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EZRA POUND
COM USURA
(CANTO XLV)
Com usura homem algum terá casa de boa pedra
cada bloco talhado em polidez
e bem ajustado
para que o esboço envolva as suas faces.
Com usura
homem algum terá o paraíso pintado na parede da sua igreja
harpes et luz
ou onde a virgem receba a mensagem
e um halo projecta-se do inciso.
Com usura
homem algum vê Gonzaga, seus herdeiros e concubinas;
pintura alguma é feita para ficar
nem para com ela conviver.
Só é feita a fim de vender
e vender depressa.
Com usura, pecado contra a natureza,
sempre teu pão será de rançosas côdeas
sempre teu pão será de papel seco
sem trigo da montanha, sem farinha forte.
Com usura uma linha cresce turva.
Com usura não há clara demarcação
e homem algum encontra a sua casa.
O talhador não talha a sua pedra
o tecelão não vê o seu tear.
COM USURA
não vai a lã até à feira.
O carneiro não dá ganho com usura.
A usura é uma peste. A usura
engrossa a agulha lá nas mãos da moça.
E só pára a perícia de quem fia. Pietro Lombardo
não veio via usura;
Duccio não veio via usura
nem Pier della Francesca; Zuan Pellini não veio pela usura
nem foi pintada "La Calunnia" assim.
Angelico não veio via usura; nem veio Ambrogio Praedis.
Não veio igreja alguma de pedra talhada
com a incisão: Adamo me fecit.
Nem via usura St. Trophime.
Nem via usura Saint Hilaire.
usura oxida o cinzel.
Ela enferruja o ofício e o artesão.
Ela corrói o fio no tear.
Ninguém aprende a tecer ouro em seu modelo;
o azul é necrosado pela usura;
não se borda o carmesim.
A esmeralda não acha o seu Memling
A usura mata o filho nas entranhas
Impede o jovem de fazer a corte
Levou paralisia ao leito, deita-se
entre a jovem noiva e o seu noivo
CONTRA NATURAM
Trouxeram meretrizes para Elêusis
Cadáveres dispostos no banquete
às ordens da usura.
EZRA POUND
(1885-1972)
(in «Cantos», trad. José Lino
Grunwald; adpt. LP, JAG)
*
Ezra Pound (1885-1972). Escritor norte-americano, natural de Idaho,
passou quase toda sua vida na Europa, onde exerceu influência sobre
inúmeros poetas modernos. Um grande agitador em defesa das expressões de
vanguarda literária, juntava a isso um esforço quase missionário de
voltar às origens da arte. Daí o seu interesse pela obra dos trovadores
medievais, pelos poetas chineses, Dante Alighieri e poetas metafísicos
ingleses. Escreveu vários ensaios sobre literatura. Quase no final da
vida, passou longos anos num hospital psiquiátrico, onde foi internado
por ter apoiado o regime fascista de Mussolini. É autor do célebre
trabalho poético «Cantos»,
que à imagem da obra homóloga de Giacomo Leopardi, teve êxito mundial.
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MARIA ESTELA GUEDES
PENAS DE UM COCAR ÍNDIO
Arrasta a luz para um canto,
avança tu. O cocar roubado a um chefe índio,
menino
solar,
avança tu. Brilhas mais que uma custódia
acima dos radares
recuados para as falésias da noite.
Demora o tempo que quiseres,
mas vem. À tua volta forma-se uma rede de
prismas
sensuais; cresce dela uma espiga
sonora.
Pulsa-te no corpo uma adaga de carne,
túrgida fortaleza
à beira de um crepúsculo frágil.
Um beijo apenas
e o sol renasce
dos testículos do ocaso.
Vem do norte
ou de qualquer outra parte indecifrável
nos pergaminhos nunca enviados por satélite
para que te estude. És um livro.
Os dedos cativos do calor
que destilas à distância,
dança. Ou prefere abismar a cabeça no meu peito,
os cabelos sob um poder que aterra.
A paisagem vibra
nas espirais desertas,
perpetua-te nos seus revérberos a perder de vista.
Mas sobretudo sê manso como um cordeiro
de jóias
ao pescoço do vento. Menino do cocar,
índio como um sentimento.
Agarra-te
às coisas dóceis e mortais,
na sua candura
de tecla embaciada, cortina de chuva
em que tremulam asas.
A tua boca
assopra um colar de tângeras
afectivas. É vasto o mundo para que te incendeies,
candelabro aceso na galáxia.
Derrama o leite
e a música mungidos nas constelações
sobre as bobinas
sensíveis, o teu riso de ânfora
semeia nos ouvidos
o crepitar das esmeraldas.
Ter um cinto na garganta
e os coros antigos
a chamarem de longe,
ouves?
Dizem-te o nome, terna candeia rotativa
nas fruições a stereo.
