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A
ARTE DE DELFOS |
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Edição/Direcção: José António Gonçalves + "A Poesia dos Calendários" II
Fase + MADEIRA/2005 |
20 |
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Folha de
Ouro *
NINHO DA
ÁGUIA *
POLÉN DAS ILHAS *
A PLUMA NO ÉDEN
* INÉDITO JAG |
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FOLHA DE OURO
NINHO DA
ÁGUIA *
POLÉN DAS ILHAS *
A PLUMA NO ÉDEN
* INÉDITO JAG
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TORQUATO TASSO
(DO PURO FOGO)
Do puro fogo com que o eterno Mestre
Criou no Céu o Sol e as Estrelas
Teus olhos formou inda e ao governo
Lhes deu o Amor, para que os informe e guie.
E um só raio deles para que olhemos
Longe afasta de nós a noite, e sombra
Dos afectos mundanos, e um lume interno
Nos acende de belos, almos desejos.
A chama, por eles desperta, ao seu estímulo
As almas não destrói mas vence e abrasa-as,
E as faz ainda terrenais, compostas.
Ó dor, não é o temor que me entristece:
Serena é como vós a nossa paz,
E de alegria é pranto o nosso pranto.
(DE AMINTA)
Amor, em qual escola,
Com que mestre se aprende
A tua tão longa e dúbia arte de amar?
A quem ensina a explicar
O que a mente entende
Enquanto no Céu voa com tuas asas?
Não já Atenas douta
Nem o Liceu magistral
Nem Febo em Helicone
Que de amor tanto diz
Como lá ele se aprende,
Gélido fala e pouco;
Não tem a voz do fogo
Como convém a ti,
Nem ergue os pensamentos
Dos teus mestres à altura.
Amor, que digno mestre
Só tu és de ti mesmo,
E só tu és mesmo por ti expresso:
Tu ensinas a ler
Aos mais rústicos engenhos
As coisas admiráveis
Que com letras de amor
Escreves com tua mão nos olhos de outrém:
Tu em ditos belos e facundos
Dás eloquência aos que te são fiéis
E não raro (ó estranha e rara
Eloquência de Amor)
Não raro num dizer confuso
E em palavras que são interrompidas
Melhor se exprime o coração
E mais parece mover-se,
Que não se faz com vozes que são doutas
E o silêncio costuma ainda
Ter pedidos e palavras.
Amor, leiam embora outros
Os socráticos preceitos,
Que eu em dois belos olhos aprenderei esta arte
E perderão as rimas
Das penas mais profundas
Depois das minhas selvagens,
Que tosca mão em tosca casca imprime.
(Coro da III Cena do II Acto, Aminta)
Tradução
JOSÉ V. DE PINA MARTINS
E MARIA DA CONCEIÇÃO DUARTE
Torquato Tasso
(1544-1595)
(in «Tasso - Gigantes da
Literatura Universal»;
Direcção, Enzo Orlando,
Editorial Verbo, 1972)
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Torquato Tasso (1544-1595) nasceu em Sorrento e faleceu em Roma
(Itália). A sua obra, calculada em dois milhares de poemas que mereceram
o respeito dos eruditos e a paixão popular, dentro de fora do seu país e
até aos dias de hoje, está distribuída por diversos géneros da produção
poética. Realce para «Aminta» (novela pastorial, 1573) e «Jerusalém
Libertada» (poema épico, 1575), este último um verdadeiro clássico da
cultura europeia e universal.
