Carta a um amigo distante



Se calhar não tiveste tempo de levar a viola. Que tocavas com alma, dedilhavas com empenho, cantarolando em grupo ou a solo nas noites arrastadas na baixa da cidade. Não tiveste tempo...

Quando te conheci eras um menino: olhos irradiantes de curiosidades (imensas!), agitação poética interior, sonhos, sonhos e sempre a mão aberta para o ser humano mais próximo. Arrastavas a Gilda contigo e lá íamos nós a remoer poesia e a debitar poetas, a beber a cumplicidade de um copo, a partilhar encontros e desencontros. Foste o meu mais fiel companheiro, o meu mais precioso cúmplice, o meu mais dedicado amigo.

Entravas em minha casa como em tua casa e encantavas os meus filhos com o toque mágico da alegria, um remoque, uma ironia, uma gargalhada.

Saudades... saudades...

Atravessámos estes trinta anos partilhando muita coisa. Mas sempre recebi mais do que dei. Eras bem mais generoso do que eu! Não há passo, acerto ou desacerto da minha vida madeirense bem vivida onde tu não estejas: ora em primeiro plano, ora em recuado perfil.

Tivemos guerras. Claro. Só defronto os amigos, os que o merecem. Mas as nossas questões resolviam-se por si sem mágoas recalcadas, sem reservas, sem omissões.

E andávamos para a frente na cumplicidade do muito que nos unia e do pouco que nos separava.

É muito difícil falar de ti neste momento. Está tudo ainda muito vivo, muito presente, muita ferida ao rés da pele, muito desconforto no coração. Atravessámos o tempo em deambulações culturais, cruzámos limites em afirmações polémicas, girámos na roda do destino sempre à procura de nós, dos outros, da vida.

Deixas uma grande obra poética, a que fica escrita e a que levas na alma a pedir um eco na distância lunar. Deixas um amor retalhado por gentes que conheceste e adoptaste, deixas os sorrisos na cara de quem te quis, deixas a tristeza de não te ter presente na mesa deste Café do Teatro onde, antigamente, tudo começava.

É quase impossível olhar a esplanada e não te evocar: truculento, afirmativo, narcisista, teimoso mas luminoso, poético, artista, generoso...

São tantas as histórias que partilhámos juntos! Lembras-te quando de madrugada rumávamos a Machico para acordar o Padre? E viajávamos com gente desconhecida na aventura nocturna? E comíamos castanhetas ao pequeno-almoço e adormecíamos ao primeiro raio de sol? Lembras-te das noites dos pequenos bares da Ponta Gorda? E de quando geriste o "Kit-Kat" onde levaste uma noite uma espantada Agustina Bessa-Luís? E dos poetas que dizíamos e tu sempre a insistir na "Balada da Neve" para me atiçares? Lembras-te das aventuras lisboetas, das embaixadas culturais, do empenho, da divulgação e depois das conversas sem fim com o José Agostinho Baptista ou das disputadas tertúlias do Botequim? Lembras-te da Natália?

Pois é. Já estás com ela.

De certo que o Dórdio te fez uma recepção de primeira nesse Olimpo onde chegaste. E de certo que a Natália quis saber como vai tudo por aqui... incluindo se o Laurindo ainda tem uma paixão por ela!

Olha meu amigo, nós ficámos mais pobres. Vamos querer apoderar-nos das iniciativas que trazias entre mãos: prometemos-te a tua "Ilha 5", o teu livro que o Fournier, finalmente, vai enviar para o prelo, a edição dos livros de cordel e sobretudo, meu caro, prometemos não te esquecer.

Vamos sentar-te connosco na próxima Feira do Livro. Falar de ti, dizer bem de ti, dizer mal de ti, evocar a tua obra.

Prometo-te, meu querido José António, beber um Gin em tua memória.



Nota: Para a Gilda, o Marco, a Arabela e a Natacha com uma funda ternura na memória de um excelente marido, pai e meu amigo.

Maria Aurora

 

 

In Diário de Notícias Funchal, 3 de Abril de 2005