|
Até sempre, José António!
Há ocasiões em que nos faltam as palavras, mesmo as escritas.
Para quem tem por profissão os jornais, sabe que é mais fácil
escrever sobre uma tragédia colectiva, mesmo vivendo-a
intensamente, do que sobre a morte de um Amigo. Esta é, na
realidade, uma dessas ocasiões, em que tudo o que se escreve
pode parecer pouco ou menos significativo. O adeus, a despedida
sem regresso, é fria. Gela a alma e arrepia o corpo.
Numa estrada que tem trinta anos de percurso, iniciada com o
José António Gonçalves, no dealbar dos anos setenta, é natural
que guarde recordações inapagáveis de um tempo em que só a nossa
juventude e algum desprezo pelas normas político-sociais
vigentes nos faziam estar a bem com todos e acompanhar uma
transição de regime que deixou marcas. A Democracia que foi
recebida de forma triunfal em Abril de 1974 não se revelou
afinal, em plenitude, pelo menos na vida do José António. As
suas opções, como a de muitos outros nossos amigos, não foram
aceites por muitos a quem ele só fez Bem. Foram os colegas de
bancada, a quem ele escrevia, reescrevia e ensinou a escrever os
textos, os primeiros a atraiçoá-lo. Atravessou o deserto com
alguma serenidade e voltou a reencontrar-se. Não onde sempre
quis estar, mas auferindo o suficiente para viver e sobreviver.
José António, o jornalista, refugiou-se nas tertúlias, nas
noites de histórias, de poesia e de música que prezava e tão bem
interpretava. Legou-nos uma obra que atesta bem a qualidade da
sua escrita, o seu pensamento livre. Nos desencontros da vida, a
doença conquistou-o. Morreu um Homem Bom. Um excelente
companheiro. Até sempre!
Catanho Fernandes
|