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José Vito Barreto: um poeta da “ilha”
Jornal da Madeira ::Desporto
Quinta-feira, 31 de Março de 2005 |
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José Vito Barreto, desde há uns anos a viver em Portugal
continental, nasceu na ilha da Madeira, na freguesia dos Canhas,
concelho da Ponta do Sol (1955). Foi colaborador do suplemento
cultural “2000”, do JORNAL da MADEIRA, dirigido por José António
Gonçalves, onde publicou os seus primeiros poemas. Com este
integrou o movimento literário “Ilha”, estando representado na
sua edição inaugural, “ILHA” (ed. “Poesia 2000”, 1975), com o
conjunto de poesias “Por Ser Poeta”. Os seus poemas foram ainda
difundidos pelo programa “Psicadélico”, no início dos anos 70,
numa estação de rádio da Região.
Hoje já não choro nem grito
mataram-me num dia de clara manhã
depois de me encostarem a uma parede fria
gasosa estátua no ar fétido das adufas
pertença dos ratos amarelos
suburbanos.
hoje já não digo chicago nem penso
só digo que nesse dia de clara manhã
não conseguiram roubar-me
a branca cidade dos meus olhos:
os olhos meus brancos
do agudo pranto da fome
subindo à tona da claridade
cheios de vazio
aquele vazio que se sente nas coisas
sempre que acordamos
depois de emprestarmos à vida
o acolhimento solene dos dias
em que não dançámos
porque o nosso ofício
era estarmos quietos.
eu procuro o espaço onde possa
sorver
gota a gota
o amor nuns braços suculentos
e moldarei neles com o meu cinzel
as agudas palavras do meu pranto.
hoje já não digo bom dia é manhã
descobri uma ave agora
no azul deste riacho perdendo-se de leve.
é manhã e
de repente pensei
que existe ainda
o pão seco de outrora.
hoje digo as paredes finas da grossa área
trémula aos fins de semana
deitando ao vento esse perfume acre
do peito apodrecendo numa prisão
pois que no fundo das ideias que se perdem
são as realidades que vivem.
(in “Ilha”, Colectânea de poetas contemporâneos da Madeira, Org.
J. A. Gonçalves,
Ed. “Poesia 2000”, 1975)
Octaviano Correia/JAG
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