A ARTE DE DELFOS

 

 

Edição/Direcção: José António Gonçalves + "A Poesia dos Calendários" II Fase + MADEIRA/2005

22

 

Folha de Ouro    *    NINHO DA ÁGUIA  *   POLÉN DAS ILHAS  *   A PLUMA NO ÉDEN  *   INÉDITO JAG



FOLHA DE OURO 

NINHO DA ÁGUIA  *   POLÉN DAS ILHAS  *   A PLUMA NO ÉDEN  *   INÉDITO JAG
 

 



W. B. YEATS




NOVAS PARA O ORÁCULO DE DELFOS



I

Aí jazem os felizes e estranhos velhotes,
Aí o orvalho de prata,
E as grandes águas suspiram de amor,
E o vento suspira também.
Niamh, a que os homens elege, inclina-se suspirando
Junto a Oisin, sobre a relva;
Também aí em seu coro de amor suspira
O alto Pitágoras.
Com pedaços de sal no peito,
Chega Plotino e olha em redor,
Estira-se, boceja um pouco,
E aí jaz, suspirando também.


II

Todos eles montam um golfinho
E nas barbatanas apoiados,
Esses Inocentes revivem a sua morte,
De novo se abrem suas feridas.
Em êxtase riem-se as águas pois
Belos são os gritos e são estranhos,
E eles dançam com passos ancestrais,
E os brutos golfinhos mergulham
Até que em certa alcantilhada baía onde
A vau passa o coro do amor
Arremessando as sagradas coroas de louros,
Se desembaraçam de suas cargas.


III

Formosa adolescência que uma ninfa desnudou,
Peleu olha Tétis fixamente.
Os seus membros são delicados como pálpebras,
O Amor cegou-o com lágrimas;
Mas o ventre de Tétis escuta.
Pela encosta da montanha,
Da caverna de Pã,
intolerável música cai.
Imunda cabeça de cabra, braço brutal assomam,
Ventre, ombro, nádega,
Cintilando como peixes; ninfas e sátiros
Copulam na espuma.


Tradução
JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA


W. B. Yeats

(1749-1832)


(in «W. B. Yeats - Uma Antologia»,
selecção e tradução de José Agostinho
Baptista, Assírio & Alvim, 1996)


*
William Butler Yeats nasceu em 13 de Junho de 1865, em Dublin, Irlanda, onde se desenvolveu em um meio culto e criativo. Poeta e autor teatral, Prêmio Nobel (1923) de Literatura. Foi o representante máximo do Renascimento irlandês e um dos escritores mais destacados do século XX. Faleceu, deixando uma vasta e belíssima Obra poética à Humanidade, em 1939.


 



NINHO DA ÁGUIA

Folha de Ouro    *     POLÉN DAS ILHAS  *   A PLUMA NO ÉDEN  *   INÉDITO JAG

 

 



LUÍS ADRIANO CARLOS



40 000 ANOS NO SÉC. XXI


Eras este lugar, juro que eras este lugar, este lugar
que agora me chama do centro da fotografia,
de longe infância, de dentro do vento, esta passagem
que mancha o coração por dentro da fotografia,
que bate no coração que bate por dentro de mim
e que agora bate onde me falta o coração e o sangue
do vento no pulmão. Juro que eras este lugar,
este lugar de dentro subindo pelas areias do pulmão, juro
que morres nesta fotografia, de dentro da sombra
do cadáver da tua luz. Mancha-me o coração dentro
do teu cadáver, dentro das paredes da casa invisível
onde o coração bate, o pulmão respira, e toda
a solidão do mundo estremece, e morres
nesta fotografia, neste lugar, neste lugar.


*


Estes pés pousados na areia são a tua passagem por dentro de mim,
o sopro imaterial das águas no espírito do oceano, praia
sem a nudez das espécies que batem no coração das ondas,
anjo caído dentro de mim nos teus pés de areia, imaterial
paisagem de longe infância. Vieste de quarenta mil anos,
da origem do vento que transforma areias em pensamentos
e bate no coração pousado em cima do oceano, vieste como o destino
ainda puro de mim, perigoso e amável, onda por dentro do pulmão,
sangue derramado no espírito do vento. Estes pés na areia
são a tua passagem, o vulto de longe infância, a luz
do teu cadáver dentro das espécies, mancha de terror cristalino
antes que a vida sopre há quarenta mil anos dentro de mim,
estes pés que me trespassam aquém da fotografia, estes pés
desertos da tua ausência, estes pés pousados na paisagem.




