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A
ARTE DE DELFOS |
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Edição/Direcção: José António Gonçalves + "A Poesia dos Calendários" II
Fase + MADEIRA/2005 |
05 |
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Folha de
Ouro *
NINHO DA
ÁGUIA *
POLÉN DAS ILHAS *
A PLUMA NO ÉDEN
* INÉDITO JAG |
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FOLHA DE OURO
NINHO DA
ÁGUIA *
POLÉN DAS ILHAS *
A PLUMA NO ÉDEN
* INÉDITO JAG
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ANTÓNIO PATRÍCIO
EM HORNEBEK, NA DINAMARCA
Em Hornebek, na Dinamarca,
as folhas caem sobre o mar.
Vão em lufadas cair nas ondas,
caem nas barcas que vão pescar.
Há folhas secas por sobre as redes,
caem nas velas, todas doiradas...
São cor das barbas dos pescadores,
lá vão levadas, lá vão levadas...
Minha alma, doida de mar e Outono,
em Hornebek se foi deitar,
entre gaivotas e folhas secas,
a sonhar alto, para sonhar...
Tem nos cabelos algas e algas
que o vento brusco vem levantar...
Em Hornebek, n Dinamarca,
onde vão folhas por sobre o mar.
(in «Poesias», 1942)
António Patrício
(1878-1930)
(in «Poesia de 26 Séculos»,
Antologias Universais,
Edições ASA, 2002)
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António Patrício (1878-1930), diplomata de carreira, poeta e prosador
dotado de uma apuradíssima sensibilidade, distinguiu-se sobretudo no
teatro, sintetizando na sua obra traços do simbolismo-decadentismo e
influências saudosistas. Depois da breve peça O Fim (1909) e antes de D.
João e a Máscara (1924), Pedro o Cru representa um dos cumes da sua
escrita, abordando a mítica história de amor entre o rei D. Pedro I e D.
Inês de Castro. Escrita na China em 1913 e apresentada como um "Drama em
4 Actos", a peça decorre entre Coimbra e Alcobaça e acompanha a tragédia
dos dois célebres apaixonados, conseguindo criar, no rescaldo do
assassínio de Inês, um clima de assombro e de magia assente na força que
emana da personagem de D. Pedro, cujos dolorosos monólogos perante o
cadáver de Inês exprimem todo o sofrimento desse "rei-Saudade" – um
homem para quem o mais intenso amor acaba por encontrar o seu destino
absoluto na união com a morte. «Poesias» (1942) reune-se postumamente
algumas das suas obras poéticas, sempre impregnadas pelo mesmo princípio
que inspirou a sua lavra, baseado no modismo de então, o
simbolismo-decadentismo.
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NINHO DA ÁGUIA
Folha de
Ouro *
POLÉN DAS ILHAS *
A PLUMA NO ÉDEN
* INÉDITO JAG |
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VASCO GRAÇA MOURA
NÃO, O POEMA NÃO É O TRABALHO DO SONO
a)
não, o poema não é o trabalho do sono:
direi que o sono é o trabalho do poema.
astas verdades são elementares
e todavia às vezes esquecidas
talvez porque a noite incita ao devaneio
de boémia e memória e torna tudo surdo
até o oco onde
as palavras atravessam e ressoam
porque as palavras (des)carregam sobre a vida
e ribombam na travessia do deserto, nas
covas de areia onde nos encolhemos
para haver casas do nascer, para
as agressões contínuas
b)
não, o poema não é o trabalho do sono:
as palavras ribombam na travessia do deserto, nas
covas de areia onde nos encolhemos
para haver casas do nascer, para
as agressões contínuas.
direi que o sono é o trabalho do poema
e torna tudo surdo
até o oco onde
as palavras atravessam e ressoam.
eis a ameaça ao lusco-fusco.
a crítica dos actos deveria fazer-se
por alternativas práticas, não ululando
pelos paços reais, nem pelo perímetro retórico
do pacto com a morte: a arte
vive desta con(tra)dição severa.
