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A
ARTE DE DELFOS |
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Edição/Direcção: José António Gonçalves + "A Poesia dos Calendários" II
Fase + MADEIRA/2005 |
03 |
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Folha de
Ouro *
NINHO DA
ÁGUIA *
POLÉN DAS ILHAS *
A PLUMA NO ÉDEN
* INÉDITO JAG |
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FOLHA DE OURO
NINHO DA
ÁGUIA *
POLÉN DAS ILHAS *
A PLUMA NO ÉDEN
* INÉDITO JAG
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HOMERO
ODISSEIA
Quanto à nau, tal como na planície quatro cavalos atrelados
se precipitam todos ao mesmo tempo debaixo dos golpes
do chicote e levantando bem alto as patas percorrem o caminho -
assim levantava a proa e para trás ficava a grande onda
cor de púrpura, espumando no mar marulhante.
A nau seguia com segurança; e nem o falcão, a mais leve
de todas as aves, a poderia ter acompanhado.
Avançando com leveza, a nau cortou as ondas do mar,
transportando um homem cujos conselhos igualavam
os dos deuses, que já sofrera muitas tristezas no coração,
que atravessara as guerras dos homens e as ondas dolorosas,
mas que agora dormia em paz, esquecido de tudo quanto sofrera.
Homero
(Grécia, séc. IX a. C.?)
Tradução
FREDERICO LOURENÇO
(in «Odisseia»,
Livros Cotovia, 2003)
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Homero, poeta grego (século IX a.C.?). Um dos maiores escritores da
Antiguidade, a quem são atribuídas a Ilíada e a Odisseia, obras-primas
da literatura mundial. A sua origem e mesmo a sua existência são
incertas. Com base em informações do historiador Heródoto, os estudiosos
de Homero situam por volta do século IX a.C. a época do seu nascimento e
consideram provável que sua cidade natal seja Esmirna ou a Ilha de Quio,
na Grécia. Em 1795, o alemão Friedrich August Wolff afirma, baseado em
estudos estilísticos, que a Ilíada e a Odisseia são de poetas
diferentes. Outros historiadores acreditam que elas possam ser obras
coletivas, ou ainda que Homero teria compilado poemas populares. As duas
obras reconstituem a civilização grega antiga, com riqueza de detalhes.
Na Ilíada, a narrativa da Guerra de Tróia é associada a reflexões sobre
a vida do homem e sua relação com os deuses. A Odisseia conta as
aventuras do herói Ulisses, no seu regresso à ilha de Ítaca.
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NINHO DA ÁGUIA
Folha de
Ouro *
POLÉN DAS ILHAS *
A PLUMA NO ÉDEN
* INÉDITO JAG |
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NINHO DA ÁGUIA
JOÃO RUI DE SOUSA
OFÍCIO
Conduzo estas palavras que se erguem
num alteroso mar onde o que seja
a alegria, a dor ou a raiva imiscuídas
se transforma em árvores ampliadas
no arfado crescendo de uma forja,
no florescer de regras muito próprias
(às vezes descobertas, encontradas,
num rio de nudez ou no rumor
das ruas e da casa)
para o azul das massas levedadas
e para os pães de variadas formas
(e misturas, fermentos, intenções)
com que abro portas, muros e janelas
que dão para jardins que nunca acabam.
(in «Enquanto a Noite, A Folhagem»,
Tertúlia, 1991)
CÁLCULO DE POSSIBILIDADES
A palavra existia de longe.
Era um medronho possível, ainda não maduro,
era um ângulo aberto para todas as poses,
para o múltiplo das vagens e do distúrbio.
Ou era apenas um aceno de luto:
um saborear de flecha calcinada
pela humidade sonolenta, devastadora.
Ou era o enunciar de intrépidas borboletas
ou de uma adaga a flutuar junto à pele,
rente à firmeza de um pulso fulgurante.
A palavra seguia, e era de sempre.
Tal um lugar sentado onde cada acaso
era uma oferenda.