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NINHO DA ÁGUIA
Folha de
Ouro *
POLÉN DAS ILHAS *
A PLUMA NO ÉDEN
* INÉDITO JAG |
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JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA
CÂNTICO DOS CÂNTICOS
IV
Ah és bela minha amada és tão bela teus olhos são pombas
por detrás de teu véu
teu cabelo um rebanho de cabras que descem do monte Galaad
teus dentes rebanho de ovelhas tosquiadas que sobem do banho
todas geraram suas crias nenhuma há estéril entre elas
como fita escarlate teus lábios que formosa é tua boca
tuas faces são metades de romãs por detrás de teu véu
teu pescoço é a torre de David erguida sobre troféus
dela pendem mil escudos todos broquéis de valorosos
teus seios são dois filhotes gémeos de uma gazela
que se apascentam entre os lírios
antes que o dia expire e as sombras se alonguem
irei por mim ao monte da mirra e à colina do incenso
ah és bela minha amiga defeito não há em ti
Comigo do Líbano esposa vem comigo do Líbano
descerás do cimo de Amaná do cume de Senir e do Hermon
dos esconderijos dos leões dos barrancos dos leopardos
roubaste-me o coração minha irmã minha esposa roubaste-me o coração com
um só dos teus olhares
com uma só conta dos teus colares
que doces tuas carícias minha irmã minha noiva melhores tuas carícias do
que vinho
a fragrância de teus perfumes do que todos os odores
teus lábios são favos escorrendo ó esposa mel e leite sob a tua língua
o aroma dos teus vestidos é o aroma do Líbano.
És jardim fechado minha irmã minha esposa um jardim fechado uma fonte
selada
as tuas plantas um bosque de romãzeiras com frutos deliciosos
com cipros e nardos nardo e açafrão
cálamo e canela e toda a sorte de árvores de incenso
mirra e aloés e os bálsamos escolhidos
a fonte do jardim uma cisterna de água viva que jorra desde o Líbano
levanta-te vento norte vem vento do sul soprai no meu jardim espalhem os
seus perfumes
entra o meu amado no seu jardim e come seus frutos doces
Tradução directa do hebraico
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA
José Tolentino Mendonça
(Madeira, 1965)
(in «Cântico dos Cânticos»,
tradução do hebraico, introdução
e notas de José Tolentino Mendonça,
com ilustrações de Ilda David,
Edição bilingue, Cotovia 1997)
*
José Tolentino Mendonça (Machico, 1965). Nascido na ilha da Madeira, fez
doutorado em Roma e hoje é capelão da Universidade Católica de Lisboa,
onde dá aulas de teologia bíblica. Sobre a sua vocação religiosa já
confessou que "foi uma coisa de juventude, inconsequente, imprudente,
inesperada, que eu procuro manter. Ser padre é um nomadismo interior
constante. É aceitar a pobreza como condição. E a pobreza é uma coisa
chata de viver. É achar que isso pode ser uma forma de dizer alguma
coisa ao seu tempo". Para além de autor de livros de poemas ("Os Dias
Contados", 1990; "Longe Não Sabia", 1997; "A que Distância Deixaste o
Coração", 1998) e do ensaio "As Estratégias do Desejo: Um Discurso
Bíblico sobre a Sexualidade" (1994), Tolentino Mendonça é autor de uma
elogiada tradução do "Cântico dos Cânticos" (1997), já publicou vários
ensaios, escreveu teatro e está a traduzir os "Salmos".
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POLÉN DAS ILHAS
Folha de
Ouro *
NINHO DA
ÁGUIA *
A PLUMA NO ÉDEN
* INÉDITO JAG
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ÂNGELA ALMEIDA
NÃO HÁ QUALQUER MORADA
não há qualquer morada a oeste do rosto.
tudo acontece aqui, na escassez da pele e do tempo
que os meus dedos demoram sobre ti.
não há qualquer destino para além deste pequeno presente
tudo amanhece no rosto, até a nostalgia dos segredos
e a madrugada do nome, não o escrevas cansei-o
DEVOLVE-ME TODOS OS SILÊNCIOS
devolve-me todos os silêncios do rosto.
a canção ofegante do sono, o não acordar das manhãs.
devolve-me tudo.
poderei falar-te da lava onde repousaste e das tardes húmidas
da pele nas águas.
os corpos crescendo no manto das ondas.
devolve-me todos os silêncios, a pausa triste da mão sobre
a noite.
a fugacidade dos olhos sobre o campo.
poderei falar-te da paz de uma ilha e dos braços sobre a
alegria das dunas, o crepúsculo avançando sobre a muralha.
