A ARTE DE DELFOS

 

 

Edição/Direcção: José António Gonçalves + "A Poesia dos Calendários" II Fase + MADEIRA/2005

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Folha de Ouro    *    NINHO DA ÁGUIA  *   POLÉN DAS ILHAS  *   A PLUMA NO ÉDEN  *   INÉDITO JAG



FOLHA DE OURO 

NINHO DA ÁGUIA  *   POLÉN DAS ILHAS  *   A PLUMA NO ÉDEN  *   INÉDITO JAG
 

 



VINÍCIUS DE MORAES



SONETO DE CARNAVAL


Distante o meu amor, se me afigura
O amor como um patético tormento
Pensar nele é morrer de desventura
Não pensar é matar meu pensamento

Seu mais doce desejo se amargura
Todo o instante perdido é um sofrimento
Cada beijo lembrando uma tortura
Um ciúme do próprio ciumento.

E vivemos partindo, ela de mim
E eu dela, enquanto breves vão-se os anos
Para a grande partida que há no fim

De toda a vida e todo o amor humanos:
Mas tranquila ela sabe, e eu sei tranquilo
Que se um fica o outro parte a redimi-lo.




SONETO DE QUARTA-FEIRA DE CINZAS



Por seres quem me foste, grave e pura
Em tão doce surpresa conquistada
Por seres uma branca criatura
De uma brancura de manhã raiada.

Por seres de uma rara formosura
Malgrado a vida dura e atormentada
Por seres mais que a simples aventura
E menos que a constante namorada

Porque te vi nascer de mim sozinha
Como a nocturna flor desabrochada
A uma fala de amor, talvez perjura.

Por não te possuir, tendo-te minha
Por só quereres tudo e eu dar-te nada
Hei-de lembrar-te sempre com ternura.

Rio, 1941



(in «Antologia Poética»,
Círculo de Leitores,
Lisboa, 2004)



Vinícius de Moraes

(1913-1980)

*
Vinícius de Moraes, poeta, compositor, intérprete e diplomata brasileiro, nasceu no Rio em 19/10/13 e faleceu na mesma cidade em 09/07/80. Escreveu seu primeiro poema aos sete anos. Fez curso de Direito no Rio e de Literatura Inglesa em Oxford. Ingressou na carreira diplomática, por concurso, em 1943, tendo servido como vice-cônsul em Los Angeles (1947-50), o que abriu sua temática, posteriormente enriquecida pelo seu interesse em teatro e cinema. Serviu também em Paris (duas vezes) e Montevidéu. Interessado em cinema desde estudante, foi crítico e censor cinematográfico. Como delegado brasileiro, participou de vários festivais internacionais de cinema (Cannes, Berlim, Locarno, Veneza e Punta del Leste) e, em 1966, foi membro do Júri Internacional de Cannes). Aos 19 anos publica seu primeiro livro de versos, Caminho para a Distância, e aos 22, Forma e Exegese (ganhador do Prémio Felipe d'Oliveira de 1935). Em 1936 sai Ariana, a Mulher, que é o apogeu de sua primeira fase, impregnada de sentido místico. Começou então a usar uma sintaxe mais popular, e sua lírica se carrega de sensualismo a partir de Cinco Elegias (1938) e Poemas, Sonetos e Baladas (1948), enriquecendo-se depois com temas de sentido social. Publica também Livro de Sonetos, Procura-se uma Rosa e Para Viver um Grande Amor. O lirismo (muitas vezes sensual) é a sua marca registrada. Seu drama Orfeu da Conceição (1953), montado para o teatro em 1956 e transposto para o cinema por Macel Camus em 1959 (como Orfeu Negro), ganhou neste ano a Palma de Ouro do Festival de Cannes e o Óscar de Hollywood como o melhor filme estrangeiro. Na década de 60 junta-se a jovens músicos no movimento conhecido como Bossa Nova, mesclando elementos de samba e jazz. Comporia, junto com Tom Jobim, a música Garota de Ipanema, símbolo de uma época. Uma grande quantidade de poemas seus foi posteriormente musicada. Escreveu também poesias infantis.



 



NINHO DA ÁGUIA

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RUY BELO



POEMA DE CARNAVAL



-Eu estava só naquela tarde e tu vieste
de dentro povoar-me de cidade o coração
prometido para o lugar
onde costumamos deixar as palavras
Tinham posto de novo fitas nas árvores
reuniram-se os corpos e as vozes
para todos juntos sentirem
pontualmente a alegria
E tu ousaste então ó meu pássaro naquele coração
cingido no meio da cidade



Ruy Belo

(1933-1978)



(in «Antologia Poética
- Cidadão de longe e de Ninguém»,
Círculo de Leitores, Lisboa, 1999)


*
Ruy Belo nasceu em S. João da Ribeira, pequena aldeia do concelho de Rio Maior, em 1933. Foi aluno do liceu de Santarém e cursou Direito, primeiro na Universidade de Coimbra, depois na Universidade de Lisboa, onde se diplomou em 1956. De partida para Roma, doutorou-se em Direito Canónico na Universidade de S. Tomás de Aquino. Em Lisboa, viria a frequentar também a Faculdade de Letras, terminando em 1967 a licenciatura em Filologia Românica. Além de actividade no domínio editorial, Ruy Belo foi também professor. Leitor na Universidade de Madrid desde 1971, regressou ao país em 1977, vindo a falecer de modo súbito no ano seguinte. Nome de destaque na poesia portuguesa contemporânea, exerceu igualmente intensa actividade de ensaísta e crítico literário. Da sua obra poética fazem parte Aquele Grande Rio Eufrates (1961), Boca Bilingue (1966), Despeço-me da Terra da Alegria (1977). A Obra Poética de Ruy Belo encontra-se reunida em dois volumes publicados pela Editorial Presença, com organização e comentários de Joaquim Manuel Magalhães. Os livros do poeta estão a ser reeditados pela mesma editora. Um volume único com toda a obra poética, significativamente intitulado Todos os Poemas, foi ainda recentemente dado à estampa pelo Círculo de Leitores (2000) e pela Assírio & Alvim (2001).

