CRÓNICA DO NÁUFRAGO ADORMECIDO
NOS BRAÇOS DE UMA SEREIA
escutam-se nos seus cabelos as ondas
do
mar como se os abismos trouxessem o eco
dos
peixes beijando-se em camas de algas
e os
pescadores fossem deuses a invadir búzios
reinos de silêncios quebrando o encanto
da
água exposta na luz dos espelhos
com o
sexo à flor da pele palpitando
por
entre os olhos da natureza a chamar
sempre ao longe como se pudesse convencer
um
corpo a ficar eternamente abraçado
a
outro corpo no lugar onde é possível
construir a casa habitar o tempo e sorrir
aos
pássaros que passam na rota do sol
sim é
possível escutar as ondas batendo
na
rocha macia dos seus cabelos soltos ao vento
José António Gonçalves
(in
«Os Pássaros Breves», Átrio, Lisboa, 1995)