A ARTE DE DELFOS

 

 

Edição/Direcção: José António Gonçalves + "A Poesia dos Calendários" II Fase + MADEIRA/2005

19

 

Folha de Ouro    *    NINHO DA ÁGUIA  *   POLÉN DAS ILHAS  *   A PLUMA NO ÉDEN  *   INÉDITO JAG



FOLHA DE OURO 

NINHO DA ÁGUIA  *   POLÉN DAS ILHAS  *   A PLUMA NO ÉDEN  *   INÉDITO JAG
 

 


EZRA POUND



COM USURA
(CANTO XLV)


Com usura homem algum terá casa de boa pedra
cada bloco talhado em polidez
e bem ajustado
para que o esboço envolva as suas faces.
Com usura
homem algum terá o paraíso pintado na parede da sua igreja
harpes et luz
ou onde a virgem receba a mensagem
e um halo projecta-se do inciso.
Com usura
homem algum vê Gonzaga, seus herdeiros e concubinas;
pintura alguma é feita para ficar
nem para com ela conviver.
Só é feita a fim de vender
e vender depressa.
Com usura, pecado contra a natureza,
sempre teu pão será de rançosas côdeas
sempre teu pão será de papel seco
sem trigo da montanha, sem farinha forte.
Com usura uma linha cresce turva.
Com usura não há clara demarcação
e homem algum encontra a sua casa.
O talhador não talha a sua pedra
o tecelão não vê o seu tear.
COM USURA
não vai a lã até à feira.
O carneiro não dá ganho com usura.
A usura é uma peste. A usura
engrossa a agulha lá nas mãos da moça.
E só pára a perícia de quem fia. Pietro Lombardo
não veio via usura;
Duccio não veio via usura
nem Pier della Francesca; Zuan Pellini não veio pela usura
nem foi pintada "La Calunnia" assim.
Angelico não veio via usura; nem veio Ambrogio Praedis.
Não veio igreja alguma de pedra talhada
com a incisão: Adamo me fecit.
Nem via usura St. Trophime.
Nem via usura Saint Hilaire.
usura oxida o cinzel.
Ela enferruja o ofício e o artesão.
Ela corrói o fio no tear.
Ninguém aprende a tecer ouro em seu modelo;
o azul é necrosado pela usura;
não se borda o carmesim.
A esmeralda não acha o seu Memling
A usura mata o filho nas entranhas
Impede o jovem de fazer a corte
Levou paralisia ao leito, deita-se
entre a jovem noiva e o seu noivo
CONTRA NATURAM
Trouxeram meretrizes para Elêusis
Cadáveres dispostos no banquete
às ordens da usura.


EZRA POUND

(1885-1972)


(in «Cantos», trad. José Lino
Grunwald; adpt. LP, JAG)


*
Ezra Pound (1885-1972). Escritor norte-americano, natural de Idaho, passou quase toda sua vida na Europa, onde exerceu influência sobre inúmeros poetas modernos. Um grande agitador em defesa das expressões de vanguarda literária, juntava a isso um esforço quase missionário de voltar às origens da arte. Daí o seu interesse pela obra dos trovadores medievais, pelos poetas chineses, Dante Alighieri e poetas metafísicos ingleses. Escreveu vários ensaios sobre literatura. Quase no final da vida, passou longos anos num hospital psiquiátrico, onde foi internado por ter apoiado o regime fascista de Mussolini. É autor do célebre trabalho poético «Cantos»,
que à imagem da obra homóloga de Giacomo Leopardi, teve êxito mundial.


 



NINHO DA ÁGUIA

Folha de Ouro    *     POLÉN DAS ILHAS  *   A PLUMA NO ÉDEN  *   INÉDITO JAG

 



