A ARTE DE DELFOS

 

 

Edição/Direcção: José António Gonçalves + "A Poesia dos Calendários" II Fase + MADEIRA/2005

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Folha de Ouro    *    NINHO DA ÁGUIA  *   POLÉN DAS ILHAS  *   A PLUMA NO ÉDEN  *   INÉDITO JAG



FOLHA DE OURO 

NINHO DA ÁGUIA  *   POLÉN DAS ILHAS  *   A PLUMA NO ÉDEN  *   INÉDITO JAG
 




SEBASTIÃO ALBA



(NINGUÉM MEU AMOR)


Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Poem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos.



(NÃO SOU ANTERIOR À ESCOLHA)


Não sou anterior à escolha
ou nexo do ofício
Nada em mim começou por um acorde


Escrevo com saliva
e a fuligem da noite
no meio de mobília
inarredável

atento à efusão
da névoa na sala.



(HÁ POETAS COM MUSA. MUITOS.)


Há poetas com musa. Muitos.
Eu, neste jardim do Éden,
a cargo do município,
onde um velho destece a sua vida
e, baixando o olhar,
ainda lhe afaga a trama,
quando a poesia se afoita,
amuo
na agrura de, ao acordar, tê-la sonhado.

(inédito)



SEBASTIÃO ALBA


(1940-2000)


(in «Uma Pedra ao Lado da Evidência»,
Antologia Poética; selecção, apresentação
e notas de Vergílio Alberto Vieira,
campo das letras, 2000)

*

Sebastião Alba legou a sua biografia, pelo seu punho, à posteridade: «Chamo-me Dinis Albano Carneiro Gonçalves, nasci em Braga, a 11 de Março de 1940. Cheguei a Moçambique há 30 anos. Alba era uma canção provençal. Culminava com a despedida dos dois amantes, ao amanhecer. Um dos primeiros poemas que escrevi tinha o titulo “Eu, a canção”. Escrevo com terrível dificuldade: reescrevo, colo, interpolo, publico um poema como quem o espelha. Armo a oficina em qualquer parte, sem tabuleta que o indique. Ninguém sabe, mas ali sua-se». Porém, regressando a Portugal e descontente com a vida, resolve sobreviver como um indigente, continuando porém a escrever, entregando ao poeta Vergílio Alberto Vieira os seus poemas e bilhetinhos. Os filhos eram o seu enlevo, vendo-os à distância de vez em quando. Recebia uma pensão do Estado, concedida depois da intercessão de alguns amigos escritores. Um rádio (onde ouvia música clássica na Antena 2), uma harmónica e um carinho especial pela família de Vergílio, a quem fazia serenatas nas noites bracarenses, representavam a outra parte das suas opções mais queridas. Escolheu o pequeno adro de uma capela como abrigo, expondo-se à fome, ao frio das noites, aos invernos e aos sacrifícios dos abandonados da sorte. Assim foi apanhado pela sua sina. Na manhã 14 de Outubro de 2000, ao atravessar uma rua acabou por ser atropelado mortalmente por um condutor que se pôs em fuga, em Braga. Contudo, por ironia do destino, a 7 de Outubro, num bilhete dirigido a Vergílio Alberto Vieira confessava que «Se um dia encontrarem morto "o teu irmão Dinis", o espólio será fácil de verificar: dois sapatos, a roupa do corpo e alguns papéis que a polícia não entenderá.» A antologia Uma Pedra Ao Lado Da Evidência, organizada por Vergílio, cujas provas chegaram a ser revistas por ele,chegou aos escaparates em 2000, mas já a título póstumo. Obras: Poesias, Quelimane, Edição do Autor, 1965; O Ritmo do Presságio, Maputo, Livraria Académica, 1974; O Ritmo do Presságio, Lisboa, Edições 70, 1981; A Noite Dividida, Lisboa, Edições 70, 1982; A Noite Dividida (O Ritmo do Presságio / A Noite Dividida / O Limite Diáfano), Lisboa, Assírio e Alvim, 1996; Uma Pedra Ao Lado Da Evidência (Antologia: O Ritmo do Presságio / A Noite Dividida / O Limite Diáfano + inédito), Porto, Campo das Letras, 2000.


 



NINHO DA ÁGUIA

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WILLIAM BLAKE




VISÕES DAS FILHAS DE ALBION



"Diz-me o que á a noite ou o que é o dia para alguém sufocado pela dor?
"Diz-me o que é um pensamento, e de que substância é ele feito?
"Diz-me o que é uma alegria, e em que jardim nascem as alegrias?
"E em que rio nadam sofrimentos? e em que montanhas
"Balouçam sombras de descontentamento? e em que casas habitam os miseráveis
"Bêbados da dor esquecida, enclausurados de frio desespero?


