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Homenagem ao Poeta José António Gonçalves
“É preciso guardar as palavras/e derramá-las quotidianamente/na
paixão encantada/de todas/as conversas.” (in Esquivas são as
aves).
Assim estou a fazê-lo:
Conheci-te numa tarde de domingo tinhas tu 14 anos de idade e eu
16, no preciso momento em que tu esperavas pela tua grande amada
Gilda na ponte em frente à Rua do Til. Vejo-te, com o teu ar de
menino e porte graúdo, deambulando para cá e para lá em toda a
sua dimensão, diminuindo assim, o tempo de espera pelo encontro
tão desejado. Já nessa altura não te separavas dos livros,
fazias-te acompanhar sempre de um, que levavas ora debaixo do
braço, ora na mão e encostado ao peito.
Aí começou a nossa amizade. Encontrámo-nos muitas vezes nesse
local, que por sinal também era o meu. Nas conversas que
mantínhamos estava bem patente o teu dom para a escrita, poesia
e literatura, assim como a ânsia que manifestavas de que as
pessoas gostassem de poesia. – Era o teu sentido pedagógico, e
de partilha – quer dos manuscritos que trazias com os teus
poemas, quer dos recortes de jornais de alguns já publicados,
inclusive no continente. E assim foi crescendo a amizade e a
admiração que passei a nutrir por ti.
Quis o destino que anos mais tarde (não muitos) fosses a um
jornal onde eu trabalhava, a pedido do director que te queria
conhecer pessoalmente, devido à qualidade dos teus trabalhos
publicados. Passaste a fazer parte do corpo redactorial desse
jornal. Começou a tua caminhada Amigo. Sucessos atrás de
sucessos que incomodou muita gente instalada; desânimo surgiu
muitas vezes, também, causado pelas pressões das velhas raposas
– mas os amigos estavam lá, para te apoiarem – e apoiámos-te
sempre. Os que apostavam em ti!
A forma inovadora de se fazer jornalismo na Madeira, com a
irreverência própria da tua alma de poeta e jovem que eras na
época, assim como a tua frontalidade com que encaravas as
adversidades, fizeram com que por alguns fosses incompreendido.
Numa das muitas tertúlias em que faziam parte vários escritores,
DÓRDIO dirigindo-se a ti, proferiu a seguinte frase: “pela
qualidade dos teus amigos, posso avaliar a qualidade dos teus
inimigos” ele lá sabia a que se referia.
Mas Grandioso era o teu coração! Um dia quando te dirigias para
o Jornal encontraste alguém na rua, um dos muitos relegados da
vida, que te contou a sua história. Tu não fizeste mais nada
senão meter a mão no bolso e dar-lhe todo o dinheiro que
possuías naquele momento. Depois vieste meter “um vale” à caixa.
Foste e continuarás a ser com a tua poesia, um contribuinte
líquido de: “para a construção de uma sociedade mais justa e
feliz”, como o dizias no último e-mail que trocamos,
precisamente no dia do Pai. O teu desprovimento de qualquer
sentido material, fazia com que mostrasses a todas as pessoas, o
carinho e a generosidade que a cada um dispensavas.
Por ti e em tua memória, não beberei nenhum Gin mas continuarei
a beber vorazmente toda a tua poesia publicada e a que ainda
está por publicar.
Até breve, pois, encontrar-nos-emos na leitura do teu próximo
poema.
Mateus Carvalho de Gouveia
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