A ARTE DE DELFOS

 

 

Edição/Direcção: José António Gonçalves + "A Poesia dos Calendários" II Fase + MADEIRA/2005

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Folha de Ouro    *    NINHO DA ÁGUIA  *   POLÉN DAS ILHAS  *   A PLUMA NO ÉDEN  *   INÉDITO JAG



FOLHA DE OURO 

NINHO DA ÁGUIA  *   POLÉN DAS ILHAS  *   A PLUMA NO ÉDEN  *   INÉDITO JAG
 

 


MIGUEL ANXO FERNÁN-VELLO



MARÇO


Março ameno, o voo prateado da sombra.
Emanação astral brilhando detrás da sede,
detrás dos olhos que noutros olhos entram,
no íntimo assombro, na queimadura de água
que bebe o céu.


Março ameno, fulgor verde, lábio de fonte arvorecida
pela força do ar. Como um rio de espelhos
irrompe o fluxo do dia, a raiz oculta do tempo.


Março, sabor a seiva, deleite de estrela fria!


Nos lugarejos do norte, de sal é o vento e de argila.
Aí a primeira fulguração culpa o alvorecido pão,
o corpo arvorescente, essa fragrância nova no sangue
com que o sol macera o fruto e estremece o coração.
Março apertado e viril, atravessado pela altura do eco e da chuva,
um mar rasando os campos: lâmina coroada
de flor e névoa. Março de alvas geadas
que precedem a luz no nó cego da água.


Entre o frio incandescente e a seda azul do vento,
Março incendeia o gume onde a sombra do inverno
apaga o enlevo, pelo fulgor dos dias vencida.



Tradução
VERGÍLIO ALBERTO VIEIRA


Miguel Anxo Fernán-Vello

(Galiza, 1958)


(in «Poesia no Porto Santo»,
PEN Clube Português, DRAC-Madeira,
Funchal, 2000)


*
Miguel Anxo Fernán-Vello, nascido na Galiza (Espanha), em 1958, é poeta e dramaturgo, com estudos de Filologia Hispânica e de Psicologia na Universidade de Santiago de Compostela. Autor premiado e já com uma importate obra, dirige a editora «Edições Espiral Maior», sendo ainda secretário-geral da Associação de Escritores de Língua Galega. Entre outros livros, publicou «Memorial de Brancura» (1985) e «Trópico de Luas» (1992). Em 2000 participou no II Encontro de Poetas do Porto Santo, oportunidade de que gozou para visitar a Madeira. Foi incluído na antologia saída do evento, organizada pelo Pen Clube Português, com o apoio da Direcção Regional dos Assuntos Culturais (DRAC-Madeira, 2000).




 



NINHO DA ÁGUIA

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ALBANO MARTINS



PARA O DAVID, NO VEIO DO CRISTAL


Sei que não há remédio para este desastre.
David Mourão-Ferreira



Colheste a última rosa
do jardim das Hespérides. Sabes
agora que não há
remédio para a sede, como é rápido
o percurso que vai
do tempo ao coração.


Em Delfos conheceste
a sentença do oráculo, disseste
adeus à tua
juventude. O que sobrou
confiaste-o ao mármore, inscreveste-o
no veio do cristal
em seda
e madrepérola.



Albano Martins

(1930)


(in «Castália e Outros Poemas»,
campo das Letras, 2001)

*
Albano Martins nasceu em 1930 na aldeia do Telhado (Fundão). Licenciado em Filologia Clássica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi professor do Ensino Secundário de 1956 a 1976. Tendo ingressado, em 1980, nos quadros da Inspecção-Geral de Ensino, passou, em 1993, à situação de aposentado. Presentemente, é professor na Universidade Fernando Pessoa, do Porto.Tem-se dedicado, também, à tradução de poetas (gregos do período clássico, italianos, espanhóis e sul-americanos). Foi-lhe atribuído o Grande Prémio da Tradução APT/Pen Clube Português, pela sua versão de Canto Geral, de Pablo Neruda (Campo das Letras, 1998). Recebeu, em 2004, a Condecoração e Diploma da Ordem de Mérito Docente e Cultural Gabriela Mistral no Grau de Grande Oficial pela sua obra poética e pelo seu trabalho de tradução de Pablo Neruda. Tem colaboração, em prosa e verso, dispersa por numerosos jornais e revistas, nacionais e estrangeiros. Poemas seus estão traduzidos em diversas línguas. Autor de várias dezenas de títulos (iniciou-se em 1950 com «Secura Verde»), a crítica refere-se-lhe como um dos mais importantes poetas portugueses da contemporaneidade.

 

 


POLÉN DAS ILHAS

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JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA



MADEIRA


Quero beijar os teus lábios de pedra,
a água azul e profunda onde os teus
seios sem mácula se unem às minhas
mãos,
quero fundir-me em ti,
minha doce amante do desejo antigo,
quero mergulhar nos cabelos húmidos das
tuas raízes,
quero subir lentamente o teu corpo frio,
fendido,
quero fazer em ti,
nos teus jardins inclinados,
um país de filhos belos, de animais de
silêncio e bondade,
quero regressar a ti,
ao mistério das levadas, das falésias,
dos ventos que batem nos pássaros de aço
e nas tuas tranças,
quero que me toques amorosamente com
os teus dedos esguios,
com as tuas canas doces,
quero o mel, a estrelícia, o pão escuro sobre
as mesas de toalhas loucas bordadas pelas
mulheres de outrora,
senhoras nossas das dores e do entardecer,
quero levar-te comigo para além, para
sempre,
quero que deixes em mim o fruto das tuas
árvores da alegria,
todos os sinais da ternura que o tempo não
consumiu,
minha eterna amante junto ao mar,
quero morrer em ti,
e em ti nascer de novo.



