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IN MEMORIAM
Enquanto Poeta e enquanto Homem, José António Gonçalves foi um
homem de excessos. Decerto que a entrega às causas da cultura
era demasiado absorvente. E transbordante. Generoso como poucos,
gostava de trabalhar em várias frentes, bem sabendo que o que
sempre fica num criador literário, muito para além da memória
dos episódios de convívio, é a sua obra, que a posteridade, em
várias épocas, se encarregará de joeirar. Escrevendo
obsessivamente, despejando gavetas, fazendo livros próprios e
colectivos, salvando este e aquele companheiro do esquecimento,
reavivando algo do muito que viu de perto, lançando quer o
movimento Ilha quer o seu blogue poético diário, o José António,
a partir de determinada altura confrontou-se com o seu próprio
coração, que não lhe perdoava o pouco cuidado com que o tratava.
Grande, mas doente, o coração cedeu, porque não tinha a
vitalidade brilhante da cabeça do Poeta. E assim perdemos o
convívio do Homem, cuja amizade e simpatia envolventes,
entusiasmada, não deixava ninguém indiferente.
Poeta da ilha da Madeira, poeta da Literatura Portuguesa, o José
António Gonçalves deixa aos que lhe sobrevivem a ingrata missão
de lhe tomarem a dinâmica. E a única maneira de lhe colocarmos
verdadeiramente uma rosa vermelha nas suas mãos, agora para
sempre repousadas, é manter acesa a chama do seu espírito, da
sua obra poética.
Um comovido abraço para a Gilda, sua companheira e seu encanto.
A minha solidariedade para ela e para os filhos, de quem o José
António Gonçalves tanto se orgulhava.
José Viale Moutinho |