A VIAGEM ERA A CARAVELA

 

a Ernesto Rodrigues

 

a viagem era a caravela nos sonhos de Zarco

nesse tempo onde o vento soprava lenços e viúvas

esperavam no cais de todas as partidas

 

eram escarpas chamando ao longe pelos descobridores

penedias e morros ainda sem nome bramindo no mar

ansiando pelo colmo no calor das enxadas

 

havia terra e arvoredo madeiras para construir

igrejas e naus no coração dos agricultores

empurrando-os sempre para o nevoeiro dos horizontes

 

os primeiros não conheciam as artes do bordado nem das vinhas

semeavam o trigo para enganar o destino e os rochedos

amando a cana-de-açúcar nos abismos da aguardente

 

depois é que chegaram os engenhos e a sabedoria dos velhos

o atravessar das entranhas com os cânticos das levadas

e o xaramba dos arraiais no elogio das alegrias

 

os campos aprenderam a dança das flores e dos abacates

enchendo as manhãs de silêncios e do cheiro a erva fresca

deixando correr as crianças no vagar das bananeiras

 

as pradarias pintavam-se com as cores das casas

e de vez em quando uma árvore amparava a chuva

para receber o pólen do futuro

 

as ilhas não frequentavam o medo dos marinheiros

e os calhaus não cheiravam ao suor dos homens

onde as mulheres os vinham chorar

 

 

José António Gonçalves

(in «À Espera dos Deuses», Ed. Correio da Madeira, 1999)

 

 

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