A Nossa Saudade

“Tudo muda excepto a própria mudança. Tudo flui e nada permanece; tudo se afasta e nada fica parado[...] Não consegues banhar-te duas vezes no mesmo rio, pois outras águas e ainda outras sempre vão fluindo[..] É na mudança que as coisas encontram repouso[..]”..Heráclito- Filósofo

Tudo muda e nada permanece, e é nessa mudança que as coisas encontram repouso e nesse repouso reside a saudade.

Quando o filósofo nos fala que o instante vivido já é passado e que as águas que nos banharam já se dirigem para o mar, ele está a falar de movimento, de vida, de presente e passado, mas sobretudo de saudade. A Sua afirmação é bela e verdadeira, mas é profundamente dolorida ou dolorosa, como a própria saudade

Dizem que apenas a nossa língua possui uma palavra para expressar este tão intenso sentimento: saudade. Penso que saudade é muito mais do que uma expressão, que se sente em qualquer idioma e mesmo no português, muitas vezes, a palavra fica mais pobre diante da grandiosidade do que se sente. Saudade, essa dor tão doida é muito mais que falta, ausência, nostalgia ou qualquer outro substantivo.

Saudade é perda, é a certeza da impossibilidade de resgatar algo já vivido, saudade é a dor algumas vezes quase insuportável, diante daquilo que já foi e que nunca mais poderá ser retomado. Saudades de verdade, apenas sentimos quando tomamos consciência, de que o tempo não existe, o movimento nos transporta pelos dias, anos e vamos passando pela vida como um filme diante de uma plateia estática. E como areia fina essa vida vai escoando-se entre os dedos, deixando pelo caminho o rastro das dores, alegrias, perdas e conquistas. Caminho esse que nunca mais voltaremos a trilhar.

A saudade tem sido cantada e decantada pelos poetas, compositores, escritores, enamorados. Tenho visto muitas definições da palavra e do sentimento, um completa o outro, mas parece que algo ainda fica a faltar. Saudade é a impermanência da constância. Na escalada da vida nada se repete, cada dia é único e se antepõem aos factos materiais, como leis químicas ou meras receitas de bolo, onde se podem usar os mesmos elementos em iguais condições e se obter idênticos resultados. Na vida não, ainda que pudéssemos reunir os mesmos elementos numa mesma circunstância, o resultado seria outro, por que nós estaríamos diferentes, com novas marcas e novos conhecimentos. Para os momentos não existem fórmulas, não podemos agrupá-los, recriá-los ou repeti-los. Eles sucedem-se um a um e esgotam-se em si mesmo no momento seguinte.

Tememos tanto a morte física e nem damos conta de que morremos a cada instante. A saudade é dor tão pungente por ser a morte do instante vivido, a impossibilidade da retomada, do resgate. É a nuvem que o vento dissipou é a água pura do rio que se diluiu no mar, é o filme rodado da vida que não permite a rebobinagem.

Saudade é muito mais do que morte, saudade é vida, é o agora que já deixou de ser presente, mas deixou na memória o registo da intensidade do instante vivido. É a lembrança gravada de forma perene dos pequenos e grandes factos de nossa história.

Portanto ao menos resta-nos o consolo de sabermos que, quanto maior for a saudade que sentirmos, com certeza, mais rica terá sido nossa vida vivida.

Assim ficamos felizes porque: Quanto maior a saudade que sentimos pelo nosso Amigo Poeta, mais certos ficamos de quão rica foi a nossa amizade, quão ricos os momentos partilhados, quão ricas foram as nossas tertúlias e “patuscadas” Madeirenses e/ou Continentais.


Ana Paula de Viveiros

 

 

Funchal, 5 de Abril de 2005