(in «Instrumentos para a Melancolia»)
Vasco Graça Moura
(1942)
(De «Poesia», 1963-1995,
Prefácio de Fernando Pinto do Amaral,
Círculo de Leitores, 2001)
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Vasco Graça Moura nasceu no Porto em 1942. Formou-se em Direito pela
Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, em 1966. Com uma
carreira política iniciada em 1974, é eleito deputado ao Parlamento
Europeu, em 1999, vivendo, desde então, entre Lisboa e Bruxelas. É
colaborador de jornais, revistas e de canais de televisão. Tem muitas
das suas obras traduzidas para italiano, francês, alemão, sueco e
espanhol. Para lá da poesia e da prosa, é autor de numerosos ensaios,
alguns deles premiados, e de excelentes traduções literárias. Recebeu os
seguintes prémios: Prémio de Tradução Calouste Gulbenkian, da Academia
das Ciências de Lisboa, 1979; Prémio de Poesia Cidade do Porto da Câmara
Municipal do Porto, 1982; Prémio Rodrigues Sampaio, da Associação dos
Jornalistas e Homens de Letras do Porto, 1985; Prémio Município de
Lisboa e Prémio Jacinto do Prado Coelho, da Associação Internacional dos
Críticos Literários, 1986; Prémio Município de Lisboa, 1988; Prémio de
Poesia do P.E.N. Club, 1994; Prémio Pessoa, 1995; Grande Prémio de
Tradução do P.E.N. Club, 1996; Prémio Eça de Queirós da Câmara Municipal
de Lisboa e Medalha de Honra do Concelho de Cascais, 1997; Medalha de
ouro da cidade de Florença, 1998; Grande Prémio de Poesia da APE, 1999.
Já em 2004 ganha a Coroa de Ouro do Festival de Poesia de Struga
(Macedónia), sendo o primeiro poeta português a ser distinguido com este
galardão.
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POLÉN DAS ILHAS
Folha de
Ouro *
NINHO DA
ÁGUIA *
A PLUMA NO ÉDEN
* INÉDITO JAG
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JOSÉ VIALE MOUTINHO
EM CASA
ah sempre dizemos as amargas palavras
que se colam na paredes dos quartos,
no ecrã do televisor, nos livros velhos,
no que se esconde sob as mesas, na água:
são os temas da gravuras que acompanham
as paredes do lar até à rua pelo corredor,
escrito a lápis no coração e na lingual,
o óleo venenoso sobre as mãos amarradas,
aqui está outra garrafa de cerveja quente,
o pão duro de quanto construímos, o jornal
de sábado passado, apenas vinte dias de jazz,
alguns blues salvos do esquecimento na rádio,
dispomo-nos acres frente a frente no jogo
coberto de palavras fora do alcance do vento
e da lua cheia, com os seus enigmas e vozes
à varanda, sobre a viela, seus olhos sinistros,
(in «Retrato de Braços Cruzados»,
prefácio de João Rui de Sousa, 1989)
NOTA SOBRE O ESTIO DOS VELHOS
em silêncio, os velhos ocupam as poltronas
onde repousam os restos dos relógios:
é agosto ao fogo da asa, as suas chuvas?
o sol, às mãos da tarde, devagar, apodrece;
entram os poetas com as suas chaves:
é como se a morte hesitasse diante da água,
(in «Um Castelo na Areia?», 1993)
José Viale Moutinho
(Funchal, 1945)
(De «Sombra de Cavaleiro Andante»,
Antologia Poética 1975-2003;
Edições ASA, 2004)
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José Viale Moutinho nasceu no Funchal, em 1945.Foi jornalista do Diário
de Notícias. Jornalista e escritor, tem várias obras editadas, algumas
delas traduzidas nas mais diversas línguas, como o russo, búlgaro,
castelhano, alemão, italiano, catalão, asturiano e galego.
