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DESPEDIDA
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Para o josé antónio gonçalves
Havia na costa norte uma mulher que esperava por mim.
Guardara
a
guitarra
na
arca
solitária,
pois
o mar levara sua canção,
encantado
o
silêncio
sob uma toalha de linho
bordada
na
ilha da Madeira .
Abandonara
lágrimas
de
névoa,
transparentes
passageiros
do
horizonte,
soletrando
o
alfabeto
do
amor
descoberta
a
distância
em
barcos
misteriosos
sempre
pontuais
na
rota
do
esquecimento.
Um cântico de crianças
devolvido
pelo
fragmentado
eco
dos tempos
enfeitava
árvores de Natal
libertando
sonhos
prateados
de
fim de século,
deixava escrito
junto
ao
berço
uma
mensagem
discreta
sob
flocos de neve
que
as
estrelas
guiavam
entre
sinos
e
jornadas
de
pastores
cruzando
desertos
inventados
no
limite
da
ausência
- “até renascer” .
Vestia
os
dias
tristes
com
velhas
sedas
-haviam recolhido o sabor de alongados beijos,
carícias assustando recônditos seios,
súbitas sensações de cristais resplandecentes
afogando a pele fria ,
tranquilizando o respirar incomodado da vida?
À noite ,
alimentava
uma
fogueira
iludida
pela
flor
de
maracujá
e
a
lonjura
altiva
das palmeiras,
sinais
africanos
anunciando
um
lento
e
infindável
rio
em
busca
de
cidades
desaparecidas.
Às vezes,
dançava.
No
entardecer
de
voluptuosas
sombras
gestuais
lapidadas
nos
muros
de
mármore
abraçando
uma
fortaleza
avermelhada
de
pôr do sol,
onde,
outrora,
encarcerados,
os escravos,
receavam
a
chegada
das
caravelas
portuguesas.
Adormecera
contemplando
a linear mobília vitoriana
sentada
numa cadeira de vimes .
Ali
desfiava
as más recordações
de
1931 .
A
voz
envolveu-se
num
violento
exercício
anímico,
construindo
Templos de Arte .
Aqui
os
deuses
passeiam
o
orgulho
e
a
nudez
incontempláveis,
o
beijo
e
a
espuma,
as
casas
iluminadas
pelo
abandono
atlântico.
-Como poderei morrer sem te abraçar?
-Não se olha o mar que faz saudade .
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