A ARTE DE DELFOS

 

 

Edição/Direcção: José António Gonçalves + "A Poesia dos Calendários" II Fase + MADEIRA/2005

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Folha de Ouro    *    NINHO DA ÁGUIA  *   POLÉN DAS ILHAS  *   A PLUMA NO ÉDEN  *   INÉDITO JAG



FOLHA DE OURO 

NINHO DA ÁGUIA  *   POLÉN DAS ILHAS  *   A PLUMA NO ÉDEN  *   INÉDITO JAG
 

 


RAFAEL ALBERTI




BALADA PARA OS POETAS ANDALUZES DE HOJE



Que cantam os poetas andaluzes de agora?
Que olham os poetas andaluzes de agora?
Que sentem os poetas andaluzes de agora?


Cantam com voz de homem, mas onde estão os homens?
Com olhos de homem olham, mas onde estão os homens?
Com peito de homem sentem, mas onde estão os homens?


Cantam, e quando cantam parece que estão sós.
Olham, e quando olham parece que estão sós.
Sentem, e quando sentem parece que estão sós.


Será que a Andaluzia já não tem ninguém?
Que nos montes andaluzes já não há ninguém?
Que nos mares e campos andaluzes não há ninguém?


Já não haverá quem responda à voz do poeta?
Quem olhe o coração sem muros do poeta?
Tantas coisas morreram, que só resta o poeta?


Cantai alto. Ouvireis que outros ouvidos ouvem.
Olhai alto. Vereis que outros olhos olham.
Pulsai alto. Sabereis que outro sangue palpita.


Não é mais fundo o poeta em seu escuro subsolo
encerrado. O seu canto ascende ao mais profundo
quando, solto no ar, já pertence a todos os homens.




CARME
(Excertos)


1.
Poeta, não se é melhor poeta por ser claro.
Por ser obscuro, poeta - não te esqueças -, também não.


2.
Oh poesia do jogo, do capricho, do ar,
do mais leve e quase imperceptível:
não te esqueças de que sempre espero a tua visita!


3.
Julgaram que com armas,
com uns tristes disparos numa manhã,
iam - Oh Poesia, oh Graça! - assassinar-te.


4.
Que a Graça te livre
uma vez mais do verso
que com livre aparência
só aprisiona e mata lentamente.



Tradução
Albano Martins


(in «Antologia Poética»,
org. Albano Martins,
Campo das Letras, 1998)



Rafael Alberti


(1902-1999)

*
Rafael Alberti (1902-1999). Poeta Espanhol e último sobrevivente do "Grupo de 27". Participou activamente na Guerra Civil de Espanha pelos Republicanos e teve que se exilar posteriormente (em1939), em França, seguindo-se a Argentina e em Roma nas décadas de 60 .Vencedor do Prémio Cervantes em 1983. Deixou uma vastíssima obra literária, hoje traduzida em muitas línguas, no mundo inteiro.




 



NINHO DA ÁGUIA

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CZESLAW MILOSZ



SIGNIFICADO



- Quando eu morrer, verei o avesso do mundo.
O outro lado, além do pássaro, da montanha, do poente.
O verdadeiro significado, pronto para ser descodificado.
O que nunca fez sentido fará sentido,
O que era incompreensível será compreendido.


- Mas e se o mundo não tiver avesso?
Se o sabiá na palmeira não for um signo
Mas apenas um sabiá na palma? Se a sequência
De noites e dias não fizer sentido
E nessa terra não houver nada, apenas terra?


- Mesmo se assim for, restará uma palavra
Despertada por lábios agonizantes,
Mensageira incansável que corre e corre,
Corta campos interestelares, corta galáxias giratórias
E clama, reclama, grita.



