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TU FU
POEMA A LI PO
Tu escreves como o pássaro canta. Teu gorjeio? Versos.
Se não cantasses, as manhãs seriam menos vermelhas e
os crepúsculos menos azuis.
Quando a embriaguez te inspira, os Imortais inclinam-
se das nuvens para te escutarem, o tempo suspende o seu
voo, o bem-amado esquece a bem-amada.
Tu és o Sol e nós, os outros poetas, somos apenas estrelas.
Acolhe, ó meu amigo, o balbucio do meu respeito!
OUTRORA, NUM PALÁCIO
Outrora, num palácio ornado de belas pinturas, co-
nheci a felicidade. Queimavam-se aromas à minha pas-
sagem, ou dormia em almofadas de seda cercado de
cantoras e tangedoras, e não via senão jardins atape-
tados de pó do coral.
Hoje, enclausurado nesta fortaleza do Kuêit-t[ang,]
não ouço mais que os sinistros apelos das sentinelas e
os gritos dos macacos que se divertem ao luar entre os
rochedos.
Espero. Estremeço. Perco a coragem. Se ao menos avis-
tasse as luzes da nossa capital... mas tenho que conten-
tar-me com a vista da constelação que brilha no alto
dessa distante cidade.
Quando a minha tristeza se torna por demais pesada,
vou sentar-me no terraço do Norte, onde o vento acu-
mula as flores de uma invisível amendoeira.
Tradução
Cecília Meireles
(in "Poemas Chineses / Li Po e Tu Fu", Nova Fronteira, 1996, RJ)
Tu Fu
(China, 714-774)
*
Tu Fu (China, 714-774), poeta contemporâneo de Li Po, cuja arte poética
canta nos seus versos, tinha a preocupação dos temas sociais, na sua
escrita, o que não era vulgar, esteticamente, descobrir nos versos dos
ascetas conhecidos de então. É considerado como um dos grandes
intelectuais, entre os autores chineses da sua época, tendo a sua obra
perdurado até aos dias de hoje. Os seus poemas resistiram ao tempo e
estão coligidos em muitas obras distribuídas pelo mundo inteiro. Na
Língua Portuguesa, sublinhem-se as traduções de Jorge de Sena e de
Cecília Meireles, incluídas em diversas colectâneas e outras
publicações.
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ORLANDO NEVES
(SERÁS PÚBLICA PEDRA)
Serás pública pedra cacto areia palavra
usando o horizonte o corpo o seio o risco o sexo.
Nem de praia ou brisa ou sol ou ócio ou repto
projectam os passos as fibras as veias as faces.
Há quem com a fera o veneno o punhal a farpa
sepulte a cópula o suor o óleo o lírio a dor.
Viverás na morte peixe sismo cálice pele
balcão de carne sal centeio sangria jejum.
(SÓ O SILÊNCIO ENVOLVE DEUS)
Só o silêncio envolve deus. Desabridos são,
porém, os céus, como a face aberta das estrelas,
riscando os rostos irrevogáveis de saudade
do seu pensado destino. Nunca tive um dia
ou uma cansada brancura por ter sido
uma casa, uma rua, um país ou uma noite
tensa de prazer. Repetir a vida para quê
ou quem, nesta espessa morte líquida que em fogo
escorre no meu ouvido, arredor do voo,
dupla folha do desterro? Sobe, meu rosto,
à paz da cólera petrificada no silêncio
divino. Vivi apenas, interrupto verbo,
centro indivisível do tempo, músculo de ruína
que a si mesmo se exalta e a si se ameaça.
(QUE FAZER CONTIGO?)
Que fazer contigo,
trombeta de palha,
lince da areia,
insecto das águas?
Lavrador do tempo,
espero
o vento
que nos desune
- porém, que fazer de mim?
