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A
ARTE DE DELFOS |
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Edição/Direcção: José António Gonçalves + "A Poesia dos Calendários" II
Fase + MADEIRA/2005 |
18 |
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Folha de
Ouro *
NINHO DA
ÁGUIA *
POLÉN DAS ILHAS *
A PLUMA NO ÉDEN
* INÉDITO JAG |
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FOLHA DE OURO
NINHO DA
ÁGUIA *
POLÉN DAS ILHAS *
A PLUMA NO ÉDEN
* INÉDITO JAG
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MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO
SALOMÉ
Insónia roxa. A luz a virgular-se em medo,
Luz morta de luar, mais Alma do que a lua...
Ela dança, ela range. A carne, álcool de nua,
Alastra-se para mim num espasmo de segredo...
Tudo é capricho ao seu redor, em sombras fátuas...
O aroma endoideceu, upou-se em cor, quebrou...
Tenho frio... Alabastro! A minha Alma parou...
E o seu corpo resvala a projectar estátuas...
Ela chama-me em Íris. Nimba-se a perder-me,
Golfa-me os seios nus, ecoa-me em quebranto...
Timbres, elmos, punhais... A doida quer morrer-me:
Mordoura-se a chorar - há sexos no seu pranto...
Ergo-me em som, oscilo, e parto, e vou arder-me
Na boca imperial que humanizou um Santo...
Lisboa 1913 - novembro 3.
(in «Poemas Completos»,
Edição Fernando Cabral Martins,
Assírio & Alvim, 2001)
Mário de Sá-Carneiro
(Lisboa,1890; Paris, 1916)
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Mário de Sá-Carneiro (Lisboa, 19 de Maio de 1890 - Paris, 26 de Abril de
1916) nasceu em Lisboa e estudou em Paris, abandonando os estudos e
dedicando-se inteiramente à literatura. Com Fernando Pessoa, Luís de
Montalvor, Armando Côrtes-Rodrigues, Alfredo Guisado e outros, fundou a
revista Orpheu, vindo esta a ter um papel fundamental na renovação da
literatura portuguesa do século XX. Sofrendo uma crise existencial
grave, suicidou-se num quarto de hotel em Paris. Obras: Princípio
(novela, 1912), Dispersão (poemas, 1914), A Confissão de Lúcio
(narrativa, 1914), Céu em Fogo (contos, 1915), Indícios de Oiro (1937),
Poesias (1946), Poemas juvenis - 1903/1908 (1986), Cartas a Fernando
Pessoa (1958/59).
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NINHO DA ÁGUIA
Folha de
Ouro *
POLÉN DAS ILHAS *
A PLUMA NO ÉDEN
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TOMÁS ANTÓNIO GONZAGA
LIRA V
Os mares, minha bela, não se movem;
o brando norte assopra, nem diviso
uma nuvem sequer na esfera toda;
o destro nauta aqui não é preciso;
eu só conduzo a nau, eu só modero
do seu governo a roda.
Mas ah! que o sul carrega, o mar se empola,
rasga-se a vela, o mastaréu se parte!
Qualquer varão prudente aqui já treme;
não tenho a necessária força, e arte.
Corra o sábio piloto, corra, e venha
reger o duro leme.
Como sucede à nau no mar, sucede
aos homens na ventura, e na desgraça;
basta ao feliz não ter total demência;
mas quem de venturoso a triste passa,
deve entregar o leme do discurso
nas mãos da sã prudência.
Todo o Céu se cobriu, os raios chovem;
e esta alma, em tanta pena consternada,
nem sabe aonde possa achar conforto.
Ah! não, não tardes, vem, Marília amada,
toma o leme da nau, mareia o pano,
vai-a salvar no porto.
Mas ouço já de Amor as sábias vozes:
ele me diz que sofra, senão morro;
E perco então, se morro, uns doces laços.
Não quero já, Marília, mais socorro;
oh! ditoso sofrer, que lucrar pode
a glória dos teus braços!
LIRA XXX
Junto a uma clara fonte
a mãe de Amor se sentou,
encostou na mão o rosto,
no leve sono pegou.
