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Eduardo BETTENCOURT PINTO
Ao José António Gonçalves
Meu kamba José
Quantos deuses de sombra caem para o lado mal se apagam as luzes
do palco? Não sei, José. Basta ligar a televisão, abrir o
jornal, uma revista. São rostos que nos lembram o deserto, a
ferrugem, a madeira podre das cancelas. Não estavas aí, porém,
mas na tua própria dimensão, com os teus fumos nocturnos de
boémio, o teu humor, a tua Gilda, os poemas que escrevias para
que nada se perdesse dos secretos telegramas do coração. Por
isso é que nunca serás esquecido, com os teus defeitos e
virtudes.
Quanto a mim, que resido na fronteira entre todos os
crepúsculos, preservarei o diadema da tua bondade, os excessos
de bardo oceânico, a pêra de pintor sem amos e a urgência das
tuas mãos pequenas, de carpinteiro de sonhos, enquanto
escrevias, na mesa da esplanada do teatro, as dedicatórias nos
livros que ias oferecendo como quem repartia o pão.
Da mesma maneira que um poeta nasce ao olhar os primeiros
jardins da sensibilidade, assim te foste, como uma luz que tomba
nos cabelos revoltos de uma criança, como uma porta
transcendental fechando-se ao rumor do mar. Deixaste as roupas,
os sapatos, os livros, os genes, a saudade, esse sentimento tão
vasto que tanto dói quanto inebria. O certo, meu kamba, é que
tudo isto se tornou demasiado pequeno para ti.
Pensava em ti quando me lembrei do céu do Funchal. Esta
recordação terá uns 4, 5 anos. Já não sei. O Tempo é uma
traição.
Flanava pelo passeio defronte do Teatro e parei, maravilhado,
sob um jacarandá. Olhei para cima. Foi quando notei, entre as
flores e os ramos, um azul voraz que resplandecia. Quero dizer,
caía mansamente no lilás da flor. Tudo: um pedaço do céu e a
inexplicável luz da manhã. Exultei. Estes pequenos milagres
foram sempre uma espécie de moeda de troca entre mim e a poesia.
Um pouco mais adiante divisei o voo circular de pombas, setas de
ossos e penas que nos recordam um alvoroço ou uma lágrima.
Talvez porque as aves, de simbólicas, sejam, no fundo, o espelho
e a água onde a solidão do homem se reflecte na sua batalha de
emoções com a vida e a cidade. A sua liberdade e prisão. Talvez
nem isso, mas uma ruga de nostalgia entre as mais íntimas
páginas da memória. São tristes, as pombas. Despertam-me
inexplicáveis sentimentos de perda.
A beleza tem um lado estranho e trágico. Possivelmente por ser
tão efémera, e no seu dorso navegarem as mais labirínticas
evocações. Dura tudo muito pouco, é certo. A brevidade das
coisas tem a celeridade de uma linha de água sobre as ondas, de
um olhar repentino que nos leva ao mar da música. Por ele
ficamos gratos até à eternidade. Sobretudo hoje, que ninguém
olha. As muralhas dos tabus erguem-se para defender o
egocentrismo e a indiferença. Um elogio a uma mulher não é uma
rosa entre sílabas mas um insulto. Eu sei lá. São tempos
fictícios, irreais. Não me convidem para fazer parte desta
encenação. Já me fui embora.
Queria hoje falar contigo, beber um copo, dois, os que a
carteira nos deixasse. Mas estamos entre fronteiras
fragmentadas. As palavras são borboletas de sombra. Voam entre
os meus dedos, frágeis como as flores dos teus jacarandás.
O belo, sim. Mas essa instância que transparece altera a
superfície das coisas, torna-se uma intimidade, uma empatia.
Talvez seja esse o ofício do poeta: absorver o intocável,
moldá-lo com o barro da luz, transfigurá-lo.
Levaste a tua vida rodeado de água, amando o que era teu – a
ilha das tuas veias, a família, os amigos, os poetas do Mundo.
Não tinhas carros de luxo, uma conta secreta na Suiça. Não
olhavas as estrelas de um pátio de mármore. Tinhas os teus
versos. Saíam do rumor do teu pulso, estou certo, como uma
pulseira de fragrâncias e medos.
Tenho pena de muita coisa, kamba José. De não ter sido mais teu
amigo, de não nos termos encontrado no Rio de Janeiro no Bar 420
para uma caipirinha ou uma cuba libre, de não te ter escrito com
mais frequência.
Mas ando em viagem desde que nasci. Tenho alma de estrangeiro. A
minha única terra é aquela que vou buscar aos versos. Sei no
entanto que viver não é apenas respirar e ir envelhecendo. Que
tudo isto só faz sentido quando a Primavera não é apenas um
símbolo mas um estado de graça, e que só a amizade e a empatia
pelo Outro contornam os abismos, os passos mal dados, a
hipocrisia, os vínculos amargos do Tempo.
Estarei sempre contigo e com os teus neste pequeno círculo onde
me dissolvo.
Se um dia regressar ao Funchal, voltarei ao passeio dos
jacarandás. Olharei com olhos de quem vê. Respirarei fundo para
que luz e flor sejam para sempre a tua ilha dentro de mim.
Verei então a memória da tua bondade poisar com as pombas nos
telhados mais próximos.
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