A ARTE DE DELFOS

 

 

Edição/Direcção: José António Gonçalves + "A Poesia dos Calendários" II Fase + MADEIRA/2005

13

 

Folha de Ouro    *    NINHO DA ÁGUIA  *   POLÉN DAS ILHAS  *   A PLUMA NO ÉDEN  *   INÉDITO JAG



FOLHA DE OURO 

NINHO DA ÁGUIA  *   POLÉN DAS ILHAS  *   A PLUMA NO ÉDEN  *   INÉDITO JAG
 

 



THOMAS BERNHARD



DIANTE DA ALDEIA


Os rostos que emergem dos campos perguntam-me
pelo regresso.
O meu grito não perturba a andorinha
pousada no ramo partido. Sombria
é a minha alma, que o vento impele
para o mar, a fim de cheirar o sal da terra.
A minha lenda é mortal.
Debaixo da árvore, que é semelhante ao meu irmão,
conto as estrelas dos mareantes.



ESTÁ NO TRIGO O MEU CORAÇÃO


Está no trigo o meu coração, vermelho
como o campo,
belo e louco como a terra
que me mata.


Vejo no Leste o meu pai,
jovem, com um lenço encarnado
e os pés descalços,
que passam sobre a minha saudade.


Vejo a minha mãe junto da minha sepultura,
velha e frágil,
e o sangue goteja
da sua face
na minha efemeridade.




NO JARDIM DA MINHA MÃE


No jardim da minha mãe
o meu ancinho junta as estrelas
que caíram enquanto eu cá não estive.
A noite está quente e os meus membros
exalam a proveniência verde,
flores e folhas,
o grito do melro e o bater do tear.
No jardim da minha mãe
piso, descalço, as cabeças das cobras
que avançam, a espreitar, pelo portão ferrugento
com línguas de fogo.



Tradução
José A. Palma Caetano


(in «Na terra e no Inferno»,
Assírio & Alvim, 2000)


Thomas Bernhard

(1931-1957)

*
Thomas Bernhard nasceu na cidade holandesa de Heerlen (1931), filho de um agricultor austríaco. Fez seus estudos secundários em Salzburgo e seguiu cursos de violino, canto e musicologia em 1957, seguido, dois anos depois, por um livro sobre balé. Autor teatral celebrado e encenado em diversos países, publicou um ciclo autobiográfico comparado pelos críticos à Montanha mágica e uma novela considerada obra-prima, Perturbação. Seu último romance foi Auslochung (Extinção). Morreu em 1989 e foi enterrado na Áustria, sem alardes, como queria.


 



NINHO DA ÁGUIA

Folha de Ouro    *     POLÉN DAS ILHAS  *   A PLUMA NO ÉDEN  *   INÉDITO JAG

 

 




UMBERTO SABA



A CABRA


Falei com uma cabra.
Estava sozinha no prado, estava presa.
Saciada de erva, molhada
pela chuva, balia.


Aquele monótono balido era irmão
da minha dor. Eu respondi-lhe, a princípio
por brincadeira, depois porque a dor é eterna,
tem voz e não muda.
Era esta voz que sentia
gemer numa cabra solitária.


Numa cabra de rosto semita
sentia queixarem-se todos os outros males,
todas as outras vidas.



TRABALHO


Outrora
a minha vida era fácil. A terra
dava-me flores frutos abundantes.


Hoje arroteio um terreno seco e duro.
A enxada
bate em pedras, em tojos. Tenho de cavar
fundo, como quem busca um tesouro.



Tradução
Albano Martins


Umberto Saba

(1883-1957)



(in «Dez Poetas Italianos Contemporâneos»,
tradução e notas de Albano Martins,
com um desenho de Carlos Reis,
Publicações Dom Quixote, 1992)


*
Umberto Saba nasceu em Trieste, em 1883, e morreu em Gorizia, em 1957. Considerado como um dos principais poetas italianos deste século, a sua obra caracteriza-se pelo lirismo e pela acentuada dimensão autobiográfica. Profundamente ligado à tradição humanística da Europa Central, feitor de primeira hora de Freud e Nietzsche, é autor de uma poesia que expressa com aparente simplicidade a difícil condição existencial do indivíduo. Franco Fortini, ilustre crítico literário, disse que a sua magia consiste na sua clareza plena de gritos sufocados e lágrimas, e que o triestino é um poeta popular no único sentido que se pode dor a esse adjetivo: poeta de um povo.
 

