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A última folha do
calendário
Jornal da Madeira :: Quinta-feira, 31
de Março de 2005 |
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Hoje, abri o meu correio electrónico e estava vazio. Melhor,
tinha mensagens que me não diziam nada. Faltava a mais
importante de todas as que me chegavam, diariamente, para minha
satisfação, para momentos de agradável leitura: “A Poesia dos
Calendários”.
De há uns tempos a esta parte, a poesia madeirense corria mundo
nas páginas da “net”. José António Gonçalves, com aquela sua
capacidade de trabalho quase inacreditável, escrevia,
diariamente, para gáudio dos que gostam de ler, uma página,
melhor, quase uma dúzia de páginas, sobre os mais variados temas
literários, sob títulos que, por si, falavam bem da imaginação
do poeta: “A Prenda do Dia”, “Bloco Poético de Notas”, “Pitada
de Sal”, “Um poeta da Madeira”, “Poemário” e sempre, sempre sem
falhar, um poema inédito da sua autoria. Foram meses e meses de
puro gozo literário, para o poeta e para quem, como eu, logo
pela manhã, abria o “correio” assinado por jagoncalves@netmadeira.com.
Agora, aos 50 anos, o “poeta” virou a última folha do seu
calendário.
É lugar-comum dizer-se, nestas alturas, que a poesia ficou mais
pobre, que a literatura está de luto. Nada disso. Quando um
poeta parte para sempre, ultrapassa o éfemero, a literatura
ganha força. A sua obra eterniza-se e ele passa a ser página da
História da terra, do país, do mundo onde escreveu.
Por isso, aqui, fala-se de poesia. De arte. Fala-se de um homem,
desculpem, de um Homem, que ganhou o seu lugar na vida.
Infelizmente, e isso também é verdade, normalmente, os poetas só
são grandes quando iniciam a viagem interminável. É o que vai
acontecer, certamente, ao José António Gonçalves, o JAG com quem
tantas e tantas vezes assinei trabalhos nesta mesma página. O
José António vai ser, agora, referência nos jornais, nas rádios,
nas antologias, nas colectâneas onde ele já consta, mas não com
aquele destaque que o seu merecimento deveria ter, por isso, a
sua “Poesia dos Calendários” continua disponí-vel em “http://members.netmadeira.com/jagoncalves/calendario.htm”.
E porque, como dizia José António Gonçalves, “… espalha sorrisos
e perfumes de flores nos lugares em que tocares”, um perfume de
flor entre os muitos que o seu “calendário” me trouxe.
A construção da casa
Traz-me o teu corpo num prato
de porcelana fina muito doce
e quebrável
Expõe-te ao murmurar das plantas
verdes do meu jardim
e cobre-te de sombras
Suspira para escutar-te e procurar-te
junto dos meus ouvidos no céu
da boca húmida
Espalha sorrisos e perfume de flores
nos lugares em que tocares ao de leve
com o brilho dos olhos
Entra no meu palácio em passo de pluma
ou se quiseres com a perícia da asa
das borboletas
Só assim, meu amor, construiremos a casa
com as suas paredes de espuma
e as palavras dos poeta
(inédito, 27.6.04)
E porque ele, o poeta, antes de viajar, me deixou muitas páginas
escritas pela sua mão, em especial sobre poetas da Ilha,
continuaremos, ambos, a assinar páginas neste mesmo lugar.