Tradução
Mário Sérgio Conti


Czeslaw Milosz


(1911-2004)



(in «Inimigo Rumor», nº.11,
2º. Semestre, 2001)



*
Czeslaw Milosz (1911-2004) romancista e poeta polaco, foi distinguido com o Prémio Nobel da Literatura em 1980. Entre as suas obras mais conhecidas encontra-se o romance político "A Tomada do Poder", sobre as tentações e os perigos do totalitarismo, um livro que foi editado em Portugal em 2003 pela Dom Quixote. "Alguns gostam de Poesia", uma antologia de poesia polaca contemporânea que reúne dois escritores polacos galardoados com o Nobel da Literatura, juntando-o a Wislava Szymborska (1996), foi outras das obras do poeta apresentadas no mercado português numa edição da Cavalo de Ferro. A sua obra, um dos quatro autores do seu país vencedores do Nobel da Literatura até ao momento, foi sempre distinguida pela abordagem intelectual e emotiva dos piores momentos históricos do século XX. Considerado um dos nomes mais importantes da literatura da Polónia, também era conhecido pelas suas declarações polémicas. Em 1998, ano em que José Saramago foi distinguido com o Nobel da Literatura, o poeta foi um dos poucos antigos galardoados que assumiu não gostar da obra do escritor português. "É uma escrita da moda, cheia de humor, mas esse humor é plano. Confesso que não o suporto", declarou na altura à PAP. Nascido na Lituânia, no seio de uma família de origem nobre, seguiu uma formação académica ligada ao Direito. Em 1951, iniciou um período de exílio em França, onde foi adido cultural na embaixada polaca em Paris. Assumiu a mesma função em Washington quando, em 1958, emigra para os Estados Unidos, onde anos mais tarde ingressa na Universidade de Berkeley, na Califórnia, para leccionar Línguas e Literaturas Eslavas. Ali permaneceu até 1989, ano em que regressou à Polónia.


 

 


POLÉN DAS ILHAS

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JORGE FREITAS



NÃO HÁ INCOERÊNCIA NENHUMA


Não há incoerência nenhuma
Em construir um poema
Com materiais próprios de construção.
Uma casa pode ser um poema.
Um poema pode ser uma casa.
Eu posso estar louco sem ninguém saber
e estar rodeado de loucos
que se têm por pessoas ajuizadas
a quem um poema
tem que ser de certa e determinada maneira de ser.



NOITE DE TREVAS


As terras foram cavadas, adubadas,
semeadas, alagadas de esperanças
e, finalmente,
do ventre da terra nasceu a luz
e houve sol para todos
e tanto
que mandaram acender o céu
como se não fosse noite de trevas.

17/04/53



CALCANHAR D'AQUILES


Sagitário feriu
o calcanhar do mundo
e homero e virgílio
escreveram os lusíadas
que luís vaz camões
escrupulosamente assinou.
Então, judas comprou uma guita
por trinta dinheiros
e içou a humanidade
ao infinito.

17/04/53


(in «Alguns Poemas Insulares e Outros Textos»,
Colecção Cadernos Ilha, nº. 7,
Direcção, Organização e Notas
de José António Gonçalves,
Editorial Correio da Madeira,
Funchal, 1995)

JORGE FREITAS


(1921-1960)




*
José Jorge da Felicidade de Freitas (n. e f. Funchal, 1921-1960), cursou o Liceu de Jaime Moniz e foi empregado de uma agência de viagens. Figura polifacetada, foi poeta, prosador, cartoonista e colaborador de imprensa, para além de promotor de edições literárias e agente cultural. Presidiu à Academia Funchalense (41-42), participando nas Tertúlias Ritziana e "Sem Título", nos anos cinquenta. Vinte anos depois do seu falecimento foi publicamente homenageado, a 10 de Julho de 1980, com um evento integrado na Feira do Livro, promovido pela publicista açoriana Maria Mendonça, com uma conferência sobre a sua Vida e Obra proferida por José António Gonçalves, presidente da Associação de Escritores da Madeira, responsável pela recuperação do seu espólio literário e coordenador (Direcção, Organização e Notas) do volume póstumo «Alguns Poemas Insulares e Outros Textos» (ed. Correio da Madeira, Colecção Cadernos Ilha, nº. 7, Funchal, 1995). Deixou colaboração esparsa por periódicos madeirenses, tendo usado até diversos pseudónimos com os quais ludibriou os então Serviços de Censura. Promoveu a colectânea "Arquipélago" (com Herberto Helder, António Aragão e outros, 1952), o volume satírico "Areópago" (1952), escreveu uma "Carta Aberta" (polemizando com A. Aragão, 1954) e integrou, de novo com Herberto Helder e Carlos Camacho, o volume "Poemas Bestiais" (1954). Deu à estampa duas plaquetes, "Alguns Poemas Insulares" (1954) e "Tela em Branco" (1958; 2ª. ed., 1980).