Mais logo
serás um gomo de lua em onda média.
E ela,
entrelinhada nos dizeres
de um remoto sistema
infravermelho
ficará macia e veludosa
debaixo do teu flanco. Trazes no tornozelo
uma cadeia
de sons que circunda o espaço do nenhum tempo
que temos.
Gasta-o a percorrer as curvas
suicidas
do universo traçadas à pena.
A espera é um programa
de violetas à janela. Cospe-as a brisa para o alto,
cruzam-se com os planetas do sono
puxando lentas coleiras.
Assim um caracol a dobrar
o cabo dos continentes
tu avanças. Menino
mais adorado que um ídolo
vindo das páginas
do firmamento.
Partir em digressão pelas cidades
astrológicas à tua procura. Buscar sinais da tua
presença
em cada estação emissora.
Observar os rostos alienígenas
à claridade de um foco íntimo.
Mil e um contaram noites,
nenhum eras tu.
Criar-te a imagem num registo
magnético de informações imaginárias. A cara
desenha-se
numa flashada.
Nêsperas hialinas que transpiram.
Funde-se o vidro
comovido
se as libélulas galopam
para o castiçal da torre de antena.
Um spot de lágrimas
alumia-te o sorriso. Nada refulge mais.
Nada
podia ser mais tenro à língua
do que encostar-se o nome ao palato nas parábolas
de uma frase minha.
O prato na mesa,
os talheres,
grandes planos orbitais no guardanapo.
Falta só o sol a ecoar
no disco da vinda. Vês? - moras entre as coxas
de uma lenda
escrita com as penas de um coroa índia.
Vem,
o livro foi servido há pelo menos um
século,
há muito para comer ainda.
Nara pressente a respiração
dos minerais. O hálito dos sentidos clandestinos.
Nada
pressente a pulsação de um indicativo. Ninguém
suspeita
do que na mensagem se insinua.
Só tu.
Tu
que demoras à entrada dos precipícios da emissão,
arestas
vertiginosas sobre as ravinas verbais.
Que te inquieta? Tens o cocar,
talismã
dos fabulários. Ergue-se da música o espectro
dos amantes perdidos? Não receies
invadir-lhe os camarins.
Arranca-lhes os vestidos,
fá-los subir ao palco.
Não tenhas
medo de adormecer para sempre nas ilustrações
de um livro.
Sonha alto comigo.
Repara na cintura de asteróides que te rodeia
o pensamento de abelhas felizes. O âmbar trans-
parece
às vibrações dos auscultadores.
Arde por momentos
para que te encontre,
vou embarcar-te nas mãos.
A nave estremece na crista das ondas ultra-curtas,
deixa atrás de si uma esteira
de ráfia.
Deita-te
nela, ajeita o cocar deixa-te planar cismando num
disco
persa.
Um dia chegarás do aeroporto hertziano.
Poente
e velho, há-de reconhecer-te apenas o cão familiar.
A teia sob os olhos impregnada de caracteres
ocultos. Abre-te e lê, és livre.
Apaga-te antes do sono para te não queimares.
Maria Estela Guedes
(Portugal, 1947)
(in «Tempo Migratório -
Selecção de Poesia Portuguesa»,
Limiar, 1985)
*
Maria Estela Guedes (Lamego, Portugal, 1947). Poeta e ensaísta, criou e
dirige a revista TriploV (www.triplov.com). Publicou, juntamente com
Nuno Marques Peiriço, o livro Carbonários. Operação Salamandra (1998).
Tem incluído júris literários (da Associação Portuguesa de Escritores/APE,
por exemplo) e participado, como conferenciasta, em eventos nacionais e
internacionais.Tem colaborado em quase todos os mais importantes jornais
portugueses, na rádio e na televisão. Em 1987 foi levado à cena um
espectáculo multimédia da sua autoria, O lagarto âmbar, na Fundação
Calouste Gulbenkian. Entre os seus livros, encontram-se: Herberto Helder,
poeta Obscuro (1979), Crime no Museu de Philosophia Natural (1984) e À
Sombra de Orpheu (1990).
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JOSÉ VIALE MOUTINHO
(UMA LÁGRIMA, A PRIMEIRA)
Uma lágrima, a primeira lágrima a giz no retrato,
um lenço que cobre o rosto descomposto, a dor
que principia na mão
que abre a porta da casa vazia,
na exclamação, na notícia,
sob as árvores frondosas,
o retrato está encostado ao muro, é o teu rosto
descomposto sob o lenço, a dor que se segreda,
(ESCUTA, E SE EU ME FOSSE EMBORA)
Escuta, e se eu me fosse embora e se o silêncio
da cor do barro não fosse senão um silêncio mais?
beberias a cicuta ou um licor de saborosos frutos?
e se eu me fosse embora com os teus olhos?
não dizes nada? nem uma palavra murmurada
como se inventasses um vento sem sentido? nada,
(MAS EU NÃO CONHEÇO O CAMINHO)
Mas eu não conheço o caminho, essa estrada
sem árvores conduz ao silêncio de uma casa:
abandonada a casa ou apenas a curva de um grito?
