MEMÓRIA


Ao Marco, Arabela e Natacha.
À Gilda.


Morreu o José António:
João David comove-se,
quase à meia-noite
de 29.

Perdi meia vida,
nesta insónia
– a que vivi
em tal amizade.

Nem o Funchal é mais
igual a si.

Pensei nele, à tarde,
ao folhear
o Diário (de Notícias),
que comprava
ao nascer do dia,
quando voltávamos a casa,
após outro bar.
Intrépida, ao lado,
Gilda.

Esperava
vê-lo em Maio,
e saber
da sua poesia
em italiano,
que promovia
Carlos Martins.
Vimo-nos há semanas,
com João Rui
e Tolentino.

Noutra memória,
com Dórdio,
um Fausto raro,
whisky, pois,
em riste,
José António imita
Ray Charles,
que cumprimentou.
Lodo de sonho
– e, zás!, um, dois,
tudo se esboroa.

Vivemos noites,
conversas à proa,
almoços sem fim.
Ajudou-me
a fugir à polícia,
numa história inverosímil.
Soube de amores (meus)
em primeira mão.
Joga snooker
(Deus, que bem sabia!)
em novela minha.

Pela madrugada,
no corpo triste,
alma acena, ferida,
que não, não morreste,
Amigo –
só por distracção
entrou bola negra
onde não devia.


Ernesto Rodrigues

 

 

Oeiras, 30 de Março de 2005