MAIS UMAS POUCAS PALAVRAS

Se alguma coisa a mais eu posso dizer sobre o José António Gonçalves, o nosso JAG, além da profunda admiração, é sobre agradecimento. Pela convivência em três diferentes grupos ou listas de poesia, pelas discussões literárias, pelas suas valiosas informações que tanto me enriqueceram nesse pequeno período de menos de um ano de convivência. Sem dúvida ele foi e sempre será uma referência positiva dentro da minha Escrita e de outros que com ele conviveram. Estar ao seu lado incentivou-me a escrever a <<Série JAG>>, uma série de 58 poemas meus inspirados nos poemas dele, retirados do “A Poesia dos Calendários”, coisa que se não é suficiente para o consolo em relação à tristeza, pelo menos traz alguma leveza à dura realidade da sua prematura partida.
Obrigada JAG! Por tudo.


Cissa de Oliveira
(Campinas – São Paulo – Brasil)

 

SER

José António Gonçalves


Esse cordão umbilical
que nos liga à liberdade.
Existirá na realidade?

Quem será a mãe verdadeira
da ambição de ser livre?
A pátria? As cores
de uma bandeira?

As pradarias soltam ao vento
o apelo para a corrida.
Uma corrida sem princípio e fim.
É essa a sede sempre corroendo
dentro de mim?

Quem domina dos cavalos
selvagens
a força da recusa duma sela?
De que dono são os homens
vassalos?

A liberdade é um mistério.
Por ela vivemos. Por ela morremos.
Só a conhecemos quando se percebe
que não podemos sobreviver
sem o gosto de tê-la.

E o que sabemos
é que a liberdade
vale um berçário. Um cemitério.
Um hino. As três letras
duma palavra sangrada:
a palavra Ser.

A liberdade
é um desses cavalos.
Um cavalo azul
que não pára de correr.


José António Gonçalves
(inédito.10.10.04)
 

 

 

 

 

NA FEITURA DA SÉRIE JAG

Cissa de Oliveira

“... a liberdade
é um desses cavalos.
Um cavalo azul
que não pára de correr...”

in: Ser : José António Gonçalves

Pouco eu posso dizer-te
sobre a liberdade,
esse cavalo muito azul
com a crina aos beijos do vento.

Dela, sabes mais tu,
e as vozes das coisas
na ânsia de serem subjetivadas,
durante a loucura calma
da colocação dos versos.

É essa a liberdade:
o varal onde depões
segundo alguma ordem
por mim em seguida atinada,
as palavras alvas.

É essa a liberdade:
a poesia nua aos borbotões
ou vestida de impressão,
a nudez da alma
e o alvoroço doce do teu coração.

É essa a liberdade:
o cavalo alado que eu persigo
com o vôo da imaginação
redesenhando a sua rota azul
na feitura da série JAG

É essa a liberdade:
tocar como quem desvenda
os laços leves das promessas
em suspense num espelho,
buscando a luz para pousar

... e pousam,
para assim continuar
na sua louca corrida
de crina iluminada ao vento
nos céus da poesia.

Cissa de Oliveira
Poema no 40 da série “JAG”
28.10.04
 

 

Passer jaguitus


Eu sempre adorei os pássaros, seja na Ciência ou na Poesia. Quase me doutorei em Ornitologia mas outras oportunidades por ocasião da minha mudança de São Paulo para Campinas levaram-me para a área da Genética e Biologia Molecular.
Lembro-me de que costumava enviar para o nosso poeta JAG umas aquarelas de pássaros feitas pela minha irmã Salette, artista plástica, resultado de um levantamento de avifauna que realizei no Centro Campestre do SESC, em São Paulo, já que é notório nos poemas dele o seu amor pelos pássaros.
Um dia, numa brincadeira, eu resolvi inventar um pássaro até então não encontrado em nenhum livro, ou se existe eu não conheço. E não havendo aquarela, nem foto, nem nada, eu o descrevi. Não tenho nesse momento a descrição exata porque está guardada em alguma dessas “cartas” cibernéticas. Sei apenas que fui generosa nos vários tons de azul e de verde salpicados nas asas, no branco misturado a um tanto de amarelo no peito, e até um pouco de ferrugem, nos pés. Delineei em sua cabeça uma espécie de “coroa”, que segundo determinei, só apareceria na época da reprodução. Era por causa do tal do dimorfismo sexual, tão comum aos pássaros e onde o macho geralmente é o mais bonito. Conferi-lhe uma classificação inteira, que de taxonomia eu também gosto. Aqui, apenas o género e a espécie do pássaro: Passer jaguitus. Foi um presente meu pra ele.
O Passer jaguitus se foi, voou para outras paragens e, para a tristeza nossa, não é este apenas um voo migratório, até porque o seu território por livre escolha, ele dizia nos poemas, era a sua amada ilha e tudo o que ali havia. Espero sinceramente que esteja bem, entre os muitos azuis e luzes, como convém aos pássaros e aos poetas.
JAG, aceita também umas flores, e entre elas uns preferidos de Van Gogh. É para que eles troquem muita luz contigo, sempre.
Demais, é a poesia que por aí, e por aqui, vai.

Cissa de Oliveira
01.04.05