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Silenciosamente
Silenciosamente, em Março, recebi uma mensagem do João Dionísio
que dizia assim: "Morreu José António Gonçalves". Ainda não
refeito da surpresa, transmiti a má notícia a José Agostinho
Baptista. Retirei da estante um dos seus livros, talvez o que
melhor ideia dá de um longo percurso na Poesia – "ANTOLOGIA
VERDE" (Cadernos Ilha nº 5 - Madeira 1991). Tem a seguinte
dedicatória:"Para o Gualdino Avelino Rodrigues, recordando uma
Amizade que já tem barbas, esta ANTOLOGIA VERDE, falando da ilha
e um pouco do que vai por dentro de cada um de nós, com um
abraço do José António Gonçalves. Funchal, 29 de Abril de 1991".
Conhecemo-nos nos anos sessenta. José António fazia uma página
literária no JM. Eu fazia programas de rádio nos intervalos da
vida de estudante. A última vez que nos encontrámos foi em
Dezembro de 2000 – fomos visitar um grande intelectual
madeirense vítima de colapso cerebral: António Aragão Mendes
Correia. Historiador,poeta, pintor, romancista,
dramaturgo.Subimos até à casa deste nome maior da cultura
madeirense, na calçada do Pico. Encontrámos Aragão sereno e
distante na sua longa viagem por um mundo sem memória. No fim da
visita, ao descermos a calçada do Pico, falámos sobre a Morte.
Disse a José António que desde muito novo a Morte me era
familiar. Uma das minhas mais antigas recordações (tinha eu
quatro ou cinco anos) é a saída do caixão da minha tia Maria da
casa onde nasci, à Heliodoro Salgado, nº 2. Eu gostava muito da
tia Maria. Não queria deixá-la partir. Sentei-me em cima do
caixão. Sempre que encontrava o José António, em Lisboa ou no
Funchal, ele oferecia-me livros, antologias, livros de poetas da
Madeira. Ficava sempre com a ideia de que José António era um
militante da POESIA, a única causa que o apaixonava
verdadeiramente.
Gualdino Rodrigues
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