APENAS POESIA

 

Hoje as calçadas amanheceram com o branco

da poesia a iluminar-lhes o orvalho da madrugada.

Alguém derramou um punhado desordenado de poemas

sobre as pedras nuas dos caminhos e dos becos da ilha;

os muros arrumaram-se em volta das rimas e dos versos livres

e as paredes de repente caiaram-se de palavras límpidas

como as penas dos gansos brincando no convés das ribeiras.

 

É o Dia do Sol espumando a água dos vulcões silenciosos

a invadir os cadernos alvos de apontamentos com as flores

e as estrelas dos poetas embalados pelas ondas do mar;

canta as ruas, as árvores e ama as casas, os velhos cansados

e as crianças que se escondem alvoroçadas entre as mãos da mãe;

assim procura viver as aventuras dos barcos, habitar as sombras,

acordar a solidão dos ventos, amainar o pulsar do coração dos homens.

 

Hoje é o dia de partir em busca das brisas suaves da primavera,

o momento de encantar as serpentes, de aplainar os socalcos das montanhas,

de aprender novos cânticos no murmurar dos riachos, na voz dos pássaros.

Hoje é o dia do louvor aos hinos, às hossanas, aos abraços de amigos

vencendo as agruras e os medos das distâncias, às cartas por escrever,

aos segredos bem guardados, ao respirar apressado do amor.

É hoje o dia. O resto dorme escondido nas entrelinhas, nas malhas da poesia.

 

José António Gonçalves

(inédito, 14.03.03) 

 

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