A ARTE DE DELFOS

 

 

Edição/Direcção: José António Gonçalves + "A Poesia dos Calendários" II Fase + MADEIRA/2005

06

 

Folha de Ouro    *    NINHO DA ÁGUIA  *   POLÉN DAS ILHAS  *   A PLUMA NO ÉDEN  *   INÉDITO JAG



FOLHA DE OURO 

NINHO DA ÁGUIA  *   POLÉN DAS ILHAS  *   A PLUMA NO ÉDEN  *   INÉDITO JAG
 



 


A ARTE DE DELFOS nº. 006
Edição/Direcção: José António Gonçalves * "A Poesia dos Calendários" II Fase+MADEIRA/2005

* - * - *

Folha de Ouro


FU SIUAN



Antes tu e eu éramos
um só, como o corpo e a sua sombra;
agora somos tu e eu
como a nuvem que foge após um aguaceiro.


Antes tu e eu éramos
como o som e o seu eco, acordes entre si;
agora somos tu e eu
como as folhas mortas caídas dos ramos.


Antes tu e eu éramos
como o ouro ou a pedra, sem mancha nem fissura;
agora somos tu e eu
como uma estrela extinta ou um esplendor passado.


TRADUÇÃO
PEDRO DA SILVEIRA



Fu Siuan


(Século III)


(in «Mesa de Amigos»,
versões de poesia de
Pedro da Silveira,
Col. Gaivota/46, Drac-Açores,
S. Miguel, 1986)





 



NINHO DA ÁGUIA

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Faleceu há 10 anos
MIGUEL TORGA



ESPERANÇA


O poema quer nascer das trevas.
Está nas palavras, e não as sei.
É como um filho que não tem caminho
No ventre da mãe.
Dói,
Dói,
Mas a negar-me teimosamente
A todos os acenos libertadores
Do desespero dilacerado.
No silêncio cansado
E paciente
Canta um galo vidente.
E diz que cada dia
Que anuncia
É sempre um dia novo
De renovo
E poesia.

Coimbra, 31 de Dezembro de 1989.



O POETA


Triste, lá vai à ronda dos segredos
O maluco que rouba quanto vê.
Branco, do coração aos dedos,
É todo antenas onde apenas lê.


Murcha-lhe nos pés o rosmaninho
E a própria rosa, de o sentir, descora:
Mas é um Deus que passeia o seu caminho
A beber a amargura de quem chora.


Magro, lá passa, e lá se vai consigo
A luz das coisas e a flor de tudo.
É um bruxo lento, tenebroso e antigo,
Pálido, sério, solitário e mudo.

Coimbra, 5 de Março de 1943.


BREVE ADEUS


É um adeus que te digo num poema,
Continente solar,
Grande e fremente coração da terra!
É um adeus de poeta atribulado,
Que dos longes da História
E na carne dos seus
Veio ver a negrura
De um pesadelo.
É um adeus que, ao dizê-lo,
Se coalham nos olhos marejados,
E dói tanto
Que não pode ter versos demorados,
Que não pode durar além do pranto.

A voar para Lisboa, 12 de Janeiro de 1973.



Miguel Torga

(1907-1995)

(in «Poesia Completa»,
Publicações Dom Quixote,
Maio, 2000)

*
Miguel Torga nasceu em S. Martinho de Anta (no norte de Portugal, em 1907 e faleceu no dia 17 de Janeiro de 1995). O seu verdadeiro nome é Adolfo Correia da Rocha. O pseudónimo literário tem uma forte simbologia (Miguel, nome ibérico, Torga é um arbusto da montanha portuguesa). Viveu cinco anos no Brasil. Quando regressou terminou os estudos liceais e formou-se em medicina, em Coimbra. Foi um dos poetas que colaborou com a revista « Presença ». Em 1930 rompeu com o grupo para seguir uma trajectória literária muito pessoal e única. Poeta, ficcionista, dramaturgo e ensaísta, é um dos grandes nomes da literatura portuguesa, várias vezes candidato ao prémio Nobel.





 


POLÉN DAS ILHAS

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EMANUEL JORGE BOTELHO



1.

que pássaro ficou
na boca circular que te trouxe
aos dedos sempre tenra?

sabem as árvores a idade do teu silvo quando és filha
do gesto, novamente? baixo os braços e vejo a terra
dar-se indefesa ao teu poiso


2.

a erva como um lábio
a querer-te líquida. que pássaro?


