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A
ARTE DE DELFOS |
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Edição/Direcção: José António Gonçalves + "A Poesia dos Calendários" II
Fase + MADEIRA/2005 |
04 |
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Folha de
Ouro *
NINHO DA
ÁGUIA *
POLÉN DAS ILHAS *
A PLUMA NO ÉDEN
* INÉDITO JAG |
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FOLHA DE OURO
NINHO DA
ÁGUIA *
POLÉN DAS ILHAS *
A PLUMA NO ÉDEN
* INÉDITO JAG
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EURÍPEDES
TRECHO DE "BELEROFONTE"
Quem disse alguma vez que há deuses lá nos céus?
Não há, não há, não há. Não deixem que ninguém,
mesmo crente sincero nessas velhas fábulas,
com elas vos engane e vos iluda ainda.
Olhai o que acontece, e dai a quanto digo
a fé que isto merece: eu afirmo que os reis
matam, roubam, saqueiam à traição cidades,
e, assim fazendo, vivem muito mais felizes
que quantos dia a dia pios são e justos.
Quantas nações pequenas, bem fiéis aos deuses,
sujeitas são dos ímpios com poder e força,
vencidas por exércitos que as escravizam.
E vós, se em vez de trabalhar rezais aos deuses,
e deixais de lutar para ganhar a vida,
aprendereis que os deuses não existem. Que
todas as divindades significam só
a sorte, boa ou má, que temos neste mundo.
Eurípedes
(Grécia, Ática, 480-405 a. C.)
Tradução
JORGE DE SENA
(in «Poesia de 26 Séculos»,
Antologias Universais,
Edições ASA, 2002)
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Eurípedes nasceu em Salamina, Grécia, em 480 a. C., no mesmo dia da
célebre batalha naval das guerras pérsicas, tendo morrido exilado,
suspeito de "ateísmo", em Tessália, em 405 a. C., não sem antes ter
deixado cerca de noventa peças de dramaturgia (dezoito tragédias e um
drama satírico foram recuperados) para a posteridade. Com Ésquilo e
Sófocles completou a tríade que fundou e aperfeiçoou a tragédia ática.
Apesar da sua condição modesta, integrou a elite intelectual da época,
tendo sido amigo de alguns filósofos, com realce para Sócrates e
Anaxágoras, tendo-se estreado literariamente aos vinte e cinco anos de
idade. Hoje é considerado como um dos maiores nomes - como o recorda
Jorge de Sena, seu tradutor - da literatura grega e do teatro universal.
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NINHO DA ÁGUIA
Folha de
Ouro *
POLÉN DAS ILHAS *
A PLUMA NO ÉDEN
* INÉDITO JAG |
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NINHO DA ÁGUIA
JORGE SOUSA BRAGA
INCUBADORA
Era tão pequena a mão que
Nem o seu dedo mendinho
Conseguia agarrar. Pesava
Quinhentos gramas e respirava
Sem ajuda do ventilador
O coração da sua mãe quase
Que não batia com receio de
Que ele sufocasse sob o peso
Do seu amor
ADOLESCENTE
Viera acompanhada pela mãe
Teria quinze ou dezasseis anos
Já não me lembro do motivo
Da consulta apenas da
Perturbação que me causaram
Os seus olhos cor de violeta
POSIÇÕES
O tigre trepando a montanha
Colhendo lótus lótus em botão
A rapariga de jade tocando flauta
Duas andorinhas um só coração
Como peixes expondo as guelras
Como peixes friccionando as escamas
Como peixes olhando-se nos olhos
Se entrelaçam os bichos da seda
Duas borboletas em salto mortal
Procurando o bambu fragrante
Brinca na água um casal de patos
Disparando flechas enquanto galopa
Um homem nu uma mulher nua
A conjunção do sol e da lua
(in «A Ferida Aberta»,
Assírio & Alvim, 2001)
Jorge Sousa Braga
(1957)
*
Jorge Sousa Braga nasceu em 1957, em Vila Verde, e é médico no Porto. Os
seus cinco primeiros livros de poesia, lançados nos anos oitenta,
encontram-se reunidos em O Poeta Nu (1991). A nota irónica e um profundo
sentimento de ternura perante o mundo constituem duas marcas que podemos
encontrar na sua escrita. Traduziu para português poemas de Jorge Luís
Borges, Matsuo Bashô, Li Po e Appolinaire. Organizou também a antologia
O Vinho e as Rosas (1995). Mais recentemente, publicou os livros de
poemas: Fogo sobre Fogo (1998), Herbário (1999) e A Ferida Aberta
(2001).
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POLÉN DAS ILHAS
Folha de
Ouro *
NINHO DA
ÁGUIA *
A PLUMA NO ÉDEN
* INÉDITO JAG
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CARLOS FARIA
CANÇÃO PARA BRIANDA
Já sei, irmã: está cego o
inimigo à vista!
Já sei, irmã: temos de mobilizar
o coração e os toiros!
Já sei, irmã: o povo respira
alto o vento da Pátria!
Já sei, irmã: Agora somos todos!
......................................................
As urzes secas vão ajudar-nos
com as suas facas de pau
e o vento levará da baía os
escaleres e Filipe há-de saber
que os seus marinheiros morreram
de espanto!
Da Praia a Angra todo o heroísmo
da vitória brilhará na língua do povo.
Esta canção para Brianda Pereira
cai flor e areia, voa sobre a
baía, acorda os cantores e salta
esperança entre criptoméria e praia.
Vai morrer louco o capitão espanhol
que comanda a Armada. Anda
triste o marinheiro espanhol que se
apaixonou impassível no cabo da Praia. Os
primeiros grilos do outono estão com
os portugueses no canto e nas asas
e Brianda passeia rapariga com a
Pátria ao colo!
