, a poucos quilómetros de São João d'Acre.Em 1948, as tropas israelitas obrigam-no a partir com a família para o exílio, do qual regressa clandestinamente, um ano depois.Cinco vezes preso, entre 1961 e 1967, refugia-se, em 1970, no Cairo e, em 1972, em Beirute, no Líbano, que abandona, entretanto, em 1982, aquando da invasão do país pelas forças judaicas. A sua vida reparte-se, actualmente, entre Amã, na Jordânia, e Ramallah, naPalestina. Considerado um dos mais importantes poetas árabes contemporâneos, é autor duma extensa e complexa obra, atravessada ora por um tom revolucionário e patriótico, ora por um sopro épico e lírico. É também autor de diversas obras em prosa, onde estão reunidos os numerosos artigos publicados na imprensa, designadamente na revista literária al-Karmil, que fundou em Beirute e continua a dirigir a partir de Ramallah.

 


POLÉN DAS ILHAS

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JOÃO GOUVEIA



GARÇAS IMORTAES


Peregrinas d'além, que a Oeste a tarde envia
Serenas pela altura, em pleno e amplo ceo.
A'quem, deixaes o sol!... voltaes a face ao dia!
Onde ides n'esse azul, altivas como eu?


Que vertigens causaes à minha pobre vista,
Que invencível desgosto, o de vos ver no ar.
Que horizontes, que ceos, o vosso olhar avista?
Lá vae meu pensamento a vos acompanhar!


Em silencio voaes, infatigaveis, calmas.
Parae! - Mas continuaes... Quem vos fará parar?
Que porto desejado, - á transmigradas almas! -
Impelle o vosso voo de gloria sobre o mar?


No poente appareceis, e sempre ao sol poente,
Ou quando o mar, bramindo, engole esquadras reaes;
Para vós, a tormenta é a mais eloquente
Das trombêtas de guerra, ó Garças immortaes!


Em filas caminhaes, e colerico e lindo
O mar uivando invejo a vossa liberdade...
E quem vos vir então, dirá que ides fugindo;
E vós, buscaes o coração da tempestade.


Ó creaturas singulares, que antes andaes ao vento,
Altivas, que a ninguém beijaes ou daes a mão,
Quando eu morrer na Terra, e voar o meu talento,
Quizera néssa forma reencarnação.


(in «Atlante», 1903)


João Gouveia

(Funchal, 1880-1947)

(Ciação em «Islenha», 33,
DRAC, Julho/Dez.2003:
artigo de Ana Mónica Teixeira,
Funchal)

*
João Gouveia (Funchal, 1880-1947), para além de poeta, foi cientista e um apaixonado pelas actividades aeronáuticas. Na ilha da Madeira conviveu com o poeta António Nobre e é um dos autores mais apreciados de João Cabral do Nascimento, que lhe dedicou várias abordagens literárias. Publicou «Breviário» (1900), «Atlante» (1903), e «Almas do Outro Mundo», na poesia. Como dramaturgo, deu à estampa «Mar de Lágrimas», e, entre outras peças, «Engano da Alma». usava o pseudónimo de «João Zarco» e, tendo abandonado as letras, entregou-se à investigação da mecânica e ás questões da estabilidade dos aviões, tendo patenteado algumas das suas invenções.
 

 


A PLUMA NO ÉDEN

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ANDREI VOZNESSENSKI


FOGO NAS BELAS ARTES


Há fogo em Belas-Artes!
Nas aulas, nos desenhos,
como gritos de amnistia através das grades
nós gritamos: Fogo!


Na frente adormecida
impudica, insolente,
há uma janela a arder,
vermelha, chamejantes!


Apresentámos já nossas teses,
é agora a vez de as defender.
É debaixo dos pesos, nos armários,
são os meus trabalhos que crepitam!


Whatman - rasgado
num rubro cair de folhas!
Os meus projectos ardem
e ardem as cidades!


Alimentada a petróleo
a chama devorou cinco anos -
cinco Verões e cinco Invernos...
Karinotchka Kracilnikova,
repara como nós ardemos!


Adeus, ó Belas-Artes!
Deixai arder à vontade
os presepiozinhos com os seus amores
e todos esses céus de rococó!


Ó juventude, ave do paraíso,
ó ave louca,
o teu diploma transformou-se em chamas!


Agora é tempo de nos separarmos.
A vida - um punhado de cinzas.
Todos nós ardemos.
Ardemos porque estamos vivos.


E amanhã, nos dedos que desenhem,
uma abelha irá deixar o seu veneno:
a ponta de um compasso
em mãos cruéis.


... Mas tudo ardeu já completamente.
Entre suspiros.
Tudo acabou! E tudo recomeça!
E o melhor é irmos ao cinema.

1958



Versão
Armando da Silva Carvalho
Sobre tradução directa do russo
Clara Scwarz da Silva


Andrei Voznessenski

(1933)


(in «Antimundos»,
Publicações Dom
Quixote, 1970)

*
Andrei Voznessenski nasceu a 12 de Maio de 1933, em Moscovo. Durante II Guerra Mundial viveu com familiares em Vladimir, regressando à cidade natal, logo após o seu términus. Influenciado por Goya (tinha em sua casa um livro com ilustrações do artista), começou a pintar e a escrever, enquanto aprendia arquitectura, cujo curso concluíu em 1957. Boris Pasternack estimula-o na sua actividade poética e, repentinamente, torna-se um autor popular, enchendo estádios com os seus recitais (à imagem de Ievtutchenko). Meio milhão de exemplares vendeu o seu livro «Coração de Aquiles». Hoje é um dos poetas mais respeitados da Rússia, com uma valiosa Obra editada e o seu nome ultrapassou fonteiras, tendo visitado a Inglaterra e os Estados Unidos, entre outros estados, onde é recebido entusiasticamente. Integra, frequentemente, prestigiados júris literários internacionais.

 

 


INÉDITO JAG

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É DO POEMA QUE NASCE A CALIGRAFIA


É do poema que nasce a caligrafia.
No teu rosto, desenho-a. Vejo-a dançar
ao som das palavras, do sentido dos gestos.
Deslumbrado, gasto todas as tintas, os pincéis,
a lágrima que encontro nos cantos dos teus
olhos. Em fundo, nos azuis, entre os vermelhos,
cristalizo-te, como uma ave suspensa nos céus.


Falo-te com o corpo todo. Faço-te confissões,
digo-te tudo o que poderás querer ouvir. Alego
sofrimentos e estradas de solidão e de dádivas
singulares, de aprisionamentos ao ar puro
que te respiro em segredo na alma. É a loucura
sem remissão que trago para a mesa. A caligrafia
que uso, como emissária, para cobrir-te de ternura.


Tão longe ficam os outros entendimentos, castelos
de defesa frágil, com as suas terras de lavoura demorada;
puxo a caixa de areia e lá esboço outros destinos, as nuvens
procuram-me, trazendo consigo a sua capa de chuva. Perene,
a mensagem desfaz-se com o movimento, breve, dos teus passos
e deito-me, então, por sobre o pergaminho, onde, lento, registo
o som do amor, só para asseverar-te como és o teor destes traços.


José António Gonçalves

(inédito.01.02.05)

JAG
http://members.netmadeira.com/jagoncalves/

 

 

 

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Selecção e Montagem: JAG