Quando as pessoas partem 
 
E as pessoas partem
tão inesperadamente,
sem nenhum sinal.
Fica apenas
 o sabor amargo
do não dito,
e a certeza plena
do nunca mais.
 
Belvedere
 
Quando uma pessoa se vai, inesperadamente, seja através da morte ou por voltas que a vida dá,  muitos se deparam com a consciência gritando em desespero: “Por que não disse o quanto era importante para mim? Por que me foi difícil elogiar aquela gravatinha borboleta que ele usava? Por que não disse a ela o  quanto era corajosa por cada mês aparecer com o cabelo de uma cor? Por que nos calamos e omitimos nosso bem querer?”
Sinto muito, mas não faço parte desse time. Sempre fui efusiva, de dizer “te amo” aos que realmente amo, elogiar as qualidades, e até os defeitos pequeninos das pessoas, defeitos esses, que, no fundo, têm seu encanto.
Por isso, quando alguém se vai,  sempre estou em paz comigo mesma. Nunca sinto o remorso a corroer minhas entranhas. Fica, e forte,   uma saudade boa!
Sempre gostei de exercitar  o amor, nas suas  mais variadas nuances .
Lembro-me de um fato ocorrido há muitos anos, quando eu ainda era uma  mocinha, cheia de sonhos com finais cinematográficos. Apaixonada por Edson Alvarenga, e não sendo correspondida, tive uma  briga feia com ele,  prometendo  a mim  e a todos os amigos  que jamais voltaria a olhá-lo. O mundo parecia que havia ruído, tamanha   a minha dor! Meus olhos viviam inchados  e eu a dizer : - Mil vezes a morte!
Os anos  passaram. Numa tarde de verão, caminhando no calçadão da praia, encontrei-o. Fiquei tão feliz  que não me contive e abracei-o, falando  da minha saudade.   Vibrava com o encontro!   Havia, ainda, amor dentro de mim, porém  diferente, mais amadurecido,  sem possessividade   Fiquei em estado de graça com a felicidade do amado. Como estava belo, risonho como nos velhos tempos!  Havia  casado e tinha um casal de filhos, me contou cheio de orgulho. Fiquei absurdamente feliz com a felicidade dele.
Poucos meses depois,  soube da partida de Edson, vitimado por uma terrível forma de leucemia, aos vinte e cinco anos.
Fiquei em paz. Na minha concepção,  partira com as asas íntegras, pois eu não as havia ferido naquele último  e inesquecível encontro na orla.