Em memória de José António Gonçalves

Nas sombras de um lugar ermo Jaz, só, prostrado e enfermo, O exemplar do sepultado. Haverá uns chorando a dor; As letras, decerto, o suor Dos seus partos ora cessado… As páginas sujas de terra, Dos pés dos “senhores da guerra”, Conspurcam gélido caminho. Meu amigo, que vais embora, Como em todos, em má hora, Feito pó, do pão e do vinho. O meu lamento é desalento Estorvado por rude vento Nessa lápide incrustado.

O seu gosto é tão amargo Que, impotente, o guardo Junto a cada meu pecado. Quis ir à última morada, Concorrida e carregada De tristeza e poesia. Mas o manto dos senhores Poderosos (e assessores) Infectava a minha via. Nas sombras de um lugar ermo Jaz, só, prostrado e enfermo, O exemplar do sepultado, Ora estrela cintilante. És o meu poeta distante Porque o futuro… é passado.

 

 

 

Pedro Marques de Sousa


 

 

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