(in «E se a Manhã fosse Outra?»,
com um desenho de Francisco Laranjo,
colecção pequeno formato,
Edições ASA, 2001)
José Viale Moutinho
(Funchal, 1945)
*
José Viale Moutinho (Funchal, Madeira, 1945). Escritor, antigo
jornalista no Diário de Notícias e investigador de temas literários e
linguísticos, particularmente ligados a escritores portugueses do séc.
XIX, tendo recuperado epistolografia e textos inéditos ou esquecidos de
Camilo Castelo Branco, Trindade Coelho, António Nobre e Joaquim de
Araújo, entre outros. Um dos assuntos a que se tem dedicado é o da
Guerra Civil de Espanha (1936-1939). Participou no movimento português
da Poesia Experimental e em exposições de Arte Postal. É autor de
numerosos textos em catálogos de Artes Plásticas, de obras de literatura
Infantil, crónica, ensaio e organizador de volumes colectivos. Tem
publicação dispersa em revistas e jornais, traduziu romances, ensaios e
peças de teatro. Obteve vários prémios literários e de jornalismo,
nomeadamente o Prémio Júlio Pereira de Matos, da Casa da Imprensa, o
Prémio de Reportagem DN e Prémio Norberto Lopes, da Fundação Norberto
Lopes/Casa da Imprensa. Na Galiza foi-lhe atribuído o prestigiado Pedrón
de Honra em 1995, e, no ano anterior, na Alemanha, foi finalista do
Prémio Europeu de Conto. A sua obra foi traduzida em diversas edições
estrangeiras, nomeadamente para asturiano, castelhano, galego e catalão,
italiano, alemão. Poesia: Urgência (1966), Atento Como Um Lobo (1975),
Crónica do Cerco (1978), Quarteto de Viagens e Paixões (1980), Correm
Turvas as Águas deste Rio (1983) Auto-Retrato Parecido com Fantasmas
(1983), Os Túmulos (1984) O Rude Tempo(1985), Piano Bar (1986), Máscaras
Venezianas (1987), Retrato de Braços Cruzados (1989), As Portas
Entreabertas (1975/85) (1991) Caderno de Entardecer (1996), O Amoroso
(1997), Nomes de Árvores Queimadas (1997). Ficção: Natureza Morta
Iluminada (1968), No País das Lágrimas (1972), O Jogo do Sério (1974),
Histórias do Tempo da Outra Senhora (1974), Cabeça de Porco (1976),
Apenas uma Estátua Equestre na Praça da Liberdade (1978), Romanceiro da
Terra Morta (1988), Arqueologia da Terra Prometida (1989), Pavana para
Isabella de França (1990), Hotel Graben (1998).
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DONIZETE GALVÃO
CIDADE
ó blues de cruciais impossibilidades
dores de amores inexistentes
rosas amarelas mortas no apartamento
beijos e saliva nas tardes desérticas
ó visão depressiva do asfalto molhado
prédios encardidos e a hora dos bárbaros
arquitectura de guerra de dias provisórios
espelho poluído da cidade da chuva
ó mundo artificial com sua natureza de néon
espectáculo de vitrines e exposições
nada de eterno palpita no seu coração
tudo já nasce velho para ser refeito amanhã
Donizete Galvão
(Brasil, 1955)
(in «Azul Navalha»,
T. A. Queiroz, 1988;
de «Paixão por São Paulo»,
ant. org. Luiz Roberto Guedes,
editora Terceiro Nome, 2004)
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Donizete Galvão (Borda da Mata, Minas Gerais, Brasil, 1955). Poeta e
jornalista, é um dos principais escritores de sua geração. Foi, desde o
seu surgimento — tardio, aos 33 anos —, incensado pela crítica e pelo
público leitor de poesia. Conquistou, em 1988, o Prêmio Revelação de
Autor, da Associação Paulista dos Críticos de Artes e recebeu duas
indicações ao Prêmio Jabuti. A primeira, em 1989, por seu primeiro
livro, a outra, em 1997, por seu quarto livro. Cursou Administração de
Empresas em Santa Rita do Sapucaí, Minas Gerais e, já em São Paulo,
Jornalismo, na Faculdade Cásper Líbero. Publicou os livros de poesia,
Azul Navalha, 1988; As Faces do Rio, 1991; Do Silêncio da Pedra, 1996; A
Carne e o Tempo, 1998; e Ruminações, 1999. Participou em diversas
antologias de poemas e tem colaborado com diversos jornais e revistas do
país e do exterior. Reside em São Paulo e trabalha na Editora Abril.
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