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A PLUMA NO ÉDEN
Folha de
Ouro *
NINHO DA
ÁGUIA *
POLÉN DAS ILHAS *
INÉDITO JAG |
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MAHMUD DARWICH
TAMBÉM NÓS AMAMOS A VIDA
Também nós amamos a vida quando podemos.
Dançamos entre dois mártires e no meio deles erguemos
um minarete de violetas ou uma palmeira.
Também nós amamos a vida quando podemos.
Ao bicho-da-seda roubamos um fio para tecer o nosso céu
e estancar este êxodo.
Abrimos a porta do jardim para que o jasmim saia para a
rua como um dia bonito.
Também nós amamos a vida quando podemos.
Na morada que escolhemos, cultivamos plantas vivazes e
recolhemos os mortos.
Sopramos na flauta a cor da distância,
desenhamos um relincho no pó do caminho.
E escrevemos os nossos nomes, pedra a pedra. Tu, ó raio,
ilumina a nossa noite, ilumina-a um pouco.
Também nós amamos a vida quando podemos.
Tradução
ALBANO MARTINS
Mahmud Darwich
(1942)
(in «O Jardim Adormecido
e outros poemas»,
Selecção e tradução
de Albano Martins,
Campo das Letras, 2002)
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Mahmud Darwich nasceu em 1942 em Birwa, na Galileia, a poucos
quilómetros de São João d'Acre. Em 1948, as tropas israelitas obrigam-no
a partir com a família para o exílio, do qual regressa clandestinamente,
um ano depois.Cinco vezes preso, entre 1961 e 1967, refugia-se, em 1970,
no Cairo e, em 1972, em Beirute, no Líbano, que abandona, entretanto, em
1982, aquando da invasão do país pelas forças judaicas. A sua vida
reparte-se, actualmente, entre Amã, na Jordânia, e Ramallah, na
Palestina. Considerado um dos mais importantes poetas árabes
contemporâneos, Mahmud Darwich é autor duma extensa e complexa obra,
atravessada ora por um tom revolucionário e patriótico, ora por um sopro
épico e lírico. É também autor de diversas obras em prosa, onde estão
reunidos os numerosos artigos publicados na imprensa, designadamente na
revista literária al-Karmil, que fundou em Beirute e continua a dirigir
a partir de Ramallah.
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INÉDITO JAG
Folha de
Ouro *
NINHO DA
ÁGUIA *
POLÉN DAS ILHAS *
A PLUMA NO ÉDEN
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O ROSTO DO HOMEM
O rosto do homem que amanhã me irá
perguntar por um espelho, um horizonte,
será o meu rosto, marcado pelas cicatrizes
das dúvidas, dos sofrimentos do mundo,
da pesquisa de uma estrada ali tão perto,
onde tudo se possa repetir indefinidamente,
como habitantes de um labirinto eterno.
Não passará do umbral, ficará por certo
entre as flores mais antigas, de matizes
obsoletas, sedentas, aguardando a fonte
onde saciará a sua sede, num mar profundo,
localizado no coração de um pulsar dormente,
motor de uma vã revolução, sem vitória, má
sina de um tempo invasor, de inimigo interno.
E é para ele que subimos, crentes, a montanha,
apostados e devotos no que possa lá estar,
abençoado pelas maravilhas das velhas águas,
bordão de subidas ainda maiores e mais seguras.
Ficamos então sentados, prisioneiros das loucuras
inenarráveis, protegidos por uma força estranha
com a capa ensanguentada por todas as mágoas.
Até que alguém nos venha buscar.
José António Gonçalves
(inédito.15.01.05)
JAG
http://members.netmadeira.com/jagoncalves/
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Folha de Ouro
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NINHO DA ÁGUIA *
POLÉN DAS ILHAS
* A PLUMA NO ÉDEN
* INÉDITO JAG
Selecção e
Montagem: JAG |