 

 


POLÉN DAS ILHAS

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NATÁLIA CORREIA



"MORDEIS-ME A CAUDA DO FATO DE SEREIA?"



Mordeis-me a cauda do fato de sereia?
Que importa! Eu vou no voo do condor.
Escureceis-me o verso onde clareia
A estrela que me deu um trovador?


Que importa! Eu vou no vento. A lua cheia
Dos meus cantos está no seu fulgor.
Que importa a fama - o uivar da alcateia?
De sons vácuos o efémero tambor.


Que importam vãos sinais: menos ou mais.
Eu estou nos quatro pontos cardeais
Prometida ao mundo dos assombros.


Ubíqua de origem e de futuro,
Irei na profecia. Eu sei, eu juro
Pelas estrelas que hão-de levar-me aos ombros.




"DE UM EMBOSCADO DEUS"


De um emboscado deus os sons que escreves
vêm secretamente do infinito.
É p'ra escrever que as tuas mãos são leves,
Submissas asas de um misterioso espírito.


Alheia te é a música que atreves;
Teu é o fado, o precipício, o rito
Da dor que faz passar entre horas breves
A voz de um deus escondido no teu grito.


Cercado por crepúsculos de sabres,
A vida perfumar com as rosas que abres
Te é mister, poeta grácil de olhos tristes.


Desafias os astros? Não te gabes.
És sábio de saber que nada sabes.
Estás a mais no mundo e não existes.




(in «Antologia Poética»,
org. Fernando Pinto do Amaral,
Dom Quixote, 2002)


Natália Correia

(Açores, 1923-1993)


*

Natália de Oliveira Correia nasceu na Fajã de Baixo, ilha de São Miguel, Açores, em 13/09/1923 e morreu em Lisboa em 16/03/1993. Fez os estudos secundários em Lisboa. Sem estudos universitários foi, em 1979, deputada à Assembleia da República. Colaborou em diversos jornais e revistas. Não se prendendo fortemente a nenhuma corrente literária, esteve inicialmente ligada ao surrealismo e, segundo a própria, a sua mais importante filiação estabeleceu-se em relação ao romantismo. A obra de Natália Correia estende-se por géneros variados, desde a poesia ao romance, teatro e ensaio. Figura proeminente da cultura portuguesa da segunda metade do século XX, notabilizou-se como poetisa e como política, tendo até sido eleita deputada. Foi fundadora da Frente Nacional para a Defesa da Cultura, interveio politicamente ao nível da cultura e do património, na defesa dos direitos humanos e dos direitos da mulher. Apelou sempre à literatura como forma de intervenção na sociedade, tendo tido um papel activo na oposição ao Estado Novo. Foi uma figura importante das tertúlias que reuniam nomes centrais da cultura e da literatura portuguesas dos anos 50 e 60. Ficou conhecida pela sua personalidade vigorosa e polémica, que se reflecte na sua escrita.


 

 


A PLUMA NO ÉDEN

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ABEN AL-GAIAT



"UM BELO JOVEM"


Um belo jovem cuja voz se muda
dos olhos deu-me o vinho em suas mãos.
Não sei com qual dos dois me inebriou,
qual das poções de amor é que era o vinho.
Surgiu de verde túnica adejante,
como um jardim em que se alteiam flores,
e a pérola doía-se com os dentes,
a face rósea anémonas temiam.
Tamanha embriaguez, como curá-la?
E que remédio o apaixonado tem?
No meu fígado é dele o gelo complacente,
é dele no meu seio o fogo que me queima.
E o primeiro não sou, dos ardorosos,
que extravasa do amor quando transborda.




Tradução
Jorge de Sena


Aben Al-Gaiat

(Síria Árabe, 1066-1123)


(in «Poesia de 26 Séculos»,
org. de Jorge de Sena,
Edições ASA, 2001)


*
Shihab Al-Din Ahmad Aben Mohamad Aben Al-Gaiat nasceu em Damasco, na Síria, em 1066. Depois de percorrer mundo, foi na sua cidade berço que veio a morrer no ano de 1123. Assistiu à transformação do seu mundo com a Primeira Cruzadas, ao vê-lo repartido em reinos e principados francos do Próximo Oriente, cujas fronteiras se encontravam nas imediações da sua terra-natal. Tornou-se num dos grandes poetas islâmicos, cujo prestígio perdurou até aos tempos hodiernos.

 


INÉDITO JAG

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CARNAVAL EM VENEZA



No crepúsculo de Veneza
derramaste uma lágrima
como um rio abrindo um fio
no teu rosto maravilhado
de Colombina


Não cheguei a tempo
de usar uma gôndola vaga
para colhê-la com mesura
e juntá-la nos meus olhos
ao meu choro silencioso
de Pierrot


Uma orquestra de cordas
iluminava a Praça de São Marcos
quando sopraste uma promessa
inaudível
nos meus ouvidos ocupados
embevecidos com uma sonata
de Chopin


Quando dei por mim
encontrava-me só
junto à água verde-jade
descobrindo pelo frio
como anunciavam a tua ausência
os raios solares da manhã


Ao longe ouviam-se pombas
a rolhar sobre os telhados
e uma voz bradava
clamando com apelos apaixonados
por um desconhecido
chamado Arlequim



José António Gonçalves

(inédito.08.02.05)

JAG
http://members.netmadeira.com/jagoncalves/

 

 

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Selecção e Montagem: JAG