Orlando Neves
(1935-2005)
(in «Poesia»,
edição da Obra
Completa,
Sol XXI,
1995)
*
Orlando Loureiro Neves nasceu em Portalegre (1935-2005) Portugal.
Dispensando do exame de admissão, ingressou na Faculdade de Direito da
Universidade Clássica de Lisboa, tendo-se licenciado em Junho, 1958, com
22 anos. Na Faculdade de Direito, foi director cultural da Associação
Académica, tendo colaborado na criação do Grupo Cénico da Faculdade. No
ano lectivo de 1957-1958 foi eleito Presidente da Associação Académica,
intervindo, directamente, como elemento da coordenadora RIA (Reunião
Inter-Associações) nas contestações ao célebre decreto 40.900, o
rastilho das revoltas estudantis que se seguiram. Foi, também, fundador
e primeiro director da revista, órgão da Associação Académica,
Quadrante. deixou vasta obra em todos os géneros literários, com
predomínio para a poesia.
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HERBERTO HELDER
(POEMACTO)
II
Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os fortes ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.
Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudessse acordar.
Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes sangra e canta.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.
Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.
- Era uma casa - como direi? - absoluta.
Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metia as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.
Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no meu esquecimento,ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.
As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto.Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
- Era húmido, destilado, inspirado.
Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com sua maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah! mãe louca à volta, sentadamente
completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.
Era uma casabsoluta- como
direi? - um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.
- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora na palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.
Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de àgua interna.
- Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.
Poema não saindo do poder da loucura.
Poema com base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.
Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.
(in «Poemacto»,
Contraponto, 1961)
Herberto Helder
(Madeira, 1930)
*
Herberto Helder Luís Bernardes de Oliveira nasceu a 23 de Novembro de
1930 no Funchal, ilha da Madeira, no seio de uma família de origem
judaica. Em 1948, matricula-se na Faculdade de Direito de Coimbra e, em
1949, muda para a Faculdade de Letras onde frequenta, durante três anos,
o curso de Filologia Romântica, não tendo terminado o curso. Trabalhou
na Caixa Geral de Depósitos, como angariador de publicidade,
meteorologista, propagandista de produtos farmacêuticos e redactor de
publicidade, como bibliotecário, jornalista e autor de programas
radiofónicos. Em 1958, publica o seu primeiro livro, O Amor em Visita.
Durante os anos que se seguiram vive em França, Holanda e Bélgica,
países nos quais exerce profissões pobres e marginais, tais como:
operário no arrefecimento de lingotes de ferro numa forja, criado numa
cervejaria, cortador de legumes numa casa de sopas, empacotador de
aparas de papéis e policopista. Em Antuérpia, viveu na clandestinidade e
foi guia dos marinheiros no submundo da prostituição. Colaborou em
diversas revistas (Graal, Cadernos de Poesia, Búzio, Poesia Experimental
1 e 2, entre outras). Ligado ao movimento da poesia concretista (ou
experimental), é conhecida a sua aversão a aparições públicas ou
manifestações de reconhecimento da sua notoriedade. Recusou, em 1994, o
Prémio Pessoa. Considerado como um dos grandes escritores portugueses
contemporâneos, a sua poesia tem uma densa imagética, frequentemente
associada a temas ligados ao questionamento do eu, à presença de medos,
ao conhecimento do humano, temas ligados por vezes a um certo
misticismo, servidos por uma linguagem original e de grande riqueza
metafórica. Estreou-se no Funchal, em 1953, na obra colectiva
«Arquipélago» (Tipografia Eco do Funchal), seguindo-se a sua primeira
obra individual, já em Lisboa, O Amor em Visita (1958). Em 1963, dá à
estampa um dos seus livros mais célebres, Os Passos em Volta (contos). A
sua obra poética inclui ainda A Colher na Boca (1961), Poemacto (1961),
Retrato em Movimento (1967), Ofício Cantante (1967), O Bebedor Nocturno
(1968), Vocação Animal (1971), Poesia Toda (1973 reeditado em 1981 e
1991), Cobra (1977), O Corpo, o Luxo, a Obra (1978), Photomaton & Vox
(1979), A Cabeça entre as Mãos (1982, Prémio de Poesia de 1983 do Pen
Clube Português), Edoi Lelia Doura. Antologia das Vozes Comunicantes da
Poesia Portuguesa (1985), Flash (1986), As Magias (1987), Do Mundo
(1994), Ouolof (Poemas Mudados Para Português), Doze Nós numa Corda e
Poemas Ameríndios (Poemas Mudados Para Português), todos em edições
datadas de 1997. Em 2001, publica Ou o Poema Contínuo, a que se segue
nova edição, com o mesmo título, mas reunindo muito do material de
«Poesia Toda», em 2004.