Cupido, que a viu de longe,
contente ao lugar correu;
cuidando que era Marília
na face um beijo lhe deu.
Acorda Vénus irada:
Amor a conhece; e então
da ousadia, que teve,
assim lhe pede o perdão:
- Foi fácil, ó mãe formosa,
foi fácil o engano meu;
que o semblante de Marília
é todo o semblante teu.
Tomás António Gonzaga
(Porto, 1744; Moçambique, 1810)
(in «Marília de Dirceu",
Colecção «Os Grandes Clássicos
da Literatura Portuguesa»,
Colecção dirigida por Vasco da Graça Moura,
Planeta deAgostini, 2004)
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Tomás António Gonzaga (Porto, 1744; Moçambique, 1810). Formado em
Direito pela Universidade de Coimbra. Aos sete anos acompanhou seu pai
ao Brasil, de onde era natural. Os seus estudos foram iniciados na baía,
no Colégio dos Jesuítas. Foi ouvidor em Vila-Rica (Minas Gerais),
nomeado em 1782. Nessa altura caíu de amores por maria Doroteia Joaquina
de Seixas Brandão, baptizando a sua musa como «Marília de Dirceu», a
quem prtacimanete dedicou toda a sua obra. Foi preso em 1787 e
desterrado para Moçambique, na sequência da revolta de Tiradentes,
célebre Conjuração Mineira, acusado de nela ter participado. Dezoito
anos depois, morre em África.
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POLÉN DAS ILHAS
Folha de
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NINHO DA
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A PLUMA NO ÉDEN
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EDMUNDO DE BETTENCOURT
MEMÓRIA
Em vão a minha memória bate à porta?
Onde a claridade
a música
os saborosos frutos?
Ao meu olhar
à minha voz
às minhas mãos
em vão respondem
carícias de solidões nuas e frias?
Que é do aroma
a vida inteira
da flor amada
hoje dormindo nos meus olhos?
Na primavera quente
homens
de face endurecida
são tempo buscam o espaço
para não morrerem!
Em vão em vão
minha memória ambiciosa bate à porta?
NÃO MAIS REPOUSES...
Com lágrimas da noite,
a flor do amor abriu.
Mas cego, em sua luz,
o sol não vence o frio.
No florido jardim desta prisão,
é gelo de ironia a primavera.
Anda ligeiro, não mais repouses, coração,
que a liberdade sofre e chora à nossa espera.
(in «Poemas de Edmundo de Bettencourt»,
Obra Completa com prefácio de Herberto Helder,
Assírio & Alvim, 1999)
Edmundo de Bettencourt
(Funchal, 1889; Lisboa, 1973)
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Edmundo Bettencourt nasceu no Funchal em 1889 e faleceu em Lisboa em
1973. Fundador da "Presença - Folha de arte e crítica", em 1927,
Bettencourt abre espaço ao movimento que toma o nome da revista e que
até 1940 haveria de marcar a literatura nacional. A par de Adolfo Casais
Monteiro, João Gaspar Simões, José Régio, Fausto José e Saúl Dias, entre
outros, Bettencourt partilhou nos primeiros anos da revista o espírito
do movimento e os valores fundamentais do "presencismo". Em 1930,
publica "O Momento e a Legenda", a sua primeira e solitária obra em mais
de trinta anos. O ano da primeira criação é também o ano da derradeira
dissidência. Bettencourt, Branquinho da Fonseca e Miguel Torga - os três
da "cisão de 1930" - abandonam a revista em divergência com o resto do
grupo e, em particular, com João Gaspar Simões. Só em 1963, Bettencourt
volta a evidenciar-se com a publicação de toda a sua obra. "Os Poemas de
Edmundo Bettencourt" - integram além da "Memória e Legenda", "Rede
Invisível", de 1930/31, "Poemas Surdos", de 1934/40 (Ed. Assírio e
Alvim) e "Ligação" escrito entre 1936 e 1962 - são prefaciados por
Herberto Helder (obra reeditada em 1999). O poeta madeirense, como
compositor e intérprete da Canção de Coimbra tornou-se lendário na
cidade dos estudantes de capas negras. José Afonso considerou-o o maior
cantor de sempre do fado de Coimbra. Cantor e poeta, este funchalense de
nascimento, deu ao fado da Lusa Atenas uma colaboração erudita, gravando
diversas obras do cancioneiro académico de Coimbra onde fez a
"assimilação perfeita entre as expressões musicais rústica e urbana".
