QUE PODER?


Que poder, Poeta e Amigo, que tanto cativa?
Quando a morte chega sem se fazer anunciar ou mesmo quando envia sinais desprovidos da possibilidade de negociar (na recusa inteira de um compromisso adiado), tudo dilacera, arrasta, arrasa ou não fosse dos ventos o mais pujante, o mais tirânico, o mais irredutível. E ficam familiares e amigos de quem é assim arrebatado sem mãos, exangues, com nada, de coração estrangulado.
Mas a magia acontece. Com o passar das horas, dos dias, memórias soltas, com o aveludado marítimo do azul, lutam, desarreigadas de ressentimentos, invejas ou ódios, por um lugar ao sol, onde o ordenamento do território fixado por uma existência fulgurante seja por nós reinventado. Espreitam, pacientes, as nossas vontades. E eis que regressa lentamente José António Gonçalves no ar ponderado de quem nunca vai prevaricar; no olhar altaneiro colado a mil sonhos; na captação pungente de fracassos, humilhações e medos face aos quais opina, aconselha e apazigua; na exaltação de presenças e ausências no quotidiano, na Literatura, no mundo; no gracejo trigal e extensamente despojado; na palavra retida para depois presentear alguém; na sensatez da verdade oculta para frutificar no tempo certo; na altivez desconcertante da criança traquinas; no costumado cerrar de olhos, quando da corrosão oblíqua da lucidez; no proliferar de projectos em catadupa pela inteligência inventiva que o conduz; na gargalhada embriagante e inquieta; no refúgio de um canto sublime que a tantos cativa ora conversando ora escrevendo; na extravagância de um carácter que sempre repudia com mágoa, muita mágoa, os laços asfixiantes e despudorados da mesquinhez humana.
São tão díspares os conceitos de valor, mas a morte às vezes repõe o que a vida porventura omite, renega ou distorce. Hoje foi anfitriã orgulhosa, e não se coibiu de manifestar, de um espírito contemporaneamente humanista, livre e iluminado que, em nós, fizera a sua aparição. Daquela que toca. Com cheiro a jasmim. (...)

Regina de Castro e Abreu

 

In Diário de Notícias Funchal, 2 de Abril de 2005