(inédito; de «Relâmpago»,
nº. 13, Outubro de 2003)
João Rui de Sousa
(Portugal, 1928)
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João Rui de Sousa, poeta e ensaista, nasceu em Lisboa, em 1928. Dirigiu
- com António Carlos, António Ramos Rosa, José Bento e José Terra - a
revista Cassiopeia (1955),onde se estreou. Tem colaboração em avultado
número de jornais, revistas e volumes colectivos. Está representado em
numerosas antologias. No plano do seu trabalho ensaístico, aí incluindo
a crítica de poesia, estudou numerosos poetas portugueses
contemporâneos. Teve responsabilidades na organização e apresentação de
algumas obras, como Fotobibliografia de Fernando Pessoa (1988) e Poesias
Completas de Adolfo Casais Monteiro (1993). Esteve presente em diversos
festivais, encontros e congressos, nacionais e estrangeiros,
nomeadamente em Alma-Ata (Casaquistão), Santiago do Chile, Morélia
(México) e Las Palmas (Canárias). Livros publicados - ENSAIO: Fernando
Pessoa - Empregado de Escritório (1985), Este Rio de Quatro Afluentes
(1988) e António Ramos Rosa ou o Diálogo com o Universo (1998). POESIA:
A Hipérbole na Cidade (1960), Circulação (1960), A Habitação dos Dias
(1962), Meditação em Samos (1970), Corpo Terrestre (1972), O Fogo
Repartido (1983, volume onde reuniu os livros anteriores), Palavra Azul
e Quando (1991), Enquanto a Noite, a Folhagem (1991), Sonetos de
Cogitação e Êxtase (1994), Obstinação do Corpo (1996), Respirar pela
Água (1998), Concisa Instrução aos Nautas (1999) e Os Percursos, as
Estações (2000). Em 2003 conquistou os mais importantes prémios
nacionais de poesia com a sua «Obra Poética» (1960-2000, prefácio de
Fernando J. B. Martinho, Publicações Dom Quixote).
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POLÉN DAS ILHAS
Folha de
Ouro *
NINHO DA
ÁGUIA *
A PLUMA NO ÉDEN
* INÉDITO JAG
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IRENE LUCÍLIA ANDRADE
O NOME MÃE CRESCE SOBRE A TOALHA
O nome mãe cresce sobre a toalha
onde a vida está posta
reparte-se nas mesas
ondeia na transparência florida da cortina
enrola-se nas verdes rendas dos fetos
pela manhã regados com desvelados dedos
fulge em cada grão de pó
que o sol acende a imprimir miragens no tapete
quando se prende o verão pela janela
chamamos nossos o dia
o lençol o banco da cozinha
também são nossas as grades
e a vista da varanda
e até a tristeza do princípio da noite
faz parte do destino
a panela é a pira
mágico contentor de um lírico elixir
suco precioso que aglutina a doçura
o lume e o sal de cada dia
enquanto o nome mãe
alçado e subterrâneo
vai bordando uma viagem
a ponto cheio entre o telhado
e a raiz da casa.
DEUS
dono desta palavra e meu ouvido
eu quero os sons infalíveis
das falas claras sãs convenientes
um riso qo longe a desbravar escarpas
um nome algures com alegria dito
o estrépido do cão
quando uma aragem finge ser um vulto
a primeira chuva de Setembro enternecida
o respirar do autocarro abrindo a rotina
às sete da manhã
que eu escute por muito tempo ainda
a diástole familiar do velho armário
o prato que se arrumou sobre outro prato
a música incomparável do relógio antigo
escoando a vida pingo a pingo
o alarde das ondas
pintando curvas lodosas na amurada
o vai-vem da avenida
mesmo que a tarde esteja triste
e a cidade leve no rosto
a inexplicável imitação duma torrente
aqueles sons das coisas
que por serem exaltantes e frágeis
me disseram que eram tuas
por ti em ti e em nome da beleza
que em teu nome
certamente não é
a voz da assolação
do estrondo
do terror
e digo-o simplesmente
enquanto me debitam
as datas gloriosas
os festins das vitórias
o louvor dos heróis.
(in «Protesto e Canto de Atena»,
Editorial Diferença, 2001)
Irene Lucília Andrade
(Madeira, 1938)
*
Irene Lucília Andrade (n. Funchal, 1938), frequentou a antiga Academia
de Música e Belas Artes da Madeira. Em 1968 licenciou-se em Pintura pela
Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa. No entanto, a actividade
profissional que seguiu então foi a rádio - o Posto Emissor do Funchal
-, para a qual realizou vários programas e até teatro radiofónico. De
então para cá, dedicou-se essencialmente à pedagogia e a diversas áreas
culturais, tendo já uma valiosa bibliografia ao alcance do público.
Revelada em 1968 com "Hora Imóvel" (Prémio Nacional do SNI), está
incluída em várias antologias, integrou o movimento "Ilha", na Madeira,
e tem publicado nas áreas da poesia, do romance e da literatura
infanto-juvenil. Realce para os seus livros "A Mão que Amansa os Frutos"
(1991), "Estrada de um Dia Só" (com posfácio de João Rui de Sousa,
1995), "Protesto e Canto de Atena" e "Água de Mel e Manacá", ambos de
2002, no domínio da Poesia. «A Penteada ou o Fim do Caminho (Editorial
Diferença, 2004), é o seu último livro (em prosa).
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A PLUMA NO ÉDEN
Folha de
Ouro *
NINHO DA
ÁGUIA *
POLÉN DAS ILHAS *
INÉDITO JAG |
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WALT WHITMAN
«SOU O POETA DO CORPO»
Sou o poeta do Corpo e sou o poeta da Alma,
As aventuras do Céu estão em mim e as penas do Inferno estão em mim,
As primeiras enxerto e reforço em mim mesmo, as últimas traduzo para uma
nova língua.