 


POLÉN DAS ILHAS

Folha de Ouro    *    NINHO DA ÁGUIA  *     A PLUMA NO ÉDEN  *   INÉDITO JAG

 

 




ANTERO DE QUENTAL



MORS-AMOR


(A Luís de Magalhães)


Esse negro corcel, cujas passadas
Escuto em sonhos, quando a sombra desce,
E, passando a galope, me aparece
De noite nas fantásticas estradas,


Donde vem ele? Que regiões sagradas
E terríveis cruzou, que assim parece
Tenebroso e sublime, e lhe estremece
Não sei que horror nas crinas agitadas?


Um cavaleiro de expressão potente,
Formidável, mas plácido, no porte,
Vestido de armadura reluzente,


Cavalga a fera estranha sem temor:
E o corcel negro diz: «Eu sou a Morte!»
Responde o cavaleiro: «Eu sou o Amor!»



(in «Antero de Quental»,
prefácio e antologia de
A. M. B. Machado Pires,
DRAC-Açores, 1987)


Antero de Quental

(Açores, 1842-1891)


*
Antero de Quental nasceu em 1842 na cidade de Ponta Delgada, nos Açores. A contrastar com o isolamento e a insuficiência da educação tradicional e religiosa que recebera em S. Miguel, frequentou então a Universidade de Coimbra, tendo passado depois algum tempo em Paris. Viajou pelos Estados Unidos e Canadá, fixando-se em Lisboa. Pertenceu à chamada Geração de Setenta, grupo que pretendia renovar a mentalidade portuguesa, e participou nas Conferências do Casino. Foi amigo, entre outros, de Eça de Queirós e Oliveira Martins. Atacado por uma doença do foro psiquiátrico, regressa aos Açores onde se suicida. As suas obras vão da poesia à reflexão filosófica: Raios de Extinta Luz, Primaveras Românticas, Sonetos, Prosas e Cartas. Com novas influências, vive uma conjectura que faz emergir a faceta mais polémica e herética, liderando o inconformismo da denominada geração de 70. Da sua intensa actividade, contam-se as suas participações na sociedade do raio, realizando igualmente inúmeras publicações, entre as quais de destaca o opúsculo "Defesa da Carta Encíclica de Sua Santidade Pio IX" e a sua obra de 1865 (mas já concluída em 1863) Odes Modernas em que se manifesta a visão crítica do ultra-romantismo e de toda a sua sede de mudança, causando, por consequência, uma grande agitação no melancolismo e pouco inovador ultra-romântismo, daí que António Feliciano de Castilho, num prefácio ao problema da mocidade, de Pinheiro Chagas, assuma uma posição crítica em relação à geração coimbrã. A sua resposta mais imponente ou decisiva dá-se no seu pequeno livro "Bom senso e Bom gosto", dirigida ao antigo mestre e que está na origem de uma das maiores controvérsias no panorama literário português: a Questão Coimbrã. Está ligado à poesia realista e simbolista com mais uma vez as Odes Modernas, 1865, que se integram no programa de modernização da sociedade da "sua" Geração de 70, mas é nos Sonetos Completos, 1886, que o melhor da sua poesia emerge, cruzando o simbolismo de timbre ainda romântico com a poesia de ideias e com a reflexão filosófica, na expressão de conflitos íntimos e sociais que pessoalmente o levarão ao suicídio em 1891.

 


A PLUMA NO ÉDEN

Folha de Ouro    *    NINHO DA ÁGUIA  *   POLÉN DAS ILHAS  *      INÉDITO JAG

 

 




LEONARDO DA VINCI



A CHAMA E A VELA


As chamas, vivendo já há um mês nos fornos do vidreiro, viram aproximar-se uma vela, num belo e lustroso candelabro, e com grande desejo tentavam encostar-se a ela. Uma das chamas, deixando o seu curso natural, enfiou-se num tição apagado, de que se nutria, e saindo pelo outro lado por uma pequena fenda, atirou-se à vela, que estava próxima, e com extrema gula e avidez a devorou quase até ao fim; e querendo prolongar-lhe a vida, em vão tentou voltar ao forno donde partira, mas foi obrigada a finar-se e morrer juntamente com a vela; assim, com prantos e arrependimentos, em fastidioso fumo se transformou, deixando todas as irmãs em longa vida e resplandecente beleza.

