VENCEDOR DO CONCURSO

O prémio do concurso "envie uma nota de leitura sobre um poema de Jorge de
Sousa Braga", foi atribuído a José António Goncalves pelo texto:



A ALEGORIA DO POEMA "SAGRES" DO POETA JORGE DE SOUSA BRAGA


SAGRES

Só tenho uma ponta de
cigarro para fumar
E para apagá-la:
todo o mar


A poesia de Jorge de Sousa Braga não é discursiva. Nela não se bebe em
grandes sorvos a narrativa de extensas histórias; apenas navega na sua
superfície um palmito de verde substância, uma espécie de salva-vidas para o
agarrar de um náufrago atormentado, onde nem espaço há para uma mão.

Disfarçado de pequena e frágil embarcação, aparenta, contudo, a
segurança dos rochedos; porém realiza-se na simplicidade dos ninhos que se
lhes apegam às reentrâncias, nas sofridas aflições da humanidade, nas
substâncias que dão sentido ao exacto momento de repensar os instantes, as
fugazes imagens do quotidiano que mal se retêm no olhar mais atento, por tão
banais, tão recopiadas nos gestos e nos sentimentos.

É por isso que a textura poética de Jorge de Sousa Braga se protege em
artifícios, em dilemas de dupla significação, como se escondesse o rosto em
capas grossas de velhos códigos de guerra, exigindo a decifração do terreno
em que se ergue como casas em ruínas ou palácios coloridos e magníficos. A
declaração de incapacidade de atingir o prazer dos consumos - neste caso
utilizando a metáfora do cigarro em "Sagres" - pela limitação quantitativa,
é bem um exemplo desta escrita que, autofagindo-se na sua capa-sintética,
afinal procura estender-se por universos mais vastos. É o percurso da
pequenez da estrutura geográfica portuguesa, a "ponta do cigarro" que
ansiando a conquista de outros mundos, possui um morrão próprio que só
poderá animar-se com a certeza de que há um mar, vasto e virgem, amplo e
generoso, que aceitará o sacrifício de o apagar, na imensidão das suas
águas.

Esta imagem, se outra não houvera na Literatura Portuguesa (com Camões e
Pessoa à cabeça) bem poderia ser o símbolo, anti-hermético e dinâmico, a
paráfrase das odisseias marítimas que o Infante D. Henrique, na sua solidão
em Sagres, gizou para destino da portugalidade. É dos mais belos, na sua
escrita contida, dos poemas contemporâneos de origem lusíada. A merecer
leitura e a revolta do leitor contra a sua contenção. A energia do não-dito
habita os seus quatro versos; obriga ao silêncio da reflexão, ao apuramento
do sal que engrossa essas águas oceânicas onde o respirar dos navegadores se
abalançou à queimadura das marcas lusitanas; nelas nasceram as cicatrizes
dos cigarros, de todos os cigarros do mundo, apagados pelo tempo. Encobre-se
em bandeira por desfraldar, face ao antecipado conhecimento do resultado da
sua viagem; para os portugueses, apesar do "todo o mar" para os apagar, o
que importa agora é que lhe faltam os cigarros. Daí que encolham os ombros e
nem sintam a chama que os impelia para a aventura da descoberta infinita.

José António Gonçalves
 
     
 

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