(NÃO ESCUTO O SOM DOS MARTELOS NA AREIA)


Não escuto o som dos martelos na areia do meu cimento interior,
inunda-se a terra de metais, um açor penetra a noite de ponta a ponta,
uma palavra gasta perde-se nas duas pontas. Tuas mãos estalam
num vidro partido, um sonho fracassado descobre o suicídio,
uma carta extraviou-se e o carteiro enforca-se na roda da bicicleta.
O silêncio partiu no último comboio: restamos sós neste espaço.
Podes ir se puderes mover-te. Se não, adeus, até que o silêncio regresse.



Luís Adriano Carlos


(1959)


(in «A Mecânica do Sexxo XXI»,
edições quasi, 2003)


*
Luís Adriano Carlos nasceu em Vila Nova de Foz Côa, em 1959. Além de professor e investigador da Universidade do Porto, Luís Adriano Carlos é ainda poeta, com várias obras publicadas nesse domínio: A Mecânica do Sexxo XX (1983), Invenção do Problema (1986), Livro de Receitas (2000), O Suicida Aprendiz (2002) e A Mecânica do Sexxo XXI (2003). Este facto não é naturalmente irrelevante ou estranho a determinadas tendências fecundas do trabalho hermenêutico do autor. No campo da crítica e do ensaio, entre muitos trabalhos sobre vários autores da modernidade (António Nobre, Alberto de Oliveira, Eça de Queirós, Fernando Pessoa, José Régio, Saúl Dias, Alberto de Serpa, José Gomes Ferreira, Álvaro Feijó, Políbio Gomes dos Santos, Vergílio Ferreira, Sophia de Mello Breyner Andresen, Eugénio de Andrade, Ruy Cinatti, Luís Veiga Leitão, entre outros), foi o primeiro universitário português a dedicar a Jorge de Sena dissertações de mestrado e doutoramento: Jorge de Sena e a Escrita dos Limites: Análise das Estruturas Paragramáticas dos “Quatro Sonetos a Afrodite Anadiómena” (Porto, 1986) e Poética e Poesia de Jorge de Sena: Antinomias, Tensões, Metamorfoses (Porto, 1993). Dirigiu e apresentou as edições fac-simile das importantes revistas Árvore (1951-53) e Cadernos de Poesia (1940-53). A sua dissertação de doutoramento foi publicada com o título Fenomenologia do Discurso Poético: Ensaio sobre Jorge de Sena, livro galardoado com o Grande Prémio de Ensaio da APE 1999. Recentemente publicou, entre outros, «O Arco-íris da Poesia - Ekphrasis em Albano Martins» (Campo das Letras, 2002).


 


POLÉN DAS ILHAS

Folha de Ouro    *    NINHO DA ÁGUIA  *     A PLUMA NO ÉDEN  *   INÉDITO JAG

 




J. H. BORGES MARTINS


BILHETE PARA FRANZ KAFKA


apanho o sorriso do sol
como um rosto velho acabado
de nascer.


esfola-se taciturno como
animal
com gestos
transfigurados de cio
pelo som noctívago das paredes


por vezes é branco e azul
sangrando
inutilmente na podridão
dos dias.




ESTIGMA DAS ÁGUAS


o tempo vive enlatado na penumbra
dos dias


como um deus ferido que apodreceu
no estigma revolto
das águas.




J. H. Borges Martins

(Açores, 1947)



(in «Neo», nºo. 1,
Primavera 2002,
revista literária
da Universidade dos Açores)


*
J. H. Borges Martins, poeta açoriano, nasceu em Angra do Heroísmo, Ilha Terceira, a 30 de Novembro de 1947. Da sua obra, realce para "Mitologia das Armas" e «Nas Barbas de Deus».. Colaborador de várias publicações, nomeadamente em poesia, tais como «Atlântida» e «Neo», integrou também algumas colectâneas poéticas, com realce para «Nove Rumores do Mar» (org. por Eduardo Bettencourt Pinto), «De Palavra em Punho: antologia poética da Resistência, de Fernando Pessoa até ao 25 de Abril» (org. José Fanha).
 


A PLUMA NO ÉDEN

Folha de Ouro    *    NINHO DA ÁGUIA  *   POLÉN DAS ILHAS  *      INÉDITO JAG

 




ALONSO QUESADA



ORAÇÃO DA MEIA-NOITE



A barca negra,
que sempre está no mar, vem ter à orla:
Há um farol que se ilumina nela
e um velho manto para quem se vai...