Gravou inúmeros fados para a editora alemã Odeon que se mantiveram am
catálogo até finais de 1940. Datam deste periodo os oito fados, gravados
em Lisboa em 1928, que constam no segundo volume, "Fados de Coimbra,
(1926-1930)" da colectânea "Arquivos do Fado", editada pela Tradisom. Em
1993, foi ainda editado um CD em sua homenagem, gravado por antigos
estudantes universitários, como ele, naturais do Funchal.
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A PLUMA NO ÉDEN
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PEDRO TÁMEN
(MILÉNIO)
Lembro-me muito bem do Ano Novo de um:
inaugurávamos o primeiro milénio
e na varanda da sua casa sobre o Tibre
Publius Primus Varius gozava o fresquinho da noite
digerindo os vestígios do banquete
dado para comemorar
e meditava no que haveria a dizer no fim do ano mil
quando um seu descendente couraçado
se borraria de inquietação e medo
pensando que nenhum papa o salvaria
de não entrar de pé no milénio dois.
Lembro-me perfeitamente.
Godofredo o Perdulário já não sabia a quem pedir
que o deixassem pensar um bocadinho
nos intervalos de tantas montarias.
Seguia a construção de Compostela
e nascia de parto normalíssimo
um ascendente de um bravo combatente
da batalha de Navas de Tolosa.
Pedro Támen
(1934)
(in «Memória Indescritível",
Edição: Gótica, Lisboa, 2000)
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Pedro Támen nasceu em Lisboa, no ano de 1934. Licenciado em Direito pela
Universidade de Lisboa. Dirigiu a revista Anteu – Cadernos de Cultura.
Actualmente é administrador da Fundação Calouste Gulbenkian. Tradutor e
poeta, tem uma vasta obra publicada, traduzida em vários países e
premiada.
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INÉDITO JAG
Folha de
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POLÉN DAS ILHAS *
A PLUMA NO ÉDEN
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TEIAS DE ARANHA
A minha avó materna temia as teias
de aranha. Não se podia falar em viúvas
negras ou tarântulas, no terreiro de pedra
do calhau, onde ela dormitava nas tardes
quotidianas. Não esperava nem pelas palavras
e pedia-nos que inventássemos histórias.
Adorava contar coisas sobre casas, mas poucas
eram verdadeiras. Imaginava-as desabitadas,
escuras, brumosas. Às vezes colocava-lhes
uns fantasmas a arrastarem correntes, aves
mortas pelo chão, umas gargalhadas de loucas
e refeições opíparas de andrajosos vagabundos.
Eram misteriosas vivendas de luzes apagadas
ou casebres onde certa noite houvera um crime
e alguém fugira, sorrateiramente, ao destino
dos cadafalsos, hoje vivendo noutros mundos,
noutras cidades. Todas estavam abertas; as chaves
que as guardavam em portentosas fechaduras
teriam sido perdidas, nas mãos de um pobre menino.
E o desfiar das mentiras continuava, com corriolas,
janelas invadidas pelas heras, portas carcomidas
pela formiga branca, sangue seco sobre a cama
e lençóis de cetim manchado por rios de lágrimas,
até que começava a acreditar em tudo, em cadáveres
enterrados, descarnados pelo tempo, sob a lama
dos jardins, os olhos dos quadros a tomarem vida,
perseguindo-me na escuridão, gatos pretos sacrificados
e escondidos em armários carunchentos e cheios de pó.
Era aí que me esquecia do começo. E lá voltava
às teias de aranha, às tarântulas, às viúvas negras
e já quem tremia era eu, medroso, tapando a cabeça,
agarrado às mãos firmes e carinhosas de minha avó.
José António Gonçalves
(inédito.19.02.05)
JAG
http://members.netmadeira.com/jagoncalves/
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Folha de Ouro
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Selecção e
Montagem: JAG |