MARIA ESTELA GUEDES



PENAS DE UM COCAR ÍNDIO


Arrasta a luz para um canto,
avança tu. O cocar roubado a um chefe índio,
menino
solar,
avança tu. Brilhas mais que uma custódia
acima dos radares
recuados para as falésias da noite.
Demora o tempo que quiseres,
mas vem. À tua volta forma-se uma rede de
prismas
sensuais; cresce dela uma espiga
sonora.
Pulsa-te no corpo uma adaga de carne,
túrgida fortaleza
à beira de um crepúsculo frágil.
Um beijo apenas
e o sol renasce
dos testículos do ocaso.
Vem do norte
ou de qualquer outra parte indecifrável
nos pergaminhos nunca enviados por satélite
para que te estude. És um livro.
Os dedos cativos do calor
que destilas à distância,
dança. Ou prefere abismar a cabeça no meu peito,
os cabelos sob um poder que aterra.
A paisagem vibra
nas espirais desertas,
perpetua-te nos seus revérberos a perder de vista.
Mas sobretudo sê manso como um cordeiro
de jóias
ao pescoço do vento. Menino do cocar,
índio como um sentimento.
Agarra-te
às coisas dóceis e mortais,
na sua candura
de tecla embaciada, cortina de chuva
em que tremulam asas.
A tua boca
assopra um colar de tângeras
afectivas. É vasto o mundo para que te incendeies,
candelabro aceso na galáxia.
Derrama o leite
e a música mungidos nas constelações
sobre as bobinas
sensíveis, o teu riso de ânfora
semeia nos ouvidos
o crepitar das esmeraldas.
Ter um cinto na garganta
e os coros antigos
a chamarem de longe,
ouves?
Dizem-te o nome, terna candeia rotativa
nas fruições a stereo.
Mais logo
serás um gomo de lua em onda média.
E ela,
entrelinhada nos dizeres
de um remoto sistema
infravermelho
ficará macia e veludosa
debaixo do teu flanco. Trazes no tornozelo
uma cadeia
de sons que circunda o espaço do nenhum tempo
que temos.
Gasta-o a percorrer as curvas
suicidas
do universo traçadas à pena.
A espera é um programa
de violetas à janela. Cospe-as a brisa para o alto,
cruzam-se com os planetas do sono
puxando lentas coleiras.
Assim um caracol a dobrar
o cabo dos continentes
tu avanças. Menino
mais adorado que um ídolo
vindo das páginas
do firmamento.
Partir em digressão pelas cidades
astrológicas à tua procura. Buscar sinais da tua
presença
em cada estação emissora.
Observar os rostos alienígenas
à claridade de um foco íntimo.
Mil e um contaram noites,
nenhum eras tu.
Criar-te a imagem num registo
magnético de informações imaginárias. A cara
desenha-se
numa flashada.
Nêsperas hialinas que transpiram.
Funde-se o vidro
comovido
se as libélulas galopam
para o castiçal da torre de antena.
Um spot de lágrimas
alumia-te o sorriso. Nada refulge mais.
Nada
podia ser mais tenro à língua
do que encostar-se o nome ao palato nas parábolas
de uma frase minha.
O prato na mesa,
os talheres,
grandes planos orbitais no guardanapo.
Falta só o sol a ecoar
no disco da vinda. Vês? - moras entre as coxas
de uma lenda
escrita com as penas de um coroa índia.
Vem,
o livro foi servido há pelo menos um
século,
há muito para comer ainda.
Nara pressente a respiração
dos minerais. O hálito dos sentidos clandestinos.
Nada
pressente a pulsação de um indicativo. Ninguém
suspeita
do que na mensagem se insinua.
Só tu.
Tu
que demoras à entrada dos precipícios da emissão,
arestas
vertiginosas sobre as ravinas verbais.
Que te inquieta? Tens o cocar,
talismã
dos fabulários. Ergue-se da música o espectro
dos amantes perdidos? Não receies
invadir-lhe os camarins.
Arranca-lhes os vestidos,
fá-los subir ao palco.
Não tenhas
medo de adormecer para sempre nas ilustrações
de um livro.
Sonha alto comigo.
Repara na cintura de asteróides que te rodeia
o pensamento de abelhas felizes. O âmbar trans-
parece
às vibrações dos auscultadores.
Arde por momentos
para que te encontre,
vou embarcar-te nas mãos.
A nave estremece na crista das ondas ultra-curtas,
deixa atrás de si uma esteira
de ráfia.
Deita-te
nela, ajeita o cocar deixa-te planar cismando num
disco
persa.
Um dia chegarás do aeroporto hertziano.
Poente
e velho, há-de reconhecer-te apenas o cão familiar.
A teia sob os olhos impregnada de caracteres
ocultos. Abre-te e lê, és livre.
Apaga-te antes do sono para te não queimares.



