A ARTE DE DELFOS

 

 

Edição/Direcção: José António Gonçalves + "A Poesia dos Calendários" II Fase + MADEIRA/2005

02

 

Folha de Ouro    *    NINHO DA ÁGUIA  *   POLÉN DAS ILHAS  *   A PLUMA NO ÉDEN  *   INÉDITO JAG



FOLHA DE OURO 

NINHO DA ÁGUIA  *   POLÉN DAS ILHAS  *   A PLUMA NO ÉDEN  *   INÉDITO JAG
 

 




JORGE LUÍS BORGES



CÉSAR


Aqui, o que deixaram os punhais.
Aqui essa pobre coisa, um homem morto
que se chamava César. Aberto;
nas crateras da carne, os metais.
Aqui o atroz, aqui a detida
máquina usada ontem para a glória,
para escrever e executar a história
e para o gozo pleno da vida.
Aqui também o outro, aquele prudente
imperador que declinou medalhas,
que comandou barcos e batalhas
e que regeu o oriente e o poente.
Aqui também o outro, o que virá
cuja sombra o mundo inteiro será.



SÃO OS RIOS


Somos o tempo. Somos a famosa
parábola de Heráclito o Obscuro.
Somos a água, não o diamante duro,
a que se perde, não a que repousa.
Somos o rio e somos aquele grego
que se olha no rio. Seu semblante
muda na água do espelho mutante,
no cristal que muda como o fogo.
Somos o vão rio prefixado,
rumo a seu mar. Pela sombra cercado.
Tudo nos disse adeus, tudo nos deixa.
A memória não cunha sua moeda.
E no entanto há algo que se queda
e no entanto há algo que se queixa.


Jorge Luís Borges

(Buenos Aires, 1899; Genebra, 1986)

Tradução
PEPE ESCOBAR

(in «Os Conjurados»,
Editora Três, Edição
da «Status», Brasil, 1985)


*
Jorge Luis Borges nasceu em Buenos Aires, Argentina, tendo falecido na Europa, em Genebra (1899-1986). Figura maior da Literatura do século XX, foi poeta, contista e ensaísta, com volumosa obra publicada, incluindo as de natureza oral (entrevistas, conferências, sozinho e a várias mãos). Descendente de portugueses, pensador respeitado no mundo inteiro, considerado como uma das personalidades mais cultas da Humanidade, nunca recebeu, certamente por motivos políticos que contribuem para o descrédito do prêmio, o «Nobel» da Academia Sueca, facto que lhe servia para bem humoradas e satíricas observações.Presidiu á Associação de Escritores Argentinos e Director da Biblioteca Nacional da Argentina.







 



NINHO DA ÁGUIA

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MANUEL ANTÓNIO PINA


O LIVRO


E quando chegares à dura
pedra de mármore não digas «água, água!»,
porque se encontraste o que procuravas
perdeste-o e não começou ainda a tua procura;
e se tiveres sede, insensato, bebe as tuas palavras
pois é tudo o que tens: literatura,
nem sequer mistério, nem sequer sentido,
apenas uma coisa hipócrita e escura, o livro.


Não tenhas contra ele o coração endurecido,
aquilo que podes saber está noutro sítio.
O que o livro diz é não dito,
como uma paisagem entrando pela janela de um quarto vazio.


(in «Os Livros»;
de «Poemário 2005»,
Assírio & Alvim)


NA HORA DO SILÊNCIO SUPREMO

...knowledge is but oblivion...

Não haveria roubo, e há só o roubo,
há só a música, é lá que tudo ondeia...
Já li tudo, já fiz tudo (quem?).
Regresso, pois, à minha solidão.

Ouvir-me-eis até ao infinito.
Nós só falamos para nós próprios
e o tempo não existe, nem os outros.

Porque está tudo parado e aquele que escreve
é também eternamente escrito.
o seu passado é o Futuro de tudo,
ele a sombra de tudo o que há-de vir.

(in «O Futuro em Anos-Luz»,
antologia de 100 autores;
selecção e organização de
valter hugo mãe; Edições
quasi, 2001)

Manuel António Pina

(Portugal, 1943)

*
Manuel António Pina nasceu no Sabugal (Beira Alta), em 1943. Poeta e autor de livros infantis. É licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra. Desde 1971, é jornalista profissional no Jornal de Notícias (Porto), onde tem desempenhado funções de editor. Além do JN, tem ainda colaboração dispersa por outros órgãos de comunicação, entre imprensa escrita, rádio e televisão. Recebeu até hoje diversos prémios literários.






