Uma mulher com mais de 3.000 anos escapou,
na madrugada de ontem, às autoridades, e
andou à solta pelas ruas do Funchal,
espalhando o pânico e a confusão entre as
pessoas que a avistaram. Os pormenores desta
fuga não estão ainda esclarecidos, já que as
autoridades policiais recusaram comentar,
dizendo apenas que estão no terreno a
investigar.
A fugitiva, conhecida pela alcunha de
'Poesia', está referenciada pelas
autoridades pela prática de diversos crimes,
como escrita subversiva e a divulgação de
mensagens reaccionárias e românticas.
A 'Poesia' foi vista logo de manhã, na zona
da Praça do Município, por uma mulher que
teve que ser assistida no Serviço de
Urgências do Hospital Central do Funchal.
"Eu ia para o trabalho, descansada da vida,
quando ela aproximou-se e disse que 'alguém
derramou um punhado desordenado de poemas
sobre as pedras nuas dos caminhos e dos
becos da ilha'", contou a mulher, que
preferiu não se identificar.
A mesma fonte, antes de entrar na
ambulância, balbuciou ainda que hoje era o
dia. "O resto dorme escondido nas
entrelinhas, nas malhas da poesia", disse,
acusando a fugitiva de ter 'infectado', com
estas palavras, o escritor madeirense José
António Gonçalves.
Mais tarde, a 'Poesia' foi vista amarrada a
uma árvore no Largo do Phelps, a gritar, do
alto de um ramo, palavras confusas, que
desnortearam muitos transeuntes. "Na ténue
névoa vermelha da noite, víamos as chamas,
rubras, oblíquas, batendo em ondas contra o
céu escuro. No campo em morna quietude,
crepitando, queimava uma árvore", ouviu-se
no local. A frase afectou o marido de Maria
Isabel, uma funcionária administrativa de 43
anos. "Por hábito nós comemos sempre em
centros comerciais, mas hoje o Manuel disse
que queria fazer um piquenique, para ver a
natureza. Já viu isto?", explicou a mulher,
acrescentando que teve que internar o marido
quando ele em vez ler, como habitualmente, a
página dos 'Casos do Dia', pôs-se a repetir
as palavras do poeta alemão Bertolt Brecht,
que havia escutado no Largo do Phelps.
A 'Poesia', que o Governo já negou a
existência, foi avistada ainda na Rua da
Penha de França, nas imediações do Casino,
dizendo, a quem a encontrava: "Talvez não te
espantes, por tão íntimo achado, mas não há
roxo mais puro, do que esta tinta inefável,
que há poucos dias escorreu do arco-íris". A
mulher, segundo apurámos, continuava, à hora
do fecho desta edição, no mesmo local,
debruçada sobre um muro, à sombra dos ramos
de um jacarandá. "Repara como esta minúscula
flor pode ser o roxo de uma celebração",
dizia a quem passava.
INICIATIVA INÉDITA PARA ASSINALAR O DIA
MUNDIAL
Para assinalar o Dia Mundial da Poesia, que
ontem celebrou-se, foi realizada uma
iniciativa privada que consistiu em espalhar
poemas pela cidade do Funchal. O DIÁRIO
aderiu à iniciativa, através do texto acima
que, como facilmente se compreende, é
ficcionado, tendo o tipo de notícias que
habitualmente cabem na secção de 'Casos do
Dia'.
Durante a madrugada de ontem, foram
colocados alguns poemas em locais como o
Largo do Phelps, Praça do Município e Rua da
Penha de França, com o objectivo de
surpreender os cidadãos e sensibilizá-los
para a efeméride. A reportagem do DIÁRIO foi
à procura desses textos nascidos do punho
dos poetas madeirenses José António
Gonçalves, Irene Lucília Andrade e do alemão
Bertolt Brecht. Algumas das poesias foram
retiradas dos locais, mas outras permanecem
no mesmo sítio. Portanto, se um dia destes
cruzar-se com um poema, não se assuste nem
entre em pânico. Pare e leia.