Maria Estela Guedes

(Portugal, 1947)


(in «Tempo Migratório -
Selecção de Poesia Portuguesa»,
Limiar, 1985)


*
Maria Estela Guedes (Lamego, Portugal, 1947). Poeta e ensaísta, criou e dirige a revista TriploV (www.triplov.com). Publicou, juntamente com Nuno Marques Peiriço, o livro Carbonários. Operação Salamandra (1998). Tem incluído júris literários (da Associação Portuguesa de Escritores/APE, por exemplo) e participado, como conferenciasta, em eventos nacionais e internacionais.Tem colaborado em quase todos os mais importantes jornais portugueses, na rádio e na televisão. Em 1987 foi levado à cena um espectáculo multimédia da sua autoria, O lagarto âmbar, na Fundação Calouste Gulbenkian. Entre os seus livros, encontram-se: Herberto Helder, poeta Obscuro (1979), Crime no Museu de Philosophia Natural (1984) e À Sombra de Orpheu (1990).

 

 


POLÉN DAS ILHAS

Folha de Ouro    *    NINHO DA ÁGUIA  *     A PLUMA NO ÉDEN  *   INÉDITO JAG

 




JOSÉ VIALE MOUTINHO



(UMA LÁGRIMA, A PRIMEIRA)


Uma lágrima, a primeira lágrima a giz no retrato,
um lenço que cobre o rosto descomposto, a dor


que principia na mão
que abre a porta da casa vazia,
na exclamação, na notícia,
sob as árvores frondosas,


o retrato está encostado ao muro, é o teu rosto
descomposto sob o lenço, a dor que se segreda,




(ESCUTA, E SE EU ME FOSSE EMBORA)


Escuta, e se eu me fosse embora e se o silêncio
da cor do barro não fosse senão um silêncio mais?


beberias a cicuta ou um licor de saborosos frutos?
e se eu me fosse embora com os teus olhos?


não dizes nada? nem uma palavra murmurada
como se inventasses um vento sem sentido? nada,




(MAS EU NÃO CONHEÇO O CAMINHO)


Mas eu não conheço o caminho, essa estrada
sem árvores conduz ao silêncio de uma casa:
abandonada a casa ou apenas a curva de um grito?




(in «E se a Manhã fosse Outra?»,
com um desenho de Francisco Laranjo,
colecção pequeno formato,
Edições ASA, 2001)



José Viale Moutinho

(Funchal, 1945)


*

José Viale Moutinho (Funchal, Madeira, 1945). Escritor, antigo jornalista no Diário de Notícias e investigador de temas literários e linguísticos, particularmente ligados a escritores portugueses do séc. XIX, tendo recuperado epistolografia e textos inéditos ou esquecidos de Camilo Castelo Branco, Trindade Coelho, António Nobre e Joaquim de Araújo, entre outros. Um dos assuntos a que se tem dedicado é o da Guerra Civil de Espanha (1936-1939). Participou no movimento português da Poesia Experimental e em exposições de Arte Postal. É autor de numerosos textos em catálogos de Artes Plásticas, de obras de literatura Infantil, crónica, ensaio e organizador de volumes colectivos. Tem publicação dispersa em revistas e jornais, traduziu romances, ensaios e peças de teatro. Obteve vários prémios literários e de jornalismo, nomeadamente o Prémio Júlio Pereira de Matos, da Casa da Imprensa, o Prémio de Reportagem DN e Prémio Norberto Lopes, da Fundação Norberto Lopes/Casa da Imprensa. Na Galiza foi-lhe atribuído o prestigiado Pedrón de Honra em 1995, e, no ano anterior, na Alemanha, foi finalista do Prémio Europeu de Conto. A sua obra foi traduzida em diversas edições estrangeiras, nomeadamente para asturiano, castelhano, galego e catalão, italiano, alemão. Poesia: Urgência (1966), Atento Como Um Lobo (1975), Crónica do Cerco (1978), Quarteto de Viagens e Paixões (1980), Correm Turvas as Águas deste Rio (1983) Auto-Retrato Parecido com Fantasmas (1983), Os Túmulos (1984) O Rude Tempo(1985), Piano Bar (1986), Máscaras Venezianas (1987), Retrato de Braços Cruzados (1989), As Portas Entreabertas (1975/85) (1991) Caderno de Entardecer (1996), O Amoroso (1997), Nomes de Árvores Queimadas (1997). Ficção: Natureza Morta Iluminada (1968), No País das Lágrimas (1972), O Jogo do Sério (1974), Histórias do Tempo da Outra Senhora (1974), Cabeça de Porco (1976), Apenas uma Estátua Equestre na Praça da Liberdade (1978), Romanceiro da Terra Morta (1988), Arqueologia da Terra Prometida (1989), Pavana para Isabella de França (1990), Hotel Graben (1998).