(in «Nove Rumores do Mar»,
antologia de poesia açoriana contemporânea,
org. Eduardo Bettencourt Pinto,
Prefácio de Vamberto Freitas,
pintura de Ferreira Pinto,
Instituto Camões, 3ª. ed., 2000)
Ângela Almeida
(Açores, 1959)
*
Ângela Almeida nasceu na cidade da Horta, ilha do Faial, Açores, em
1959. Figura notável da vida cultural e literária no Arquipélago, criou
e dinamizou grupos de teatro, editoras, publicações, eventos de carácter
público de relevante interessante e chegou a ser actriz dramática e
declamadora de qualidade assegurada. Entre outras publicações, realce-se
na sua obra: «Ilha das Flores. A sedução da Água» (1995), «Retrato de
Natália Correia» (Ensaio, Círculo de Leitores, 1994), «Sobre o Rosto»
(1989; 2ª. ed., 1994), «O Baile das Luas» (1993) e «Pela Vertente do
Sonho» (1985).
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A PLUMA NO ÉDEN
Folha de
Ouro *
NINHO DA
ÁGUIA *
POLÉN DAS ILHAS *
INÉDITO JAG |
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JOSÉ SARAMAGO
CAMINHO
Há mentiras de mais e compromissos
(Poemas são palavras recompostas)
E por tantas perguntas sem respostas
Mascara-se a verdade com postiços.
Não vida, nem sombra, nem razão,
É jaula de doidice furiosa,
Eriçada de gritos, angulosa,
Com estilhaços de vidro pelo chão.
É carrego de mais esta jornada
E protestos não servem, nem suores,
Já mordidos os membros de tremores,
Já vencida a bandeira e arrastada.
Depois se me apagaram os amores
Que a viagem fizeram desejada.
José Saramago
(Portugal, 1922)
(in «Cem Sonetos Portugueses»,
Selecção, Organização e Introdução
de José Fanha e José Jorge Letria;
Ed. Terramar, 2002)
*
José Saramago nasceu (1922) filho de uma família pobre do Ribatejo e
comunista convicto, levou toda uma vida de militância, chegando a ser
jornalista destacado e director-adjunto do «Diário de Notícias» de
Lisboa. Pelo reconhecimento do seu brilhantismo como romancista e pela
sua carreira literária, recebeu da academia sueca o «Prémio Nobel», em
1998. Tem uma vasta obra já publicada, apesar de apenas se ter dedicado
à escrita ficcional aos sessenta anos, com realce para «Levantado do
Chão», «Jangada de Pedra», «Memorial do Convento», «O Evangelho Segundo
Jesus Cristo», «O Ano da Morte de Ricardo Reis», ou «O Homem Duplicado»,
tendo a Editoral Caminho chancela sobre toda a sua obra.
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INÉDITO JAG
Folha de
Ouro *
NINHO DA
ÁGUIA *
POLÉN DAS ILHAS *
A PLUMA NO ÉDEN
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PRENDAS
O meu amor honra-me com prendas
e eu nada tenho para lhe dar. Talvez a Lua.
Afaga-me o cabelo e enche-o de nuvens
e eu só lhe posso retribuir com raios de sol.
Debruça-me sobre um manto fresco de ervas
e brinca com as minhas orelhas. Dou-lhe,
em segredo, um sorriso, a que ela, logo, acode
com uma cascata líquida de risinhos cristalinos.
À noite desculpa-se por não ter outras prendas
para demonstrar-me o seu verdadeiro amor.
É nesse momento que, então, envergonhado
por ter menos do que ela, aproveito o escuro
do quarto e lhe pouso, devagar, sobre a almofada,
uma pétala, ainda viva, perfumada, duma flor.
José António Gonçalves
(inédito.04.03.05)
JAG
http://members.netmadeira.com/jagoncalves/
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Folha de Ouro
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NINHO DA ÁGUIA *
POLÉN DAS ILHAS
* A PLUMA NO ÉDEN
* INÉDITO JAG
Selecção e
Montagem: JAG |