"Diz-me onde vivem os pensamentos esquecidos até que se possam chamar de novo à vida?
"Diz-me onde vivem as alegrias de antanho? e os amores passados,
"E quando se renovarão, & quando passará a noite do esquecimento,
"Para que eu possa atravessar tão remotos tempos e espaços, e trazer
"Conforto a um presente sofrimento e a uma noite de dor?
"Para onde vais, ó pensamento? para que terra remota voas tu?
"Se voltares no momento da aflição presente
"Será que nas tuas asas vem algum conforto, os orvalhos, o mel e o bálsamo,
"Ou trarás tu o veneno das vastidões desertas, arrancado aos olhos da inveja?"



AMÉRICA, UMA PROFECIA


Que brincam ao redor dos telhados dourados em grinaldas de amplo desejo,
Deixando as mulheres nuas e resplandecentes com os prazeres da juventude.
Pois que os espíritos femininos dos mortos, atormentados pelas grilhetas da religião,
Libertam-se das cadeias corando, & sentando-se em amplos círculos,
Sentem os nervos da juventude rejuvenescer-se, e os desejos de tempos antigos
Espraiar-se por seus pálidos membros, qual vinhedo ao despontar a tenra uva.



EUROPA, UMA PROFECIA


Enitharmon riu-se durante o sono ao ver (Oh triunfo de mulher!)
As casas feitas cavernas, os homens agrilhoados: as sombras encherem-se
De espectros, e as janelas de rendilhados com anátemas de ferro:
Por sobre as portas está escrito "Não farás" & nas chaminés "Medo":
Com grilhetas de ferro à roda do pescoço, pregadas às paredes,
Os cidadãos com cadeias de chumbo os habitantes dos subúrbios
Caminham pesadamente; os das aldeias têm os ossos moles e torcidos.



Tradução
Hélio Osvaldo Alves



William Blake

(1757-1827)


(in «A Águia e A Toupeira»,
Introdução, Selecção, Tradução
e Notas de Hélio Osvaldo Alves;
Pedra Formosa, Edições, 1996)

*

William Blake, poeta e pintor inglês nascido em Londres, em 1757, ali faleceu em 1827. Representante do pré-romantismo inglês, a sua escrita, de carácter visionário, baseia-se principalmente no misticismo e no simbolismo, sendo que a temática da auto-destruição do homem, e a sua consequente redenção, é uma constante em toda a sua obra. As suas principais obras são Canções de Inocência, de 1789, e Canções de Experiência, de 1794. Em edição portuguesa, saliência para «A Águia e A Toupeira», org. de Hélio Osvaldo Alves (Pedra Formosa, 1996).


 

 


POLÉN DAS ILHAS

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ADELAIDE BAPTISTA



(TERRA, VITALIDADE, FUNDO)



Terra, vitalidade, fundo sem fundo;
lava acamada na espreita da explosão
Onda que rebenta na barriga do peixe;
fogo que arde no coração da pedra


Um pássaro assim se liberta
num afago a cultivar
Sacode a barbatana molhada
aninha-se nas origens do mar


De lá colhe a alma das algas
com elas hasteia a bandeira
O vermelho rubro nele se espalha
uterina é a sua peia


Dentro de meses mais penas surgem
canta a Natureza a sua vitória
Crescei e multiplicai-vos é o seu hino
vibração e espasmo a sua glória


Adelaide Baptista


(Açores, 1949)


(in «Ilhas Atlânticas - Antologia
Contemporânea de Poetas de Língua Portuguesa»
- Madeira, Açores, Cabo Verde; inédito,
org. José António Gonçalves)


*

Adelaide Baptista de Freitas nasceu no Nordeste, S. Miguel, Açores, em 1949. Licenciada pela University of Massachusetts, em North Darmouth, Estados Unidos da América, concluiu o seu Mestrado e Doutoramento na City University of New York. É docente na Universidade dos Açores, cujo Departamento de Línguas e Literaturas Modernas (1988/93) chefiou, tendo sido ainda responsável pela Secção de Estudos Anglo-Americanos. Mantém actividade política em terras açorianas, tanto como vereadora municipal (da Cultura), como presidente do Instituto de Acção Social (1991/96), chegando a representar a sua Região Autónoma no Conselho Nacional de Educação. A sua Obra estende-se do ensaio, à narrativa e à poesia, com realce para «João de Melo e a Literatura Açoriana», (Dom Quixote, 1993), «Viagem ao Centro do Mundo» (Fragmentos, 1994) e «No Princípio Era a Ilha - Nordeste» (texto poético, Éter, 1995).
 


