UMA ÂNCORA NA BAÍA DO FUNCHAL

ao José António Gonçalves, in memoriam


Do cais do Funchal pelo sublime sigilo da manhã uma nau zarpou rumo a Delfos, apregoava o velho
meio louco repartindo pão com os pardais.
Na avenida ninguém atendia ao homem recitando,
só um catraio lhe gritou de passagem
— Naus não existem mais! Só transatlânticos.

Verdade ou mentira,
na baía do Funchal entre a azáfama dos peixes encontraram uma âncora, uma inscrição
quase ilegível que os cépticos insistem
ser criação do velho; verdade ou mentira,
sob a lama que foi cama
da velha âncora repousava um manuscrito,
meio apagada a exortação

... se publique: uma nau zarpou rumo a Delfos
quando sua âncora reluzente dorme na baía do Funchal,
se chama poesis e foi construída no ano da graça …

Verdade ou mentira publicaram, agora dizem
que o velho não era velho nem sequer meio louco.
Era apenas Poeta. Para outros um pardal.

Ivo Machado
Porto, 30 de Março de 2005