José Agostinho Baptista

(Madeira, 1948)




(in «Anjos Caídos»,
Assírio & Alvim, 2003)


*
José Agostinho Baptista nasceu no Funchal (Madeira), a 15 de Agosto de 1948. Colaborou na imprensa, nomeadamente no Comércio do Funchal e mais tarde no República e no Diário de Lisboa, cujo suplemento "O Juvenil" o tornou conhecido como poeta. Desde então e ao longo dos doze livros já publicados (os primeiros dez foram reunidos no volume "Biografia", Assírio & Alvim, 2000), a sua poesia vem sendo reconhecida como uma das mais originais e importantes na actualidade, como bem assinalaram, entre outros, António Ramos Rosa, Fernando Pinto do Amaral ou Joaquim Manuel Magalhães nos ensai os que lhe dedicaram. Simultaneamente, José Agostinho Baptista tem vindo a assinar diversas traduções de autores como Walt Whitman, W.B. Yeats, Tennessee Williams, Paul Bowles, Enrique Vila-Matas, Rabindranath Tagore, Robert Louis Stevenson, Oliverio Macías Álvarez, entre outros.Condecorado pelo Presidente da República com as insígnias de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, Funchal, 1 de Julho de 2001. Recentemente publicou mais dois livros, sempre na Assírio e Alvim, «Anjos Caídos» (2003) e «Esta Voz é Quase o Vento» (2004).

 

 


A PLUMA NO ÉDEN

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GÉRARD DE NERVAL



DÉLFICA



Conheces tu, Dafné, este cantar de outrora
que junto do sicômoro ou sob os loureiros,
ou mirtos, oliveiras, trémulos salgueiros,
este cantar de amor... que volta sempre e agora?


Reconheces o Templo - peristilo imenso -
e os ácidos limões que teus dentes mordiam,
é a gruta onde imprudentes ébrios se perdiam
e do dragão vencido dorme o sémen denso?


Hão-de voltar os deuses que saudosa choras!
O tempo há-de trazer da antiguidade as horas;
a terra estremeceu de um ar de profecia...


Todavia a sibila de rosto latino
adormecida à sombra está de Constantino
e nada perturbou a severa arcaria.




VERSOS DE OURO



Pensando livre, julgas que nenhum outro ente
Pensa num mundo em que tudo jorra a vida?
És livre de dispor da força em ti contida,
Mas do que tu decides é o Universo ausente.


Respeita no animal um espírito agente.
Em cada flor uma alma espera ser sentida.
Um mistério de amor tem nos metais guarida.
Tudo é sensível. Tudo sobre ti potente.


Teme, no muro cego, um olhar que te fita.
A tudo o que é matéria um Verbo está ligado.
Não faças dela nunca uma coisa perjura.


Num ser obscuro às vezes há um deus que habita.
E, como um olho nasce em pálpebras fechado,
Sob as rugas das pedras uma alma se apura.


Tradução
JORGE DE SENA


Gérard de Nerval

(França, 1808-1855)


(in «Poesia de 26 Séculos»,
Antologia, Edições ASA, 3ª. ED., 2001)

*
Gérard de Nerval nasceu em Paris em 2 de Maio e ali morreu em 25 de Janeiro de 1855. Com a morte da mãe, o pai passou a educá-lo, ensinando-lhe, além de grego e latim, rudimentos de árabe e persa. Estudante ainda, publicou seu primeiro livro, de elegias patrióticas, La France Guerriére. Aos 20 anos lançou uma tradução do Fausto, de Goethe, em que Berlioz mais tarde se basearia para criar a sinfonia A danação de Fausto. Aos 21 anos, já com alguma reputação literária, associou-se a Théophile Gautier na elaboração de um folhetim dramático publicado regularmente na imprensa. Em 1842, após o casamento e morte de uma actriz pela qual tivera uma violenta paixão, partiu em viagem pela Alemanha em companhia de Alexandre Dumas e depois sozinho pelo resto da Europa, levando desde então uma vida irregular e excêntrica. Em 1852 publicou uma série de novelas no livro Os iluminados, ou os precursores do socialismo. Seguiram-se vários livros de contos e novelas, além de uma peça para teatro em parceria com Alexandre Dumas, e Aurélia, publicada no ano de sua morte. De todo seu trabalho, o principal foi Les filles du feu, onde está incluída a novela Sílvia.


 

 


INÉDITO JAG

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POEMA PARA MEU PAI







sobre o teu ombro

eis o umbral da porta

a sombra das tuas mãos

enrugadas





desenhei as tuas viagens

nos cadernos escolares

e salvei-te muitas vezes

dos monstros de cinza

que te perseguiam

no breu das águas





perguntava à mãe

porque sempre partias

e ela fazia-me uma festa

no cabelo

e ficava horas a olhar

sozinha o horizonte





numa redacção tive

de explicar o sentimento

a minha opinião de criança

sobre o pai emigrante

e eu pensei logo no vento

do mar das Caraíbas

e no Sol da Aruba

espelhando-se no Curaçau





estavas muito distante

e afinal ali tão perto

no coração de outras ilhas





quis confessar-te um dia

como é bom o amor de um filho

mas só houve silêncio em casa





na rua gritava o teu nome pai

e de ti só dizia maravilhas




José António Gonçalves

(inédito.19.03.05)

JAG
http://members.netmadeira.com/jagoncalves/
 

 

 

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Selecção e Montagem: JAG