A PLUMA NO ÉDEN

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ROBERT HAYDEN



FREDERICK DOUGLASS



Quando for finalmente nossa, esta libertação, esta liberdade, esta bela
e terrível coisa, necessária ao homem como o ar,
utilizável como a terra; quando ela pertencer finalmente aos nossos filhos,
quando for autenticamente instinto, matéria cerebral, diástole, sístole,
movimento reflexo; quando for finalmente ganha; quando for mais do que palavreado balofo de políticos:
este homem, este Douglass, este antigo escravo, este Negro
espancado até cair de joelhos, exilado, visionando um mundo
onde ninguém se sinta só, perseguido, proscrito,
este homem, soberbo em amor e lógica, este homem
será lembrado - oh, não com a retórica das estátuas,
não com dizeres e poemas e louros de bronze somente,
mas com as vidas nascidas da sua vida, as vidas
encarnando o seu sonho da coisa necessária e bela.



Tradução
Hélio Osvaldo Alves



Robert Hayden

(1913-1980)


(in «Também Eu Sou a América»,
Antologia de Escritores Negros Norte-Americanos,
Pedra Formosa, Edições, 1997)

*
Robert Earl Hayden nasceu em Detroit, Michigan, Estados Unidos da América (1913-1980), de pais pobres e sem instrução. Ao nascer deram-lhe o nome de Asa Bundy Sheffey, “Asa” do nome do seu pai e “Bundy” do nome de um médico da família que fez o seu parto. Após a separação e o divórcio dos seus pais, enquanto ainda criança, sua mãe o colocou aos cuidados dos amigos William e Sue Ellen Hayden, enquanto ela ia à procura de trabalho para a sua manutenção. Foi encontrado um emprego em Buffalo, Nova York, e ela mudou-se para lá, visitando ocasionalmente Robert e os Haydens. Em 1946 o poeta e a sua família mudaram-se para Nashville, Tennessee, onde ele ensinou na Universidade de Fisk por vinte e dois anos. Enquanto isto, continuava a escrever poesias, que era o seu primeiro amor. Não conseguia encontrar um editor, todavia, de vez em quando, seus poemas apareciam nos jornais, incluindo o Atlantic Monthly e a Poetry. Em 1962 foi publicado Ballad of Remembrance na Inglaterra. Em seguida, entre 1966 e 1978, os editores de Nova York e outros mais apresentaram Selected Poems, Words in the Mourning Time, Angle of Ascent, Night-Blooming Cereus e American Journal. Estas realizações levaram a outros reconhecimentos: recebimento do Grande Prémio de Poesia do I Festival Mundial de Artes, em Dakar, Senegal, ocorrido em 1975; o Prémio Russell Loines de Artes para Poesia, em 1970, Prémio do Instituto Nacional de Artes e Letras; em 1975 foi eleito para a Academia Americana dos Poetas, membro da Academia Americana e Instituto de Artes e Letras e designado – de 1976-1978 - para o posto de Consultor em Poesia da Biblioteca do Congresso Americano (Washington D.C.) – constituiram algumas poucas das muitas honrarias que recebeu. De 1968 até sua morte foi um editor associado ao World Order, uma revista periódica Bahá’í, publicada sob o patrocínio da Assembleia Espiritual Nacional dos Estados Unidos. Constantes foram os seus esforços para elevar o padrão da poesia usada nesta publicação. World Order falava de perto ao seu coração e ele acreditava que o seu trabalho aqui era um real serviço que podia prestar à sua Fé.
 

 


INÉDITO JAG

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O HOMEM LIVRE



É um relampejo de vida, obscuro
como as paredes dos quartéis e das prisões;
e é alameda que se adianta célere e labiríntica
debaixo dos meus pés de homem livre.


Os caminhos são controversos
e não conduzem a nenhum lugar; ausentes
as ambições pesam sobre os ombros
e silenciam a vontade, surda, de derrotar o mar.


Nas costas vergastadas, semeados crescem
os apelos do verde, os espinhos de lâminas
afiadas, esperando nas encruzilhadas; os muros
são invisíveis aos olhos comuns, mas doloridos no coração.


As gaivotas, em festa de cagarras e milhafres,
são os mastros das debandadas matinais; lá vão
atrás dos barcos, com o papo cheio de peixe morto
e de vento, sob o comando insólito da linha do horizonte.


São garças e partem, no seu voo em contra-luz;
parecem sós e rasam as escarpas, as ondas encapeladas
do oceano e a areia preta da praia. Só, por aqui, eu fico,
prisioneiro da minha cruz: sou um homem livre
e não sei exactamente o que fazer com isso.


Por imperativo
de consciência, sorvo a tarde.
Sei que na ilha vivo. Vivendo-a.
E, bebendo-a, desconheço
como são os contornos da liberdade.



José António Gonçalves

(inédito.23.01.05)

JAG
http://members.netmadeira.com/jagoncalves/

 

 

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Selecção e Montagem: JAG