 


A PLUMA NO ÉDEN

Folha de Ouro    *    NINHO DA ÁGUIA  *   POLÉN DAS ILHAS  *      INÉDITO JAG

 

 




DONIZETE GALVÃO



CIDADE


ó blues de cruciais impossibilidades
dores de amores inexistentes
rosas amarelas mortas no apartamento
beijos e saliva nas tardes desérticas


ó visão depressiva do asfalto molhado
prédios encardidos e a hora dos bárbaros
arquitectura de guerra de dias provisórios
espelho poluído da cidade da chuva


ó mundo artificial com sua natureza de néon
espectáculo de vitrines e exposições
nada de eterno palpita no seu coração
tudo já nasce velho para ser refeito amanhã



Donizete Galvão

(Brasil, 1955)


(in «Azul Navalha»,
T. A. Queiroz, 1988;
de «Paixão por São Paulo»,
ant. org. Luiz Roberto Guedes,
editora Terceiro Nome, 2004)

*
Donizete Galvão (Borda da Mata, Minas Gerais, Brasil, 1955). Poeta e jornalista, é um dos principais escritores de sua geração. Foi, desde o seu surgimento — tardio, aos 33 anos —, incensado pela crítica e pelo público leitor de poesia. Conquistou, em 1988, o Prêmio Revelação de Autor, da Associação Paulista dos Críticos de Artes e recebeu duas indicações ao Prêmio Jabuti. A primeira, em 1989, por seu primeiro livro, a outra, em 1997, por seu quarto livro. Cursou Administração de Empresas em Santa Rita do Sapucaí, Minas Gerais e, já em São Paulo, Jornalismo, na Faculdade Cásper Líbero. Publicou os livros de poesia, Azul Navalha, 1988; As Faces do Rio, 1991; Do Silêncio da Pedra, 1996; A Carne e o Tempo, 1998; e Ruminações, 1999. Participou em diversas antologias de poemas e tem colaborado com diversos jornais e revistas do país e do exterior. Reside em São Paulo e trabalha na Editora Abril.
 


INÉDITO JAG

Folha de Ouro    *    NINHO DA ÁGUIA  *   POLÉN DAS ILHAS  *   A PLUMA NO ÉDEN  *  

 

 

*+*+*

INÉDITO JAG



FOLHAS VERMELHAS



Andam as estátuas a voar
em redor dos pássaros estáticos
sem que isso perturbe o bronze da manhã.
Os bancos em frente do rosto da cidade
só aceitam depositantes e não levantamentos.
Uns vagabundos de ar inteligente ainda dormem
sobre um manto invisível de folhas vermelhas.
Deve ser por isso que chegou o Outono.


Ouço um apelo das montanhas
nas asas do granizo
e lá vou eu em busca do Inverno
sem verdadeira coragem de olhar para trás.
Acompanha-me o vento sul e um ocaso
nasce dentro de mim a cem à hora
para acender-me a alma, velho motor
engripado com os versos de Óscar Wilde
e as histórias de Allan Poe. Neste caso
deve ser algo que tenha a ver com amor.


Estou quase atingindo o clímax, o cimo,
os píncaros da felicidade plena, violeta
e branca, como as flores dos altares das igrejas
que povoaram a catequese da minha infância.
Estou por cima e, daqui, é mais fácil olhar
para baixo, contemplar o sofrimento dos outros
e aplaudir os seus rasgos de alegria. O poeta
tem este destino de eremita. Cultiva laranjas,
maçãs e pêros. Depois colhe romãs e cerejas.



José António Gonçalves

(inédito.25.02.05)

JAG
http://members.netmadeira.com/jagoncalves/
 

 

Folha de Ouro    *    NINHO DA ÁGUIA  *   POLÉN DAS ILHAS  *   A PLUMA NO ÉDEN  *   INÉDITO JAG

Selecção e Montagem: JAG