A Pátria é uma cantiga de ninar,
Brianda,
o povo a flor feita bandeira
de punhos,
Canção para Brianda!
(in «Policopiaos Aresta», 1,
Ponta Delgada, Açores, 1980)
Carlos Faria
(Ribatejo, 1929)
*
Carlos Faria, o mais apaixonado dos poetas, da segunda metade do século
XX, pelas ilhas dos Açores (em particular S. Jorge), paradoxalmente é
natural do Continente. Nasceu na Golegã, Ribatejo, em 1929. Co-fundou no
Arquipélago páginas literárias, algumas delas tornaram-se célebres como
«Glacial» («A União») e «Basalto» («Correio dos Açores»), tendo feito e
reforçado amizades com os literatos insulares, so quais acompanhou
durante décadas nas suas aventuras literárias. Era delegado de
propaganda médica encartado, mas o seu bilhete de identidade é a Poesia.
Publicou, entre outros, «Distância Azul» (1957), «Marinheiro Bêbado»
(1959), «Rosto e Diálogo» (1966), «S. Jorge (Ciclo da Esmeralda
Perdida)» (1979; 2ª. ed. 1992). Falta aos Açores prestar-lhe pública
homenagem, em vida. É um escritor açoriano, mais dedicado à Região e
orgulhoso dela do que muitos dos seus naturais.
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A PLUMA NO ÉDEN
Folha de
Ouro *
NINHO DA
ÁGUIA *
POLÉN DAS ILHAS *
INÉDITO JAG |
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DYLAN THOMAS
NÃO ENTRES DOCILMENTE NESSA NOITE SERENA
Não entres docilmente nessa noite serena,
porque a velhice deveria arder e delirar no termo do dia;
odeia, odeia a luz que começa a morrer.
No fim, ainda que os sábios aceitem as trevas,
porque se esgotou o raio nas suas palavras, eles
não entram docilmente nessa noite serena.
Homens bons que clamaram, ao passar a última onda, como podia
o brilho das suas frágeis acções ter dançado na baía verde,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.
E os loucos que colheram e cantaram o voo do sol
e aprenderam, muito tarde, como o feriram no seu caminho,
não entram docilmente nessa noite serena.
Junto da morte, homens graves que vedes com um olhar que cega
quanto os olhos cegos fulgiriam como meteoros e seriam alegres,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.
E de longe, meu pai, peço-te que nessa altura sombria
venhas beijar ou amaldiçoar-me com as tuas cruéis lágrimas.
Não entre docilmente nessa noite serena.
Odeia, odeia a luz que começa a morrer.
Tradução
FERNANDO GUIMARÃES
Dylan Thomas
(1914-1953)
(in «A Mão ao Assinar este Papel",
Assírio & Alvim, 1998)
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Dylan Thomas (1914-1953). Um dos mais importantes poetas universais do
século XX, natural do País de Gales, foi um incompreendido em vida
(faleceu aos trinta e nove anos), mas a qualidade soberba da sua Obra
salvou-o para a História da Literatura. Hoje é estudado em
Universidades, cantado por vozes de diferentes continentes e até o
famoso Bob Dylan usou o seu sobrenome como pseudónimo artístico. Saído
de uma escola literária que teve autores como T. S. Eliot, Edith Sitwell,
W. H. Auden ou Stephen Spender, não deixou, infelizmente, uma obra vasta
à Humanidade. Mas a sua poesia, intensa, contemporânea, plena de
vivência dos sentidos, toca a sensibilidade de gerações e está viva, em
muitas línguas do globo, incluindo a portuguesa. «Deaths and Entrances"
(1946) é um dos seus livros mais conhecidos, a par com os seus «Collected
Poems» (1934-1952). É um ícones culturais do século passado.
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INÉDITO JAG
Folha de
Ouro *
NINHO DA
ÁGUIA *
POLÉN DAS ILHAS *
A PLUMA NO ÉDEN
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OS DIURNOS
A noite encanta os diurnos, não os noctívagos.
Os seus olhos piscam como as luzes traseiras
dos automóveis, acendem cigarros e entram em bares,
fazem sinais às mulheres, endireitam-se aos espelhos,
embebedam-se, perdem-se no tempo, cantam à lua,
aprendem a ouvir jazz e blues, mas a sua casa é o dia.
Os noctívagos não vivem a noite. Temem-na. Usam-na
para passarem depressa pela vida. Querem esquecê-la,
olvidados já de amá-la, de compreendê-la. As sombras
perseguem-nos por todas as esquinas e assustam-se, sem
razão aparente, com os ruídos da rua, fechados no calor
dos estabelecimentos que lhes vão abrindo a porta.
Desculpam-se, nas manhãs seguintes, com a busca
sempre repetida, incessante, dolorosa, do amor.
E depois regressam à cama. Isso que lhes importa?
Na madrugada desvanecida, com as mesmas canções
nos lábios, vão sair e voltar ao mesmo quarto, acendendo
o mesmo cigarro, com o desejo de libertarem, de vez, o lume,
o corpo, o coração, o desejo, o cheiro da lama. E sonham.
Exageradamente. Com a solidão. O medo. As mesmas visões
que os esperam, ao fim da tarde, nos lugares do costume.
José António Gonçalves
(inédito.13.01.05)
JAG
http://members.netmadeira.com/jagoncalves/
Consulta aos CALENDÁRIOS - 2004:
http://escritas.paginas.sapo.pt//indice.html
http://members.netmadeira.com/jagoncalves/calendario.htm
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Folha de Ouro
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NINHO DA ÁGUIA *
POLÉN DAS ILHAS
* A PLUMA NO ÉDEN
* INÉDITO JAG
Selecção e
Montagem: JAG |