*


1.

o problema é saber habitar ainda o arco
do teu percurso quando atirada eras ponteiro de um não
tempo e havia por ti um espaço mexido e aéreo sempre
qualquer coisa de mapa

sem legenda ias rápida por entre as casas do vento esperavas
como a fruta um lugar
à mesa sempre, tu


2.

sempre oval e pronta
sempre mãe e seio


Emanuel Jorge Botelho


(S. Miguel, 1950)

(in «Poemas do Arremesso
ou o Elogio da Pedra»,
Ponta Delgada, Açores,
E. de A., 1982)

*
Emanuel Jorge Botelho é natural de Ponta Delgada, S. Miguel, Açores (1950). Está representado em várias colectâneas e antologias e publicado em revistas de poesia, entre as quais "Nuvens" (Quatro Elementos Editores, 1984), "Dimensão" (Brasil, 1990), "Ruínas" (Quatro Elementos Editores, 1990), "Revista Aires" (França, nº. 21, 1995), "Sião" (org. Al Berto, Paulo da Costa Domingos e Rui Baião, prólogo de Alexandre de Melo, 1987) e "Nove Rumores do Mar" (org. eduardo Bettencourt Pinto, prefácio de Vamberto de Freitas, Instituto Camões, 2000) e também na Revista África, Colóquio-Letras, "Espacio/Espaço Escrito (Badajoz, Espanha), "Dorna-Exprésion Poética Galega (Santiago de Compostela, Espanha), "Hífen" (Porto), "Bumerang" (Guimarães) e "Ler" (Círculo de Leitores). Algumas obras: "aMARgura" (1979); Full Auto Shut off & ETC (1981); Poemas do Arremesso ou O Elogio da Pedra (1982); O Brilho da Bota Nazi (com o madeirense António Aragão e Paulo da Costa Domingos, 1982); "Cesuras", 1982); "Sardas & ETC" (1984); "Boomerang" (com Paulo da Costa Domingos, 1985); "Asas e Penas" (1988); "Casos de Bolso" (1993); "Grisu" (com Luís Manuel Gaspar, 1993) e "Perguntas Queimadas" (Guimarães, 1996).
 

 


A PLUMA NO ÉDEN

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A PLUMA NO ÉDEN


HANS MAGNUS ENZENSBERGER


O OUTRO


alguém ri
está preocupado
expõe a minha cara com pele e cabelo debaixo do céu
faz rolar palavras da minha boca
alguém que tem dinheiro e medo e um passaporte
alguém que briga e ama
alguém se move
alguém estrebucha

mas não eu
eu sou o outro
que não ri
que não tem cara debaixo do céu
nem palavras na boca
que é desconhecido consigo e comigo
não eu: o outro: sempre o outro
que não vence nem é vencido
que não se preocupa
que não se move

o outro
que se é indiferente
de quem não sei
de quem ninguém sabe quem é
que não me comove
que sou eu


Tradução
ALMEIDA FARIA


Hans Magnus Enzensberguer

(1929)

(in «Poemas Políticos»,
Publicações Dom Quixote,
1975)

*
Hans Magnus Enzensberger, Prémio Nobel da Literatura, é natural
da Baviera (1929), tendo escolhido Berlim-Oeste (antes da queda
do Muro) como sítio para viver, depois de ter viajado pela França,
México, estados Unidos da América, Noruega, Itália e pela URSS,
entre outros países, que incluem alguns do Oriente, da América
Latina e até Cuba, na América Central, tendo denunciado o regime
de Fidel de Castro, a quem escreveu e condenou a existência na
ilha de presos políticos, o que obrigou o seu tradutor para castelhano,
Heberto Padilha, a fazer publicamente uma auto-crítica. É autor
de obras em géneros diversos, desde histórias para crianças, poesia,
filosofia e ensaios (muitos deles de incidência política). Portugal
é um dos sítios europeus que gostou de visitar, apesar de ter feito
pública condenação do Estado Novo num artigo «O Triângulo
Bonn-Lisboa-Johanesburg - Um Exemplo de Exploração Neo-
-Colonial».

 


INÉDITO JAG

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PAISAGEM


O vale é hoje uma folha de papel
onde se pode ler todos os poemas
escritos com a erva e as pedras negras
com que pintavas os teus olhos verdes

À distância meço cada verso branco
com que cantei as tuas mãos o teu corpo
e deixei-me ir como a poesia de Camões
por entre monstros tempestades e céu azul

Por debaixo das árvores escuto o riacho
a ramagem das árvores onde perfumadas
magicámos tardes de amor e de adágios
soprados pelo vento na voz de Albinoni

Às vezes passo por lá nos acordes matinais
com que me ofereces ao longe a primavera
ainda cheirando ao fresco do cantar das igrejas
onde esperaremos pelo frio dos velhos invernos

E depois ficaremos deitados
mordiscando maçãs uvas cerejas
e contando todos beijos soltos ao vento.
Para sempre eternos.


José António Gonçalves

(inédito.17.01.05)

JAG
http://members.netmadeira.com/jagoncalves/


 

 

 

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Selecção e Montagem: JAG