Toda a turba sideral parece
que se confunde atónita e que espia
os sinais dos meus passos pela areia...
Vai minha sombra aidante como guia.
Os ecos das estrelas soam na alma
e não se crê em nada desta vida:
A hora melhor para morrer seria,
sem caixão e sem cantos, sem mais nada...
Vou em silêncio pela escura praia.
A noite é outonal... Ninguém caminha.


Não meditaste nunca nessa lousa
que há-de ostentar, escrita, uma memória,
e nessa tenebrosa luz de lâmpada
que acende a devoção familiar?
Ou nesse padre-nosso extraordinário
que a todos cantam quando se despedem?...
Ou nesse - porquê morto? - que floresce
nestas bocas sem tempo de província?



E logo, em dias de defuntos, essas
sentimentais pessoas que visitam
os cemitérios, e renovam todos
os nossos dúbios passos pela vida?


Tu não sentes a dor desta grotesca
dança de prescrições, que torna eterna
nossa memória, e grava fortemente
a marca que te importa deixar limpa?


Mais firme agora é o silêncio, e fala
uma tranquila voz, distanciada:
- Afasta do teu espírito esse albergue,
que será para todos, algum dia...
E evade-te, na noite, com as sombras,
e sê parte tu próprio dessa noite...



Tradução
PEDRO DA SILVEIRA


Alonso Quesada

(Canárias, 1886-1925)


(in «Mesa de Amigos»,
Colecção Gaivota,
DRAC-Açores,1986)

*
Alonso Quesada (Espanha, Canárias, 1886-1925) é o pseudónimo do poeta canário Rafael Romero (n. em Las Palmas de Gran Canaria e falecido em Santa Brígida). A sua obra em prosa, Crónicas de la ciudad y de la noche (1919), representa a incorporacão do pensamento insular na atitude espiritual da geração de 98. En vida publicou dois livros de poesia, El lino de los sueños (1915), com prólogo de Unamuno (que chegou a conhecer pessoalmente), e La umbría (1923); e póstumamente saíu à luz da publicidade o seu volume Los caminos dispersos (1944).


 


INÉDITO JAG

Folha de Ouro    *    NINHO DA ÁGUIA  *   POLÉN DAS ILHAS  *   A PLUMA NO ÉDEN  *  

 




ESPUMA DE PEDRA


É espuma de pedra vulcânica,
reparo seguindo as sombras,
todos os recantos do meu caminho.
Salgada, em brasa, por um dia
beijou a terra e nela deixou-se
ficar algum tempo, cristalizada.
Tem o seu coração de lava
revestido com os tecidos negros
do silêncio das noites de Setembro.
Não sabemos se ainda bate, se bombeia
sangue quente, se desespera por
imobilidade, mas deita-se ao sol
e ao escuro, em suave compostura.
Provavelmente apenas se encanta
com o espelho celestial da lua-cheia,
aveluda-se ao andar dos animais
ou vibra com os delicados pés
orvalhados das filhas da natureza.
Passaram tantos milhões de anos
e ali ainda dorme. Não me espanta
que no decurso de uma madrugada
dedicada às danças e ao vinho,
no intervalo do respirar de uma reza,
alguém a desperte. O mar aguarda
e a terra sabe; com ela não há segredos.
Os homens mantêm-se fiéis ao muro
da petrificação. Escondem os medos
na poeira das montanhas, na areia
do calhau. Cada um deles sabe
que um dia acordará sozinho,
no lugar em que apenas cabe
um outro coração, novo, vindo
do futuro. No centro da luz
um mundo virgem espera. Palavras
foram inventadas para serem escritas
no momento. Haverá estrelas, cânticos,
fachos, uma cruz, templos, procissões,
lágrimas depositadas num andor.
Existem orações que não serão ditas
se acontecer o milagre. Algures
numa gota de água irá descobrir-se
vida, um sopro persistente de amor
a construir as amarras da ilha de Circe.



José António Gonçalves

(inédito.17.03.05)

JAG
http://members.netmadeira.com/jagoncalves/

 

 

Folha de Ouro    *    NINHO DA ÁGUIA  *   POLÉN DAS ILHAS  *   A PLUMA NO ÉDEN  *   INÉDITO JAG

Selecção e Montagem: JAG