Para ti, José António

 



Fizeste dos livros o teu percurso e a vida foi construindo caminhos paralelos, todos eles preenchidos com conhecimentos que te enriqueceram a alma. As gerações vindouras conhecerão a tua poesia. Estou certo, ocupar-se-ão de ti. A tua escrita não tem fim. Tu és um pouco desta ilha. Um povo que se preze e uma terra que se queira livre terá de admirar e exaltar os seus valores. E tu fazes parte desses valores, porque permaneceste na ilha.

Estava muito longe, nem me recordo em que cidade dessa Índia fascinante me encontrava. Estava longe também de pensar que a morte te colheria numa manhã da ilha. Tu e a ilha tinham pactos secretos: por ela te sacrificaste. Curiosamente, sempre acreditaste que ela te entenderia nessa tua maravilhosa linguagem poética, nessa tua forma de ser e estar neste pequeno pedaço de terra que era todo o “teu universo”. Teimaste e demonstraste que não era necessário te exilares numa dessas capitais do mundo porque o teu talento “parido” nesta terra era maior que a sua própria dimensão. Porque as palavras fruto de um pensamento livre, tal como os pássaros voando no céu azul da ilha, não se acorrentam; porque tu, como todos os ilhéus, tinhas pela frente o infinito. É um privilégio e nunca uma limitação. Tu desmistificaste que ser poeta não é uma questão de espaço, mas sim de alma que se agiganta nas experiências da vida, nas tristezas e nas alegrias. Tu e a tua irreverência eram gritos salutares dentro de uma sociedade ainda montada em tantos preconceitos. A irreverência a que Natália Correia diria bendita e necessária para que a falsa moral imposta caísse na verdade da realidade e surgisse na construção autêntica das palavras como mensagem de liberdade, respeito e admiração pelos outros: a razão de sermos quem somos, jamais rotulados mas compreendidos na essência de um humanismo dignificante.
Trabalhámos juntos na redacção do “Jornal da Madeira”. Tu, muito mais jovem do que eu, trazias a alegria da vida e a lealdade da amizade. E a ilha estava dentro de ti nos seus caprichosos contrastes e as noites eram veleiros sem velas, parados na quietude dos teus sonhos. De repente, caía sobre a tua testa uma madeixa de cabelo negro, emoldurando a tua cara de menino e tu gargalhavas contagiando toda a redacção com o teu riso franco.
Eu sei que estavas admirado por ainda não ter escrito. Venho agora dizer-te que não o fiz por falta de coragem, porque não sabia por onde começar este meu recado para o céu, feito de dor e saudade. Eu sei que tudo tem um começo e um fim, que tudo é temporal, mas às vezes não entendo como tudo tão inesperadamente acontece. São os “desígnios de Deus” que justificam certos acontecimentos.
Imagina, andava eu por lugares tão distantes quando me deram a triste nova da tua morte. Não quis acreditar que tal fosse verdade. Depois, os telefonemas seguiram-se, foram-me reconfirmando aquilo que eu negava aceitar como verdade. Já não me lembro o dia em que isso aconteceu. Prefiro perder-me no tempo para não medir a distância e ter a sensação de te ouvir, naquele pedaço do poema de João Rui Sousa:
Procuro a minha voz e não a encontro
Procuro o meu silêncio e não o tenho
Ao desencontro vem desencontro
do maior ao menor é o meu encontro
Sabes, José António, ainda não tive força para falar à Gilda. Fraquejo sempre quando tento telefonar-lhe. Somos tão frágeis em determinados momentos! Disse-te sempre quanto admirava o talento da tua escrita, produto da tua alma sensível e criadora e de um coração enorme que derramavas em todos quantos te estimavam. Posso testemunhar: jamais pediste o que quer que fosse para ti e para os teus. Pediste, sim, muitas vezes, para os outros. Eu sabia que a tua vida não era fácil, porque, despido completamente de materialismos, preferias sonhar e realizar a poesia numa viagem profundamente humana e muito mais enriquecedora.
Quanto me surpreendias com essa tua extraordinária capacidade de, em minutos apenas, escrever um texto. A forma brilhante como analisavas os escritos, a força e a poética que punhas nas palavras deixavam-me estupefacto. Uma escrita entendível e bonita.
Esta manhã veio visitar-me um velho amigo. Já não nos víamos há vinte anos. Ilhéu, de S. Tomé e Príncipe. Falei-lhe de ti, do teu talento. Tinha nas mãos “O Sol na Gaveta” — o registo do meu percurso humano, que tu, com tanta amizade e entusiasmo, fizeste. Quiseste prestar-me uma homenagem e eu fiquei-te grato. Mas eu sei, meu caro e saudoso Amigo, que alguns te criticaram pelo teu gesto, sobretudo por ter sido eu o escolhido… “Coisas” da ilha que, felizmente, nem a ti nem a mim tiraram nunca a vontade de viver, de sonhar, amar e desculpar. Devo-te muito porque sempre me distinguiste com uma amizade e lealdade que muito prezava. Sempre corajosamente me disseste aquilo que pensavas. Sempre vieste ao meu gabinete de trabalho para exaltares os outros. Devo-te a gratidão, de salientares, em todas as circunstâncias, o nome do meu pai, a quem te ligava uma amizade profunda. Do meu pai que, com a sua inteligência fulgurante e a experiência no jornalismo, nos dava segurança e nos fazia acreditar nas nossas capacidades. Trabalhávamos até de madrugada. Eram tempos difíceis em que tínhamos a censura à perna e ele recomendava-nos todos os cuidados. Foi no tempo em que as letras de chumbo eram colocadas uma a uma nos tabuleiros de madeira e o Chefe Borges, pacientemente, as desmontava e tu gracejavas com o velho Chefe. Foi nessa época em que a poesia rebentou em ti, como uma explosão de força. Alguns anos mais tarde, recusaste frequentar a Universidade. Concorreste ao exame “ad hoc”, ficaste em primeiro lugar e depois fechaste a porta a “esse futuro” tão desejado por muitos. Nem por isso deixaste de ser o escritor e poeta que foste, com tanta qualidade. Fizeste dos livros o teu percurso e a vida foi construindo caminhos paralelos, todos eles preenchidos com conhecimentos que te enriqueceram a alma. As gerações vindouras conhecerão a tua poesia. Estou certo, ocupar-se-ão de ti. A tua escrita não tem fim. Tu és um pouco desta ilha. Um povo que se preze e uma terra que se queira livre terá de admirar e exaltar os seus valores. E tu fazes parte desses valores, porque permaneceste na ilha. Ela não te assustou, antes pelo contrário, amaste-a até à morte. Enfrentaste-a. Compreendeste-a. Defendeste-a sempre com coragem. Enquanto outros acobardados e submissos a traíam, tu exaltavas com todo o calor este teu pedaço de terra, cantando-a na tua poesia perene.
Sobe-se ao monte
e
de repente
o olhar fixa-se no mar
pego nas palavras
coloco-as
na memória do tempo
cada homem tem uma história
cada história tem um tempo
a minha história
o meu corpo
pertencem à terra
quando
eu descer o monte
e
não vir mais o mar
foi
porque
o meu tempo se acabou

José António
abraçar-te-ei de novo

JOÃO CARLOS ABREU

 

 

 

in Jornal da Madeira, 22 de Abril de 2005