 


A PLUMA NO ÉDEN

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GERTRUDES DE HELFTA



(Ó BEIJO TÃO DOCE)



Ó beijo tão doce
sou um pequeno grão de pó
não me esqueçam teus laços
não me prives do abraço que me estreita
a ponto de me dissolver em Deus
São sem número as delícias escondidas
num só dos Teus abraços, ó Deus vivo
Meu amor tão doce
demore em Ti, unida


És quanto de precioso possuo
nada tenho além de Ti
Nem no céu, nem na terra desejo
algum tenho além de Ti


Para Ti caminham meu pensamento
e meu fim




Ttradução
José Tolentino Mendonça


Gertrudes de Helfta


(séc. XIII)


(in «Rosa do Mundo - 2001
Poemas para o Futuro»,
Assírio & Alvim, 2001)


*
Leonardo da Vinci (o nome por que é conhecido é fruto de uma alcunha, por ter nascido na cidade italiana de Vinci - apelido que lhe ficou para a posteridade), nasceu em 1452. Homem de um extraordinário talento, foi grande em tudo a que emprestou as suas quase inesgotáveis capacidades. Por isso, notabilizou-se como pintor, arquitecto, escultor, engenheiro, músico, cientista brilhante, bem como um dos maiores inventores da História. Fez os seus estudos sob a orientação de um artista de fama, chamado Andrea del Verrochio, que, ao olhar um anjo por si criado, o achou de tal forma superior às suas próprias obras, que nunca mais teve vontade de pintar. Por volta do ano de 1477, estabeleceu-se como artista por conta própria e, cerca de cinco anos depois, era engenheiro em Milão e tinha inventado um sistema de irrigação para levar água para as planícies da Lombardia. Como era canhoto, habituou-se a escrever de trás para a frente para se ler como num espelho. Deixou-nos inúmeros esboços dos seus inventos, que incluíam várias armas secretas, uma espécie de planador, um submarino e um género de helicóptero. Não passaram, porém, do papel, muitas destas ideias. Apesar de toda esta azáfama, ainda arranjou tempo para pintar verdadeiras obras de arte, de que se destacam «A Última Ceia» e "Mona Lisa", duas das pinturas mais famosas do mundo. Interessou-se, também, pelo funcionamento interno do corpo humano. Fez alguns esboços incrivelmente pormenorizados do esqueleto humano, dos órgãos e do sistema nervoso. É considerado um dos criadores da hidrodinâmica e o precursor da ciência moderna. Faleceu no ano de 1519.


 


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NO ECO DOS ABISMOS



No eco dos abismos, a ilha
canta. Ou grita, estridente,
como as garças, em direcção
ao sol. É um som profundo
que trespassa a linha do horizonte.
Tremem as flores
e despertam os pescadores
da sua faina habitual, obrigatória.


É como um apelo
em forma de aviso. Do mais alto
monte
alguém anuncia o seu regresso.
Em terra, com as redes vazias,
pensam noutros dias
para relembrar a sua história.


A ilha grita. Como as gaivotas.
Sente-se prisioneira dos seus grilhões
vulcânicos.
Os seus habitantes, ilhéus,
atlânticos,
conhecem o som dos seus gritos,
as canções
que lhes traçam novas rotas.
Mas ficam-se pelos abismos,
no silêncio dos penhascos,
sonhando com outros tempos
e viajando, a cada minuto, sob
as velas de caravelas
remotas.


Têm a memória dos antepassados,
as labaredas do incêndio
devorando a madeira.
Na boca, a palavra de Camões
arranca-lhes a sabedoria
do compêndio universal.
Nas suas páginas vencem a fronteira;
já não são ilha, descortinaram nevoeiros,
arrumaram a pedra ao longo das encostas.
Das suas mãos brota a força das águas.
Gritam, como as garças. Ou cantam.
Mas dão sinal
de vitória sobre o mar
onde esqueceram por amor à terra
todas as suas mágoas.



José António Gonçalves

(inédito.06.02.05)

JAG
http://members.netmadeira.com/jagoncalves/
 

 

 

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Selecção e Montagem: JAG