I


POLÉN DAS ILHAS

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JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA



OS VERSOS


Os versos assemelham-se a um corpo
quando cai
ao tentar de escuridão a escuridão
a sua sorte


nenhum poder ordena
em papel de prata essa dança inquieta

(in «Baldios»,
Assírio & Alvim,
1999)


RECONHECIMENTO DOS LAÇOS


aos meus pais
por todas as razões


agora as tuas mãos estranhas ao medo
procuram um brilho mais puro, o lume
agora o tempo se mede por búzios
e os nomes flutuam mais leves que
as algas

podia abrigar duas formigas
e contar-te a história do mundo
desde que foi criado

podia se deixasse
escrever aquela história
da filha louca dos Matildes
a falar horas seguidas
da lucidez assustadora
deste poema

tudo podia
já que
os anjos do vento desenham na água
o fulgor inesperado
do teu gesto

(in «Os Dias Contados»,
Ed. do Governo Regional
da Madeira, DRAC, 1990)


José Tolentino Mendonça

(Madeira, 1965)

*
José Tolentino Mendonça (n. Machico, Madeira, 1965), sacerdote católico e docente de Teologia e Hebraico da Universidade Católica Portuguesa, foi colaborador do "Diário de Notícias" (Funchal) e do "Jornal da Madeira", do JL-Jornal de Letras, Artes & Ideias, e coordenou a revista de poesia "Salém". Tem organizado e prefaciado diversas edições de autores portugueses e estrangeiros e está representado, entre outras de projecção nacional, em antologias dedicadas a autores madeirenses, organizadas por José António Gonçalves, tais como "O Natal na Voz dos Poetas Madeirenses" (1989) e "Poet'Arte 90" (1990) e na "Poeti Contemporanei dell'Isola di Madera", coordenada e traduzida (bilingue) por Giampaolo Tonini (Itália, 2001). Eis alguns dos livros que publicou: "Os Dias Contados" (1990), "Longe Não Sabia" (1997), "Cântico dos Cânticos" (1997), "A Que Distância Deixaste o Coração" (1998), "Baldios" (1999) e "De Igual para Igual" (2001).

 

 


A PLUMA NO ÉDEN

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RUY BELO



E TUDO ERA POSSÍVEL


Na minha juventude antes de ter saído
de casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o poder de uma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer


RUY BELO

(1933-1978)


(in «Cem Sonetos Portugueses",
Selecção, organização e introdução
de José Fanha e José Jorge Letria,
Edição Terramar, 2002)

*

Ruy Belo, poeta e ensaísta português (1933-1978), era natural de São João da Ribeira, Rio Maior. Licenciado em Filologia Românica e em Direito pela Universidade de Lisboa, obteve o grau de doutor em Direito Canónico pela Universidade Gregoriana de Roma, com uma tese intitulada «Ficção Literária e Censura Eclesiástica». Exerceu, ainda que brevemente, um cargo de director-adjunto no então ministério da Educação Nacional, tendo também ocupado, um lugar de leitor de Português na Universidade de Madrid (1971-1977). Regressado, então, a Portugal, deu aulas na Escola Técnica do Cacém, no ensino nocturno. Em 1991 foi condecorado, a título póstumo, com o grau de Grande Oficial da Ordem Militar de Sant'iago da Espada. Na sua passagem pela imprensa, foi director literário da Editorial Aster e chefe de redacção da revista Rumo. Os seus primeiros livros de poesia foram Aquele Grande Rio Eufrates (1961) e O Problema da Habitação (1962). Às colectâneas de ensaios Poesia Nova (1961) e Na Senda da Poesia (1969). Seguiram-se obras cuja temática se prende ao religioso e ao metafísico, sob a forma de interrogações acerca da existência. É o caso de Boca Bilingue (1966), Homem de Palavras(s) (1969), País Possível (1973, antologia), Transporte no Tempo (1973), A Margem da Alegria (1974), Toda a Terra (1976) e Despeço-me da Terra da Alegria (1977). A sua obra, organizada em três volumes sob o título Obra Poética de Ruy Belo em 1981, foi, entretanto, alvo de revisitação crítica, sendo considerada uma das obras cimeiras, apesar da brevidade da vida do poeta, da poesia portuguesa contemporânea. Apesar do curto período de actividade literária, tornou-se um dos maiores poetas portugueses da segunda metade deste século, tendo as suas obras sido reeditadas diversas vezes. Destacou-se ainda pela tradução de autores como Antoine de Saint-Exupéry, Montesquieu, Jorge Luís Borges e Federico García Lorca. Em 2001, publica-se Todos os Poemas.

 


INÉDITO JAG

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LEOPARDO ALBINO


sigo o leopardo albino
pelo labirinto da floresta
silenciosa
da cidade ainda adormecida
roçando-lhe ao de leve as pegadas
apenas levado pela ânsia
dolorida
do teu perfume


cercado pelos muros
e cego pela perseguição
dou de repente por mim
exausto nos teus braços
de suave penugem verde
como asas de pássaro
tropical


recebo então o mel denso
do teu seio de porcelana
e a felicidade visita-me o rosto
como um bando de anjos
no céu


devagar dizias
meu menino
e logo sonhava voar dias e dias
nas asas da ave ainda suada
e via como o leopardo albino
que rastreava sem tino
nas sombras
era sempre
eu


José António Gonçalves
(inédito.08.01.05)

JAG
http://members.netmadeira.com/jagoncalves/

 

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Selecção e Montagem: JAG