O Adeus a um Amigo

Milionário em generosidade e um “sem-abrigo” em burocracia, resistias à canga do silêncio comprado e a submissão às conveniências. Decretaste o teu Estatuto. Simplesmente, foste tu, o José António Gonçalves.

Uma partida antecipada. Fiquei perplexo com a notícia. E tu, decerto, discordaste da antecipação, tal o teu apego à vida, à alegria de conviver e de sonhar. Da sátira à conversa séria, do escritor ao poeta, do jornalista apimentado ao respeitador do direito à privacidade, do inovador rebelde ao dialogante do consenso, Homem de mil histórias, pontificavas investido de bom samaritano ou de Rambo, de indulgente a mau da fita, mas sempre o artista e o intelectual, no papel de protagonista eminente.
Boémio elegante, mordaz quando preciso, tolerante sem guardar rancor. Foste um Homem da noite, das tertúlias, da “dolce vita”, sem esquecer as obrigações que te aguardavam no dia-a-dia.
Homem servido duma inteligência invulgar, viveste à tua maneira, ao gosto da roda dos amigos da boémia e das exigências dos homens do rigor, do “deve e haver”.
Têm falado de ti, agora a título póstumo. Poetas, escritores, jornalistas, amigos teus, verdadeiros ou de circunstância, exaltam as tuas facetas múltiplas, o teu valor, o teu humor, o teu humanismo. Talvez por desconhecimento ou receio, não retrataram a tua faceta de cidadão de uniforme. Menino de 20 anos, soldado recruta, híbrido moldado entre uma irreverência congénita e a rigidez das Chefias castrenses, combatente de arma em bandoleira, no dólmen a esferográfica de jornalista, firme de ideias e atitudes, foste um resistente à bandalheira generalizada no PREC (processo revolucionário em curso), tristemente célebre no pós-golpe militar de Abril. Na caserna, nos comícios clandestinos de incitamento à subversão, na instrução, levantavas a tua voz às atitudes duns ditos “progressistas”, ciosos de protagonismo ou de poleiro, auto-intitulados leninistas, marxistas, anarquistas, cheios de complexos do tórax ao capacete. Tivessem eles conseguido os seus intentos obscuros e juntar-te-iam, com guia de marcha, aos “irrecuperáveis” do “Campo Pequeno”!
Fisicamente não passavas dum “puto”, galo palheiro de peito arfado, mas na coragem e ousadia com que os enfrentavas e a ironia com que os “desarmavas”, um veterano notável. Foste Rambo de farda e um samaritano paisano.
Milionário em generosidade e um “sem-abrigo” em burocracia, resistias à canga do silêncio comprado e a submissão às conveniências. Decretaste o teu Estatuto. Simplesmente, foste tu, o José António Gonçalves.
Foste ainda um justiceiro. Lembras-te do polémico desvio do testamento dum terreno à Cruz Vermelha? A benemérita, uma nonagenária sorrateiramente sequestrada, assinaria uma doação a outrem. Três “mosquiteiros”, jornalistas encabeçados por ti, levariam a que vontade da benemérita fosse reposta e hoje existe, ali, um Estabelecimento de Educação da criança. Um gesto a lembrar o “justiceiro” das histórias de banda desenhada!
Homem de Paz e de combate, chefe de família, poeta e autodidacta que conquistou lugar no Pódio da Cultura, com nome gravado no Pátio dos Sonhadores de Mérito.
Paz à tua alma, José António.
Um até sempre, amigo.

MORNA NASCIMENTO

 

 

in Jornal da Madeira, 14 de Abril de 2005