AVÉ AVA

    Cântico para Ava Gardner

 

és ava com cheiro a erva

com corpo de garça

e memória de eva

 

és ava com suor maduro

enxameando um olhar convexo

és eva vestida de sexo

 

és ava e estátua grega

animal acossado nas plateias

és eva brincando à cabra-cega

 

és ava com partículas de fogo

água soberba na enchente dos rios

incêndio de carne no calor dos estios

 

és ava ou ave ou sequer

uma santa de porcelana branca

disfarçada com pele de mulher

 

és ava e podia ser um objecto

um símbolo uma lembrança o ritual

da paixão vestindo o desejo de afecto

 

és ava eva com os ombros nús

olhos apelando à saliva quente

no silêncio escuro dos cinemas

 

és ave eva ava de pele macia

a noite mansa despida sob o lençol

esperando que jamais se faça dia

 

José António Gonçalves

(in "Os Pássaros Breves", ed. Átrio,

Col. "O Lugar da Pirâmide",  nº. 38,

posfácio de João Rui de Sousa,

Lisboa, 1995)

 
 

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