Sou o poeta da mulher e do homem.
E digo que é tão grande ser mulher como ser homem.
E digo que não há nada maior que a mãe dos homens.
Canto o canto do crescimento ou do orgulho,
Já baixámos bastante a cabeça, já implorámos,
Provo que a medida é apenas desenvolvimento.
Já excedeste o resto? És o Presidente?
É uma ninharia, eles excederão isso e muito mais.
Eu sou o que caminha entre a crescente e terna noite,
Convoco a terra e o mar meio abraçado pela noite.
Aperta-me, noite, no teu peito nu - aperta-me, noite magnética e
abundante!
Noite silenciosa e sonolenta - louca e nua noite de Verão!
Sorri, oh voluptuosa terra fresca!
Terra das árvores adormecidas e cintilantes!
Terra do sol-posto - terra das montanhas cobertas de névoa!
Terra do fluir vítreo da lua cheia e azul!
Terra de luz e sombra derramadas sobre a maré do rio!
Terra de límpidas nuvens pálidas resplandecendo para mim!
Terra de braços arrebatados ao longe - rica terra de macieiras em flor!
Sorri, que aí vem o teu amante.
Pródiga, deste-me amor - e assim te dou amor!
Oh, indizível e apaixonado amor.
Tradução
JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA
Walt Whitman
(1819-1892)
(in «Canto de Mim Mesmo»,
Assírio & Alvim, 1999)
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Walt Whitman (1819-1892) é o mais importante poeta norte-americano, e um
dos principais poetas da modernidade. É autor de um único volume de
poesia intitulado Leaves of Grass, cuja primeira versão foi publicada em
1855 e aumentada ao longo dos anos e ao ritmo de cada nova edição. A
última edição, conhecida como “death-bed edition”, trazia a data de
1891-1892 e foi organizada pelos executores literários de Whitman quando
este já se encontrava muito doente. Na Assírio & Alvim, depois da edição
fragmentada promovida por diferentes editoras em Portugal, saiu,
entretanto, depois de «Canto de Mim Mesmo», o volume «As Folhas de
Erva", numa tradução do poeta madeirense, José Agostinho Baptista.
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INÉDITO JAG
Folha de
Ouro *
NINHO DA
ÁGUIA *
POLÉN DAS ILHAS *
A PLUMA NO ÉDEN
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A DOR
A Dor, a verdadeira Dor, tem uma singular personalidade. A Dor
é o esgar que chega, aparentemente sem notícia, sem natureza,
mas que impõe a sua presença, firme, resoluta, mortificante,
com inteligência própria, movimentando-se por entre as trincheiras que
cava,
para a seguir travar todas as batalhas em que tudo lhe pertence, em
especial a escolha das armas.
Acampada a Dor, nada lhe resiste. Nunca baixa os braços. Sabe de cor
dos disfarces dos seus oponentes. Procede com soberba, altivez e
despreza
o espírito comum, a vítima infeliz, o sofredor instante,
o habitante da gruta que abre à força da picareta, a chaga onde crava
as suas agonias, penetrando no mais recôndito dos seres, nas fraquezas
dos corpos e dos karmas.
A Dor, viajada, conhecedora das angústias, do desiderato
de purificação, desses lugares onde só os ímpios descobriram o sentir,
entra por dentro dos elos, dos amplexos, dos frágeis alvos
e aponta para o centro, onde exulta o princípio natural da vida,
como se nessa nebulosa se concentrasse uma missão secreta, devastadora.
É, pois, a Dor, general e soldado, a cumprir um plano exacto,
no avançar, pela angústia, contra as resistências, surda ao fremir
do estertor em zonas brancas, inocentes, deslumbradas; salvos
serão, assim, apenas os que suportam o seu martírio, consumida
a ferida que aos poucos adormece, em estado puro, assumindo-se como
duradoura.
A Dor, emparedada e munida de eficaz e vasto arsenal
não desconhece como, até ao encerrar da acção, é invencível;
aliada dos torturadores e da vileza, da doença e dos monstruosos rostos
do mal,
apenas teme o alívio, a percepção de que, sobre ela, avassaladora,
possa haver um espírito empreendedor, na crença de que vencê-la é
possível.
José António Gonçalves
(inédito.10.01.05)
JAG
http://members.netmadeira.com/jagoncalves/
Consulta aos CALENDÁRIOS - 2004:
http://escritas.paginas.sapo.pt//indice.html
http://members.netmadeira.com/jagoncalves/calendario.htm
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Folha de Ouro
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NINHO DA ÁGUIA *
POLÉN DAS ILHAS
* A PLUMA NO ÉDEN
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Selecção e
Montagem: JAG |