|
Para comemorar os trinta anos de "poesia" de José António
Gonçalves a Editora Ausência, chancelou a "Arte do Voo —
Antologia poética". Uma homenagem que o poeta merecia ainda em
vida, mas que a página do destino, escrita num livro que ninguém
sabe onde se guarda, decidiu alterar.
Aliás, os poetas não morrem. Simplesmente deixam de escrever,
mas aquilo que nos deixam continua a fazer parte de quem o leu,
de quem teve o prazer de saborear as palavras que a sua
inspiração passou a letra de forma.
Foi exactamente isso que aconteceu ao poeta José António
Gonçalves. "Arte do voo" foi o seu último escrito, antes de
pousar a pena ou, talvez, acompanhando os tempos modernos,
fechar o computador. Trata-se de uma antologia poética que o
escritor António Fournier e o artista gráfico Marco Gonçalves,
decidiram editar em homenagem aos trinta anos de escrita do
poeta. Infelizmente o poeta não pôde estar presente, exactamente
porque já havia pousado a pena e estava, certamente, ocupado a
guardar, no disco rígido do computador, a última "Poesia dos
Calendários".
"Arte do Voo" é o fruto de uma selecção criteriosa, como é
apanágio de Fournier. Os poemas escolhidos falam,
invariavelmente do voo e saem a lume — as malhas que o destino
tece! — exactamente na altura em que o poeta levantou para o voo
final. Até nisso José António foi diferente. Sim, diferente,
porque ele não era como se pretende seja a maioria dos mortais.
Previsível, certinho, alinhado. O José António era a antítese de
tudo isso. A cada dia nos surpreendia com um novo poema, um novo
projecto, um novo livro. A cada dia tirava, da sua inseparável
pasta, a ideia de um encontro com um escritor, com o convite de
um homem de letras à "sua" Madeira, com a ideia numa nova
colecção capaz de "falar" dos poetas da "sua" ilha. E quando as
páginas dos livros se tornaram pequenas, ele abriu a Madeira ao
mundo através da Internet. Todos os dias o mundo das letras
tinha, à sua disposição, uma pitada da inspiração madeirense.
Todos os dias o nome da "sua" ilha aparecia nos ecrãs dos
computadores de quem, em qualquer parte do mundo abrisse o
calendário da poesia. É que a capacidade do José António, a sua
iniciativa, já não cabiam entre as montanhas e o mar que nos
limita. Para ele a Madeira, a "sua" Madeira, os seus poetas e
prosadores tinham lugar no mundo. E foi isso mesmo que ele fez.
A sua arte de voar, os voos intermináveis da sua imaginação, da
sua capacidade de concretizar sonhos, levou as letras desta
ilha, de reduzidas dimensões, para dimensões que só o futuro
confirmará.
|