Homenagem ao poeta José António Gonçalves

Notícias da Madeira – 31 de Março de 2005

 

 




“Quando alguém escreve uma notícia está a fazer História.” Foi desta forma que o escritor referiu-se ao jornalismo, numa das entrevistas dadas ao nosso jornal.

Morreu aos 50 anos o poeta, professor e escritor José António Gonçalves. A escrita portuguesa perdeu um homem mas ficou a ganhar com as obras literárias que deixou ao povo como herança cultural.
Em devida homenagem, o Notícias recorda excertos do perfil de José António Gonçalves, pela escrita do jornalista Márcio Berenguer, numa das entrevistas que o escritor deu ao nosso jornal.
“ Nasceu em 1954 numa casa de pedra”, rodeado por discos e instrumentos musicais. Mas não se fez músico, nem cantor…tornou-se poeta. Um prazer, o da escrita, que encontrou no atelier da mãe, Eulália, que era modista. “A loja estava sempre cheio da revistas e jornais”, e José António Gonçalves costumava devorar essa leitura. Foi também aí que nasceu o fascínio pelo jornalismo. “Quando alguém escreve uma notícia está a fazer História”, diz, enquanto acrescenta mais soda ao copo de whisky, que acabou de pedir ao empregado.
A mulher, Gilda, está sentada ao seu lado, na mesa do “Almirante”, na Zona velha do Funchal. “Conheci o José António muito cedo”, recorda ela. “Foi na Juventude Operária Católica. Ela estava a aprender inglês”, interrompe o marido. “ Foi paixão à primeira vista”, acrescenta.
Uma paixão aos 18 anos, que resultou num casamento que já dura há 30, do qual nasceram três filhos: Arabela, de 29 anos, Marco António, de 28, e Andreia Natacha, de 23. Todos eles, como o pai, nasceram com o gosto pelas artes. “ A mais velha faz teatro, o Marco António é pintor e músico e a Andreia está a seguir as pisadas da irmão” conta, orgulhoso, José António.
Também ele herdou a “veia artística” do pai, um metalo-metalúrgico que desenhava “maravilhosamente”. Em “jovenzinho”, José António também desenhava e pintava. “Um professor ofereceu-me uma caixa de lápis de cera”, recorda com saudade. Os seus desenhos agradavam tanto que o mesmo professor alertou Eulália para o talento do filho. Mas eram as letras que o fascinavam, e a pintura acabou por ser uma ténue recordação de infância. Uma das muitas que pretende fazer renascer no seu próximo livro: “Recordações da Casa de Pedra”. A casa pertencia à avó e foi construída sobre uma pedreira, no Amparo. “Todos os filhos da minha mãe nasceram aí”, diz, mexendo com uma palhinha o whisky cheio de gelo. Foi o antepenúltimo dos dez irmãos a nascer, na casa do homem que era conhecido como o “couto do amparo”. O meu avô, recorda, tinha uma fábrica de explosivos, e um acidente “roubou-lhe um abraço. Também José António foi “roubado”, mas de quatro irmãos que já morreram. Um deles, o mais velho, era pintor, e foi responsável pelos seus “ rabiscos” de criança.
Mas uma professora primária e mais tarde um professor do Liceu encaminharam-lhe para o que José António queria mesmo fazer. “Enfrentar uma folha de papel branco e escrever.” Escrever, não por sofrimento. Escrever, não por amargura.”Escrever por necessidade, ponto final.” Em guardanapos, em toalhas de papel, num bloco de apontamentos, numa máquina de escrever ou num computador.” No que estiver mais à mão.”
O prazer pelo jornalismo começou bem cedo, quando José António, ainda criança, enviava os seus textos para vários jornais, regionais e nacionais, e enchia-se de orgulho quando via as suas palavras em caracteres impressos. O seu último projecto é escrever a “Epopeia da Madeira”. Um livro que conte a História da Região desde a descoberta até à actualidade.”Todos os livros que escrevo são presentes que ofereço a alguém”, diz. E este pode ser para os netos que espera vir a ter…
José António Gonçalves conseguiu concretizar estes jogos.

 

 

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