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ARTHUR MILLER
(...)
A luz do quarto apaga-se. Bastante antes de os dois irmãos terem acabado
de falar, vê-se a figura de Willy, na cozinha às escuras. Agora a luz
começa a romper naquele aposento, deixando aparecer, cada vez melhor,
Willy, que está abrindo o frigorífico à procura de qualquer coisa dentro
dele, sempre a resmungar sozinho, com uma ou outra gargalhada de si para
si. Tira uma garrafa de leite, volta-se, e vemos então que está
completamente diferente de como o tínhamos visto antes: mais à vontade,
enquanto os lábios não param de mexer. O olhar parece errar por uma
visão desconhecida para nós, visão em que ele se concentra intensamente,
de tal modo que, enquanto vai deitando o leite num copo e nos vamos
apercebendo das palavras que pronuncia, todo o aspecto da casa se vai
transformando a nossos olhos. Um halo forte de luz parece rodeá-lo, as
paredes dos arranha-céus vão-se diluindo em trevas, tranformando-se em
silhuetas de gigantescas árvores seculares, e toda a casa, com tudo o
que a cerca, está coberta de folhas. Eis Willy Loman em campo aberto,,
em plena natureza, no passado que viveu. E com esta visão vai-se
insinuando uma música alegre, leve, cheia de vida.
Willy, pouco a pouco, vai-nos sugerindo que fala com certa cadeira da
cozinha, agora iluminada com luz própria e viva. Está levemente alegre e
já podemos ouvir o que diz.
(...)
Ttradução
José Cardoso Pires
e Víctor Palla
Arthur Miller
(Nova Iorque, 1915-2005)
(in «Morte dum Caixeiro Viajante»,
Publicações Europa América,
«Grandes Clássicos do Teatro,
Lisboa, 2001)
*
Arthur Miller (Nova Iorque, 1925-2005), dramaturgo norte-americano . Um
dos principais autores do teatro norte-americano contemporâneo. Em toda
a sua obra, faz uma crítica contundente à sociedade de seu país.
Destaca-se também por protestar contra a falta de liberdade de expressão
e a perseguição a comunistas no período do macarthismo. Inicia a sua
carreira como escritor de comédias para a rádio. O seu primeiro sucesso
literário é o romance Focus, de 1945, que trata do anti-semitismo. A sua
primeira peça, Todos os meus Filhos (1947), reflecte a influência de
Ibsen em sua obra. Em 1949, escreve sua peça mais importante, Morte de
um Caixeiro Viajante, que recebe o Prêmio Pulitzer. Na década de 50, com
as investigações sobre actividades subversivas promovidas pelo Governo
dos Estados Unidos, é convocado a depôr no Comitê de Actividades
Anti-Americanas e recusa-se a denunciar intelectuais que participam de
reuniões comunistas. É declarado culpado por omissão, mas recorre da
decisão e ganha a causa. Em 1960, escreve o roteiro do filme Os
Desajustados para sua segunda esposa, a actriz Marilyn Monroe, de quem
se divorcia em 1961. Escreve ainda contos e ensaios sobre teatro.
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