(At., 67 r.b)



O CEDRO E AS OUTRAS ÁRVORES


O cedro, vaidoso da sua beleza, desdenha as árvores que estão à sua volta, fê-las tirar da sua frente; depois o vento, sem ter barreiras, arrancou-o pela raiz e deitou-o ao chão.

(At., 67 v.b)



Ttradução
José Colaço Barreiros


Leonardo da Vinci


(1452-1519)


(in «Bestiário, Fábulas
e Outros Escritos»,
Assírio & Alvim, 1995)

*
Leonardo da Vinci (o nome por que é conhecido é fruto de uma alcunha, por ter nascido na cidade italiana de Vinci - apelido que lhe ficou para a posteridade), nasceu em 1452. Homem de um extraordinário talento, foi grande em tudo a que emprestou as suas quase inesgotáveis capacidades. Por isso, notabilizou-se como pintor, arquitecto, escultor, engenheiro, músico, cientista brilhante, bem como um dos maiores inventores da História. Fez os seus estudos sob a orientação de um artista de fama, chamado Andrea del Verrochio, que, ao olhar um anjo por si criado, o achou de tal forma superior às suas próprias obras, que nunca mais teve vontade de pintar. Por volta do ano de 1477, estabeleceu-se como artista por conta própria e, cerca de cinco anos depois, era engenheiro em Milão e tinha inventado um sistema de irrigação para levar água para as planícies da Lombardia. Como era canhoto, habituou-se a escrever de trás para a frente para se ler como num espelho. Deixou-nos inúmeros esboços dos seus inventos, que incluíam várias armas secretas, uma espécie de planador, um submarino e um género de helicóptero. Não passaram, porém, do papel, muitas destas ideias. Apesar de toda esta azáfama, ainda arranjou tempo para pintar verdadeiras obras de arte, de que se destacam «A Última Ceia» e "Mona Lisa", duas das pinturas mais famosas do mundo. Interessou-se, também, pelo funcionamento interno do corpo humano. Fez alguns esboços incrivelmente pormenorizados do esqueleto humano, dos órgãos e do sistema nervoso. É considerado um dos criadores da hidrodinâmica e o precursor da ciência moderna. Faleceu no ano de 1519.
 

 


INÉDITO JAG

Folha de Ouro    *    NINHO DA ÁGUIA  *   POLÉN DAS ILHAS  *   A PLUMA NO ÉDEN  *  

 





OBSERVO A AREIA



Observo a areia, de perto, com que construo
os blocos da amurada do meu castelo.
Pelo menos têm a cor do teu cabelo.


Enquanto penso, na sombra, sobre o tempo
e deixo-o perder-se nas águas da tarde,
sinto a tua pele branca. Vejo-a, como arde.


Dá-me a tua boca molhada para saciar a sede
e acordar os suspiros surdos, adormecidos.
Passo os dedos na tua carne. Entre os tecidos.


E quem trouxe o suave tremor da brisa?
Juntei o corpo ao teu, no acariciar dos ossos
e do suor sobre o leito. Os odores eram nossos.


Ajuda-me a endossar a urze na fogueira,
no lugar onde o esconderijo é o último, vago
e doce. Nele escrevo o amor que, depois, apago.


De ti não escondo: observo a areia. O deserto.
Ergo-me e percorro toda a extensão da vigia
do meu castelo. Faz vento, o teu sopro. Já é dia.



José António Gonçalves

(inédito.02.02.05)

JAG
http://members.netmadeira.com/jagoncalves/

 

 

Folha de Ouro    *    NINHO DA ÁGUIA  *   POLÉN DAS ILHAS  *   A PLUMA NO ÉDEN  *   INÉDITO JAG

Selecção e Montagem: JAG