e digo:

 

não suspiro nem respiro. espero

o pressentimento do teu corpo a chegar

sem alento. recebo a tua voz aglutinada,

restaurada por um vento ilhéu, isolando

o som da dor deste soluço a se afundar na

água azul, ensopando a madeira das montanhas,

e misturo-me nos teus cabelos longos

abraçado às palavras baixas, desencontradas,

a nascer nos teus lábios suados. toco-te

e mexes-te. aconchegas-te amareladamente

entre o espaço da corola dos meus dedos

e desfazes-te nos raios de sol da tua cor

agonizante. deixo-me sem sangue, morto,

derrubado e enterrado no teu leito

de ervas vivas e macias. vejo-te

surgir devagar, através das horas,

mutilando o calendário, enlouquecendo os dias

e, amolecido de contentamento, nem sinto

entrares nos meus olhos, nas minhas mãos,

sem a força de um rosto firme

 nem o ímpeto da fera em cima

da presa

e digo:

maio manhã flores cordões e há quem morra

e há quem ame e renuncie

e na ilha aparecem mais homens desarmados

na luz calma, no espelho incandescente

da vida

e ressuscito lentamente no mês em início

sem o rubor da minha face flamejante

nem o aquecimento dos meus poros

porque dum útero podre e velho

dos anos

criou-se o tempo de reviver.

 

José António Gonçalves

(inédito, 1973)

 

 

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