|
Eterno amigo
Rosa Pena para JAG
Claro que não lembraria mais, se mamãe não tivesse repetido
tantas vezes.
Eu era ainda bem criança, perto dos meus cinco anos, gostava de
ficar na
janela da sala, logo pela manhã antes de ir para a escola, vendo
as pessoas
que passavam na rua indo provavelmente para o trabalho.
Dentre tantas se destacava uma moça com um sorriso carinhoso,
que logo após
uns dias passou a me dar um "tchau", e aprendi a acenar da
janela também.
Viramos amigas inseparáveis, apesar de nem sabermos os nomes ou
cheiros.
Esta façanha durou aproximadamente um ano, o tempo de aprender
que existia o
sábado, o domingo, o feriado, pois eram os dias que ela não
passava.
Num final de tarde, escondida de mamãe, colhi flores no jardim
imaginando o
amanhã. Desceria cedo e entregaria. Já sabia abrir a porta,
finalmente
abraçaria minha amiga.
Na manhã seguinte desci com as rosas já murchas, pois havia
escondido bem
para que ninguém percebesse. A gente cisma de ocultar os afetos.
Casualidade
do destino ou não, ela não passou. As flores ainda mais caídas
voltaram
comigo e ficaram camufladas de novo, atrás do sofá. Naquele dia
não consegui
almoçar direito, à tarde na escola passou arrastada, louca que
chegasse a
noite, pra acontecer logo o dia seguinte. Mamãe desconfiada foi
ao meu
quarto tentar saber de minha aflição. Nada ouviu. Dissimulação
aprende-se
cedo.
Nova manhã. Ela não passou. Chorei abertamente. Mamãe me
abraçou, lógico que
já sabia o que se passava, e foi tirando as palavras da minha
boca. Saudades
de uma desconhecida tão amiga era a explicação.
Fato esclarecido avisou-me que na rua paralela haviam construído
uma
passarela nova, e que pessoas iriam agora passar por lá, acima
da rua, longe
dos perigos. Isso me deixou desapontada. Afirmei pra mamãe que
essa
passarela afasta os perigos, mas também os amigos, então não
gosto dela.
Afinal não dei a flor destinada a ela.
Mamãe com seu jeito paciente, explicou-me que a vida é uma
passarela, que
para prosseguirmos tínhamos que subir degraus, tirar o pé do
degrau debaixo,
virar esquinas, pegar paralelas.Não tem como parar o fluxo.
Mostrei-lhe meu medo de ficar perdida e não mais ver os que amo
mesmo que de
passagem, agora sei disso bem.
Ela disse:
- Você só tem uma maneira de viajar sem temor. Entregue sua flor
e o seu
amor na hora certa, no instante em que acontecer.
Então entendi naquele dia que não devia deixar minhas rosas pra
depois, pois
durante a vida nós subimos nas passarelas, mudamos o nosso
trajeto, e por
vezes nos perdemos dos amigos de momentos, fiéis, eternos,
infiéis ou
não.Amigo que faz brotar sorrisos. Por isso querido, lhe dei
tantas rosas
sem um senão. Não tenho medo algum dos degraus da vida que ainda
terei que
enfrentar para te abraçar e entregar mais dúzias delas.
Agora eterno amigo.
para JAG que brilha agora lá no alto.
Rosa Pena
|