MORTE DO POETA JOSÉ ANTÓNIO GONÇALVES SURPREENDE O MEIO CULTURAL MADEIRENSE


A notícia do falecimento súbito do poeta e dinamizador de iniciativas culturais provocou reacções de consternação

Diário de Notícias - quinta-feira, 31 de Março de 2005 –

 




A Cultura madeirense ficou mais pobre com a morte súbita do poeta José António Gonçalves, ocorrida anteontem. A notícia do falecimento do também presidente da Associação de Escritores da Madeira e da Associação de Desportos da Madeira colheu de surpresa muitas personalidades do meio cultural regional, que se confessaram consternadas com esta perda.
A escritora Maria Aurora Homem, durante longos anos companheira de José António em tertúlias e convívios diversos, lembrou ontem «noites e noites de sonhos, de partilhas, de cumplicidades. Ele era um homem com defeitos, como todo o ser humano, era um pouco narcisista, mas era também carinhoso e caridoso».
«UM HOMEM ARREBATADO»
Para Maria Aurora, José António Gonçalves «era um grande poeta, sem dúvida, um homem arrebatado, aparentemente cheio de certezas mas no fundo de uma grande fragilidade interior, com quem tive grandes controvérsias, das quais não me arrependo porque acho que as mesmas só acontecem quando as pessoas são verdadeiramente amigas. No fundo, chego à conclusão que nunca duvidei da sua qualidade poética. Deixa uma grande obra que, devidamente "peneirada", dá das melhores coisas que a poesia portuguesa obteve da Madeira, nos últimos anos».
Por seu turno, Fernando Figueiredo, docente do Departamento de Romanísticas da Universidade da Madeira, lembrou José António como «uma personalidade que tem o mérito de ter agitado o meio cultural com a sua produção, e com as suas intervenções, na minha opinião polémicas. Mas se calhar essa polémica teve o mérito de "agitar as águas", de pôr a comunidade a discutir problemas (...)». Sobre o que conhece da sua poesia, este professor considerou alguns textos «muito interessantes, um aqui, outro ali, faltando-lhe, possivelmente, um pouco mais de tempo para trabalhar os outros, e dar-lhes o mesmo fulgor. Demonstrou abundamente a sua criatividade, e teve capacidade de iniciativa e capacidade financeira para colocar os livros no mercado, e isso dinamizou a produção e a publicação de textos literários aqui na Madeira».
A escritora e docente universitária Ana Margarida Falcão destacou, por outro lado, o carácter «vasto e por vezes irregular» do trabalho literário do poeta falecido, considerando que nas obras mais recentes «havia uma evolução grande, uma maior preocupação em retrabalhar, em afinar, em aperfeiçoar, em depurar a palavra». Ontem, confessou, levou um livro de José António Gonçalves para a as aulas e esteve a ler poemas com os seus alunos. «Permanecem comigo não só as memórias dele como amigo, mas também as palavras dele como poeta».
Finalmente, João Henrique Silva, director regional dos Assuntos Culturais, lamentou a morte de José António, «que ocupava, por mérito próprio, um lugar entre as figuras da cultura madeirense».
«Penso que ele sempre se pautou, nas suas intervenções, na sua acção como criador e agente cultural, por princípios humanos, de boas relações e amizade. Deixava-se estimular por factores positivos e nunca negativos. Nunca serviu para ilustrar um conjunto de estereótipos negativos que por vezes são utilizados para caracterizar o mundo demasiado pequeno da chamada "Cultura", no sentido social e às vezes até "etnográfico"».
Jornalista, poeta e promotor cultural
José António de Freitas Gonçalves nasceu em São Martinho, Funchal, a 13 de Junho de 1954. Antigo jornalista profissional do Jornal da Madeira, foi dirigente da secção regional do Sindicato dos Jornalistas e da Associação dos Jornalistas da Madeira. Revelou-se como poeta ainda muito jovem, em "O Poeta Faz-se aos Dez anos", de Maria Alberta Menéres. A partir daí, prosseguiu uma carreira literária ao longo da qual produziu quase duas dezenas de livros, sem contar com as antologias. Fundador de várias colecções literárias, nelas editou não apenas trabalhos seus mas também deu a conhecer e ajudou a divulgar a obra de múltiplos autores da Madeira, e não só. Privou com múltiplos vultos de destaque da vida cultural portuguesa. Como agente cultural organizou também toda uma diversidade de eventos.


Luís Rocha


 

 

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